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A proposta radical de cientista e atleta trans para incluir transgêneros no esporte 'de forma justa'

joanna harper - Reprodução/Facebook
joanna harper Imagem: Reprodução/Facebook

Megha Mohan - Correspondente de identidade e gênero da BBC

02/08/2021 16h12

Corredora transgênero e consultora do COI, Joanna Harper estuda os efeitos da terapia hormonal no desempenho esportivo e defende que, no futuro, atletas deixem de ser divididos entre homens e mulheres e sejam adotados outros critérios para definir quem competirá com quem.

Joanna Harper, pesquisadora que assessora o Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre atletas transgêneros, ela mesma uma corredora trans de longa distância, diz que é possível tornar o esporte justo para todos.

Sua jornada começou quando Joanna, então com 6 anos, vivendo em uma pequena cidade no Canadá, perguntou a um amigo se ele gostaria de tentar viver como uma menina. A reação de choque e escárni, bastou para que ela nunca mais fizesse aquela pergunta a ninguém.

Ela soube desde cedo que era diferente. Uma menina no corpo de um menino era assim que Joana se via, uma "canhota em um mundo construído para pessoas destras", em suas próprias palavras.

Brincava com as coisas da irmã e gostava de roupas femininas, mas naquela época diz que não conseguia entender sua própria identidade. Afinal, quem poderia dar conselhos a Joanna sobre identidade de gênero naquele tempo? Quem, especialmente, na minúscula cidade de Parry Sound, em Ontário, onde morava, cerca de 150 km ao norte de Ontário, Canadá?

Então, Harper guardou esses pensamentos para si mesma e se distraiu com esportes. A corrida passou a fazer parte da sua vida. Ela corria todos os dias, duas vezes por dia.

Seu pai era o chefe do departamento de Educação Física da escola local e, quando ela atingiu a adolescência, Joanna era melhor do que ele nas corridas de longa distância. Ela também se destacou academicamente, principalmente em Ciências. Na época em que se formou no ensino médio, ela era a melhor corredora do distrito.

Na universidade, onde estudou Ciências, Harper se juntou à equipe de cross country (modalidade de corrida em terreno aberto ou acidentado). Quando estava na casa dos 20 anos, fazia parte do seleto grupo de 20 melhores corredores de longa distância no Canadá. Enquanto o esporte deu a Joanna uma chance de escapar de pensar em sua identidade, ela sabia, no fundo, que era uma mulher trans.

"Sempre soube que era uma menina, embora tenha vivido todos esses anos como um menino", diz.

Após a formatura, Joanna começou a trabalhar como cientista pesquisadora em uma grande instalação médica nos Estados Unidos.

A transição

Foi só em 2004, quando já tinha chegado na casa dos 40 anos e após a morte de seu pai e irmã, que Harper começou a terapia hormonal para iniciar sua transição de gênero.

Em algumas semanas, ela se sentiu visivelmente mais lenta e, após nove meses de terapia, estava 12% mais devagar do que antes. De acordo com um estudo da RunRepeat, os homens correm maratonas cerca de 11% mais rápido do que as mulheres. "Ingenuamente pensei que isso significaria que eu seria aceita na corrida de longa distância feminina", diz Harper.

Não foi o caso. Muito poucos na comunidade de atletismo disseram alguma coisa na cara dela, mas os sussurros chegaram aos seus ouvidos. Algumas atletas achavam que ela ainda tinha uma vantagem injusta por causa de sua fisiologia masculina anterior.

Mais ou menos na mesma época, as discussões sobre pessoas trans no esporte de elite estavam ganhando força. Em 2005, tanto o COI quanto o órgão regulador do atletismo nos Estados Unidos anunciaram que permitiriam que atletas trans competissem conforme seu gênero identificado após a cirurgia de redesignação sexual e dois anos de terapia hormonal.

"Intelectualmente, isso me interessou", diz ela, "como cientista, queria analisar o desempenho de atletas transgêneros."

Na época, Harper ainda não era especialista em Ciências do Esporte, mas usou sua formação acadêmica em Física Médica para pesquisar o assunto. Ela começou a procurar atletas trans que fizeram a transição do sexo masculino para feminino e, finalmente, conseguiu reunir dados de desempenho de oito corredores de longa distância, antes e depois da transição.

Em 2015, Harper publicou o primeiro estudo sobre atletas transgêneros revisado por pares do mundo e constatou que mulheres trans que faziam terapia hormonal para reduzir os níveis de testosterona não exibiam vantagem sobre atletas nascidas mulheres em corridas de longa distância.

Alguns criticaram a metodologia do estudo, dizendo que oito pessoas eram uma amostra muito pequena para chegar a qualquer conclusão significativa, mas outros, como o geneticista Eric Vilain, o descreveram como "inovador".

Harper expandiu seu estudo e escreveu um livro autobiográfico Sporting Gender. Em 2019, ela começou a estudar para um doutorado na Escola de Esportes, Exercício e Ciências da Saúde da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, especializando-se em atletas trans.

Seu estudo mais recente, publicado na revista científica British Journal of Sports Medicine, descobriu que os níveis de hemoglobina (a proteína que transporta oxigênio no sangue pelo corpo) em mulheres trans são semelhantes aos das mulheres nascidas com o sexo feminino biológico após aproximadamente quatro meses de terapia hormonal.

No entanto, sua pesquisa também concluiu que a massa corporal magra e a massa muscular de mulheres trans ainda permanecem acima dos níveis daquelas nascidas biologicamente mulheres após pelo menos 36 meses de terapia hormonal.

Esportes femininos

"Sou a favor da proteção do esporte feminino", diz Harper, "se você olhar para trás, há cem anos, a ascensão do esporte feminino é um dos componentes mais importantes na marcha das mulheres em direção à igualdade com os homens."

Ela acrescenta que o COI só incluiu mulheres em 1928 em Amsterdã e, mesmo assim, apenas em cinco eventos. "O esporte feminino, portanto, precisa ser estimulado e isso significa ter requisitos de elegibilidade." Atualmente, a discussão sobre a elegibilidade dos transgêneros no esporte é cercada de polêmica.

Em 2018, a ciclista trans Rachel McKinnon disse que recebeu mais de 100 mil mensagens de ódio no Twitter depois de vencer a competição UCI Masters Track World Championship.

Quando Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, se tornou a primeira atleta trans a disputar uma Olimpíada, nos Jogos Olímpicos de Tóquio deste ano, o debate em torno da participação de homens e mulheres trans no esporte ganhou ainda mais força.

"Qualquer pessoa que tenha treinado levantamento de peso em alto nível não pode negar o óbvio: esta situação em particular é injusta para o esporte e para os atletas", disse a levantadora de peso belga Anna Vanbellinghen de Laurel Hubbard em maio. "Oportunidades de mudança de vida são perdidas para alguns atletas — medalhas e qualificação olímpica — e nós estamos impotentes."

Harper, no entanto, diz acreditar que Hubbard não teve uma vantagem esmagadora, porque o levantamento de peso é subdividido em categorias de peso. Isso significa que as atletas são divididas de acordo com sua massa corporal e competem em subdivisões determinadas por ela. Hubbard foi eliminada da competição na categoria acima de 87kg após falhar nas três tentativas que fez na prova.

"Estamos no início desses estudos. Na verdade, levaremos cerca de 20 anos para ter dados precisos sobre mulheres trans em esportes de elite."

Em 2019, Harper aconselhou o Comitê Olímpico Internacional sobre como a participação de atletas trans poderia funcionar no futuro. As descobertas serão publicadas após as Olimpíadas de Tóquio neste ano.

"É preciso haver um requisito de elegibilidade adequado para cada esporte. O nível mínimo de testosterona para homens ainda é quatro vezes superior ao nível feminino", diz Harper. "A elegibilidade deve incluir um biomarcador ou biomarcadores para atletas separados."

Um biomarcador pode ser os níveis de testosterona, sugere ela. "Em vez de dividirmos atletas em categorias binárias masculinas e femininas, poderia haver uma divisão do nível de testosterona, altos níveis do hormônio e baixos níveis do hormônio."

Em teoria, isso incorporaria atletas intersexo, como o corredor de meia distância sul-africano Caster Semenya, que têm níveis de testosterona naturalmente elevados.

Em 2018, Semenya foi proibida de competir nas Olimpíadas depois que a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês) determinou que "para garantir uma competição justa, mulheres com níveis elevados de testosterona natural devem tomar medicamentos para reduzi-los para competir em corridas de meia distância".

Neste ano, as estrelas do atletismo da Namíbia, Christine Mboma e Beatrice Masilingi, foram proibidas de competir nos 400m femininos dos Jogos de Tóquio por causa de seus níveis naturalmente altos de testosterona.

No entanto, as regras atuais são limitadas e se aplicam apenas a atletas que competem em distâncias médias: as corridas de 400m, 800m e 1500m. Isso significa que a corredora indiana de 100 metros Dutee Chand, que também tem altos níveis de testosterona como Semenya, pode competir em Tóquio.

"Mas estou ciente de que a categoria 'mulher' é muito importante para muitas mulheres", acrescenta Harper, "O ideal seria se pudéssemos encontrar uma forma de integrar atletas trans no esporte feminino de uma forma que seja justa para todo o mundo."