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29/09/2004 - 06h58
Clodoaldo dá show e vira a cara do esporte paraolímpico brasileiro

Lello Lopes*
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

Ele não gosta da comparação, mas provou nos Jogos Paraolímpicos de Atenas que é mesmo o "Michael Phelps brasileiro". Clodoaldo Francisco da Silva, de 25 anos, se tornou o maior nome do Brasil na competição, com seis medalhas de ouro, uma de prata e quatro recordes mundiais na natação.

Reginaldo Castro/CPB Divulgação 
Clodoaldo volta dos Jogos de Atenas com seis ouros e uma prata em sua bagagem
"Eu sou mais bonito que ele", dispara o brasileiro, sempre de bom humor. Vítima de paralisia cerebral por falta de oxigênio durante o parto, que afetou o movimento das pernas e o deixou com uma pequena falta de coordenação motora, Clodoaldo Silva chegou a Atenas com uma disposição: melhorar os seus tempos. "Vim aqui para fazer o meu melhor. Se isso significar sair com medalha, ótimo. Se não, tudo bem", disse, antes da competição.

E o melhor de Clodoaldo começou a aparecer logo na primeira vez em que ele caiu na piscina do Centro Aquático Olímpico de Atenas. Nas eliminatórias para os 100 m livre, o brasileiro bateu o recorde mundial. Algumas horas depois, na final, ganhou a medalha de ouro.

O segundo ouro veio no dia seguinte, nos 200 m livre. Clodoaldo largou mal, mas se recuperou e conseguiu uma boa vantagem sobre os rivais, subindo novamente ao topo do pódio. Sincero, admitiu que não gosta de disputar a prova.

Especialista no nado livre, Clodoaldo deu show também em outros estilos. Nos 50 m borboleta, prova que começou a disputar há um ano "por brincadeira", ele conquistou o terceiro ouro e o terceiro recorde mundial.

E a coleção de medalhas não parou por aí. Depois da prata no revezamento 4x50 m livre, Clodoaldo ganhou o ouro nos 150 m medley, outra prova na qual não era favorito. Restavam ainda duas competições, e as duas mais aguardadas pelo nadador: os 50 m livre e o revezamento 4x50 m medley.

Antes da Paraolimpíada, a única prova na qual Clodoaldo detinha o recorde mundial era os 50 m livre. Por isso, era uma questão de honra levar a medalha de ouro na modalidade. E ela veio com tranqüilidade e com um novo recorde mundial.

Já o revezamento 4x50 medley era aguardado porque Clodoaldo queria dividir a emoção do topo do pódio com os amigos Adriano Lima, Luis Silva e Francisco Avelino. No final da prova, ovacionado pelo público, o gigante brasileiro em Atenas chorou.

"Todas (as medalhas) me deixaram feliz, mas a emoção maior é a última prova, que veio para um grupo sensacional. São atletas que abriram mão de tudo pelo esporte e agora estão tendo uma recompensa", disse Clodoaldo.

O próprio nadador enfrenta dificuldade para conseguir treinar. Morador da periferia de Natal, ele precisa pegar dois ônibus e depois andar por dez minutos para chegar ao local de treinamento. Para conseguir isso, tem que acordar às 4h30 da manhã.

"Venho de uma família de muita humildade. Se faltaram coisas materiais, nunca faltou amor ou dedicação da minha mãe", disse Clodoaldo.

Embora tenha atingido o ápice em Atenas, a primeira Paraolimpíada do atleta já havia sido fantástica. Em Sydney-2000, ele conquistou quatro medalhas, sendo três de prata e uma de bronze.

Mas a preparaçãoi foi um pouco mambembe. Clodoaldo, que teve um primeiro contato com a natação em uma lagoa perto de onde morava quando menino, só começou a treinar em 1998, em uma parte do proceso de reabilitação.

Mas o sucesso na Austrália fez com que Clodoaldo se dedicasse exclusivamente à natação. Em 2001, ele largou o emprego de auxiliar de escritório em uma farmácia de Natal, cidade onde nasceu, para aumentar o ritmo de treino.

Assim, Clodoaldo ganhou velocidade e apurou a técnica. Em agosto de 2002, a extensão de sua braçada chegava a 1,53 m. Hoje, atinge 1,87 m, fruto da intensificação dos treinos no Sadef (Sociedade Amigos dos Deficientes do Rio Grande do Norte), que passaram de 3.500 m para 8.000 m por dia.

Reginaldo Castro/CPB Divulgação 
Mais forte do que nos Jogos de Sydney, em 2000, Clodoaldo consegue se manter na liderança do início ao fim das provas
"Forte. Ele é muito forte", admite o japonês Yuji Hanada, maior rival de Clodoaldo, que em Atenas perdeu o recorde mundial dos 200 m livre para o brasileiro. "Eu tenho orgulho de competir com um cara que é recordista mundial", completa o brasileiro Joon Sok Seo. "Clodoaldo surpreende em cada prova. Estar junto com ele é sinônimo de vitória", encerra Francisco Avelino.

A largada é a grande arma de Clodoaldo. Um dos poucos nadadores que conseguem sair do bloco em sua classe (a maioria, pela deficiência, larga de dentro da piscina), o brasileiro abre vantagem no início da prova.

Em Sydney, isso já acontecia. Mas na Austrália Clodoaldo perdia o ritmo no meio do caminho. Agora, visivelmente mais forte, com os músculos mais definidos, o brasileiro consegue manter a liderança até o final.

O resultado foi visto em Atenas, e deixou Clodoaldo na condição de segundo maior medalhista brasileiro da história das Paraolimpíadas (com onze medalhas está apenas uma atrás de Ádria Santos, do atletismo). Mesmo assim, ele mantém a humildade, "A natação fez muito por mim. Acho que o que eu fiz foi muito pouco pelo que o esporte fez por mim. Graças a ele eu consegui ter uma qualidade de vida e um lugar na sociedade", diz o campeão, com a mesma serenidade que demonstra na piscina.

* O jornalista Lello Lopes viaja a Atenas a convite do Comitê Paraolímpico Brasileiro

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