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1951

Arquivo Folha/Arte UOL

08/03/2007 - 09h00

Brasileiro que encantou Perón esquece a história

Antoine Morel
Em São Paulo

No lendário ginásio portenho Luna Park, 30 mil pessoas acompanhavam a semifinal do torneio de boxe dos Jogos Pan-Americanos naquele 5 de março de 1951. No ringue, Pedro Galasso, um brasileiro de 19 anos, enfrentava uma fera local: Francisco Núñez.

A luta equilibrada termina. Galasso se sente vencedor. Mas o jurado caseiro dá o triunfo para o preferido do público. No meio do clamor, um torcedor desce da tribuna para cumprimentar o injustiçado: o presidente argentino, Juan Domingo Perón, faz questão de apertar aquela mão já sem luva, reconhecendo sua superioridade. Atrás dele, Evita entrega ao brasileiro uma medalha pela bravura no combate.

Como outras história dos Pans passados, essa cena ficou perdida no esquecimento, até do próprio boxeador. “Ele não fala mais. E lembra de mim só”, lamenta Janet, sua mulher. Galasso é hoje, aos 77 anos, mais um interno em uma clínica de repouso de Itapecerica da Serra (Grande São Paulo). Suas glórias se apagaram lentamente ao longo dos 13 anos em que sofre do mal de Alzheimer. Anos atrás, ele cerrava os punhos e se colocava em guarda quando alguém falava a palavra “boxe”, esporte que praticou desde os 14 anos. Agora, nem mais isso.

Arquivo Folha
Pedro Galasso era conhecido não tanto por sua técnica mas pela sua força nos ringues
Com ou sem méritos, os argentinos ganharam todas as medalhas de ouro no ringue do 1º Pan-Americano. Galasso voltou para São Paulo apenas com a medalha dada por Evita. Na bagagem, recorte de jornais relatando a saudação de Perón ao pugilista. O mandatário argentino era fanático por esportes e praticou boxe e esgrima no exército antes de entrar para a vida política (esteve entre os espadachins que tentaram uma vaga na Olimpíada de Paris-1924, sem sucesso).

Por essa paixão esportiva, o líder argentino conseguiu fazer de Buenos Aires o cenário da estréia do Pan. E aproveitou para fazer campanha para a eleição de 1952. Ele e Evita compareceram em vários estádios e ginásios. Fez efeito. Perón se reelegeu, mas foi derrubado em 1955 por um golpe de militares inimigos. Voltaria ao poder em 1973, mas morreu antes de cumprir o mandato, deixando como legado o movimento peronista. Desde sua morte, apenas presidentes peronistas conseguiram acabar suas gestões, e o atual mandatário, Nestor Kirchner, é do partido fundado por Perón, o PJ (Partido Justicialista).

Por seu lado, o retorno de Galasso de Buenos Aires teve pouca repercussão. Os mais festejados foram Paulo Sacoman e Lucio Grottone, que conquistaram a prata nos médios e meio-pesados, respectivamente. No ano seguinte, ele viajou para os Jogos Olímpicos de Helsinque, mas outra vez voltou sem medalha.

O momento de glória, porém, veio em 1958, quando se transformou no primeiro brasileiro a ter um título continental de boxe profissional. No ginásio do Ibirapuera, ele bateu o chileno Sérgio Sálvia para levar cinturão sul-americano, inaugurando o hall de boxeadores de nível internacional como Eder Jofre, Miguel de Oliveira e Acelino “Popó” Freitas..

“Treinei com ele várias vezes. O apelido era Piranha porque ele não saía de cima. Ele era demais. Tinha um fôlego enorme. Não era bom na técnica, mas era muito forte”, revela Éder Jofre, que treinava com Galasso na famosa academia de Kid Jofre, seu pai, na rua Santa Efigênia, número 176, onde hoje é mais uma loja de eletrônicos, comum na região.

Antoine Morel/UOL
Na casa do Bixiga, onde morou com Galasso, Janet guarda os troféus do marido
Kid Jofre foi o técnico da seleção nos Pan-Americanos e Olimpíadas até a década de 1960. “Ele tinha confiança no Galasso. Você pegava 10 lutadores, mas só dois ou três se destacavam. O Galasso era um deles”, conta Éder sobre a relação de seu pai com o boxeador paulistano. “A última vez que eu o vi foi há um ano. Ele estava prostrado, apoiado nos cotovelos. Cheguei pertinho dele. Ele começou a chorar e abriu bem olhos. Achei que foi sinal de que ele me reconheceu”, completa o maior pugilista da história do Brasil.

Paralelamente ao boxe, Galasso era funcionário público e mais tarde um especialista em consertos de máquina de lavar. Segundo Janet, “ele até pagava para lutar”. Após se aposentar dos ringues, ele começou treinar um pequeno grupo de pugilistas em uma academia na rua da Consolação. Foi lá que João Henrique da Silva, prata nos Jogos Pan-Americanos 1963 no peso leve, se formou.

Por falta de recursos, Galasso teve que fechar a academia e recebeu um cargo administrativo na Federação Paulista de Boxe. Ficou lá até começar a ter problemas de saúde, em meados da década de 1990. Começou a se perder sozinho nas ruas e teve que abandonar também sua função de reparador de máquinas.

O filho de italianos de Bari e morador famoso do bairro do Bixiga começou a sair na rua e ficar entre mendigos, esquecido de onde estava. Com esse quadro, desde 2004, Galasso está na clínica permanentemente. O médico Feliz Antonio Reyes diz que ex-boxeador está em um quadro estável: “Ele já teve fraturas e a recuperação dele, por ter sido atleta, é muito boa. Ele é muito forte”.

Em sua casa, no Bixiga, Janet guarda alguns troféus e lembranças de Galasso. A taça do Sul-Americano de 1958 está Museu do bairro, doado pelo boxeador. A medalha recebida de Evita está com o filho, Lino Celso, ex-jogador e técnico de futebol na Noruega. “Ele levou como recordação do pai”, conta Janet, que tem mais duas filhas no Brasil. Galasso, na clínica, não reconhece nenhum deles mais. Com 13 anos acompanhando a doença do marido, ela se admira: “Ninguém dura tanto com essa doença. Ele tem o coração muito forte”. Assim como na época dos ringues, Galasso não se entrega.