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Alicia Klein: Absurdo querer calar o atleta no momento de maior exposição

Do UOL, em São Paulo

02/08/2021 12h54

A atleta americana Raven Saunders se manifestou no pódio durante a cerimônia de premiação do arremesso de peso feminino nos Jogos Olímpicos de Tóquio. A atleta ergueu os braços e os cruzou em X, alegando posteriormente que representava "o cruzamento em que todas as pessoas oprimidas se encontram", gesto que pode render até punição a ela, já que, embora o Comitê Olímpico Internacional (COI) tenha flexibilizado a manifestação de atletas, ainda mantém a restrição no pódio.

Em sua participação no UOL News Olimpíadas, a jornalista Alicia Klein, colunista do UOL, defende o direito à manifestação da atleta e considera que qualquer punição por parte do COI pode ter uma repercussão ruim para a própria entidade e a organização dos Jogos Olímpicos. Para ela, o COI já perdeu o controle em relação às manifestações.

"Eu acho impossível separar o esporte da política e acho um absurdo você querer calar um atleta no momento de maior exposição que ele tem na vida. É claro que o espírito olímpico, congraçamento dos povos, mas você tirar do atleta, em que outro momento ela poderia fazer uma manifestação que teria tanta repercussão quanto agora? Em que outro momento ela poderia levantar essa questão dos povos oprimidos, do racismo, da LGBTfobia, em que outros momentos ela poderia fazer isso com tanta expressão do que ela estando em um pódio olímpico?", questiona Klein.

"Claro, à parte o discurso de ódio, que obviamente não tem espaço em lugar nenhum, o atleta se manifestar eu acho maravilhoso e acho sinceramente que fugiu do controle do COI. O que a gente está vendo hoje com a explosão das mídias sociais dos atletas e desse crescimento vertiginoso do número de seguidores de alguns atletas, eles hoje são os porta-vozes, eles são as vozes olímpicas, não é o COI, não são os comitês olímpicos nacionais. Então não tem mais como impedir, eu acho que a repercussão, até porque já está feita a manifestação, de essa atleta ser punida, seria terrível para o movimento olímpico e para a luta que é essa bandeira que ela está levantando", completa.

O ex-atleta olímpico Sandro Viana, bronze nos 4x 100m rasos em Pequim, também defende o direito de manifestação da atleta e afirma não considerar que isto fira a Carta Olímpica, por apontar o gestou de Saunders como uma ato pacífico.

"A Carta Olímpica basicamente fala de que o esporte e a válvula de escape, ele é a alternativa anti-guerra. Então, sim, quanto às manifestações de ódio, eu também concordo com a Alicia que isso não é concebível, agora, manifestações políticas, eu acho que talvez não tenha outro esporte, respeitando todos os esportes, não tem outro esporte mais politizado do que o atletismo, então para nós é comum, se você conviver e adentrar o mundo do esporte, você vai ver como os atletas são politizados, têm uma sofisticação na forma de pensar e de agir, representam muito bem suas classes", afirma Viana.

"A manifestação dela, a meu ver, é uma manifestação pacífica, apesar de política, uma manifestação pacífica e sim, mesmo que você não se manifeste no pódio, porque ainda assim existe no papel a regra de que não se pode se manifestar no pódio, apesar de que o COI já está começando a flexibilizar, o atleta vai continuar se manifestando nas redes sociais e no dia a dia normalmente e conduzindo agora uma medalha olímpica, então vai ter que se chegar a um senso comum porque em alguns lugares pode, outros lugares não pode, então é preciso definir essa situação", conclui.