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"Quando vi não acreditei", diz autor da foto do peixe com Ana Marcela

Ana Marcela Cunha, ouro na maratona aquática, nada e faz peixe saltar na baía de Tóquio - Jonne Roriz/COB
Ana Marcela Cunha, ouro na maratona aquática, nada e faz peixe saltar na baía de Tóquio Imagem: Jonne Roriz/COB

Adriano Wilkson

Do UOL, em Tóquio

09/08/2021 04h00

O fotógrafo esportivo sente o tempo de uma maneira diferente. Um jogo de futebol dura 90 minutos, mas a foto perfeita, aquela mostrando a bola fugindo do alcance do goleiro, o seu olhar desamparado diante do inevitável, o ar carregado de expectativa, o corpo do atacante reagindo de maneira instintiva à glória iminente antes mesmo do raciocínio assimilar o que está prestes a acontecer... tudo isso ocorre em um milésimo de segundo. Ou menos. Quando faz a foto, o fotografo na maioria das vezes nem a vê. Mas ele sente.

O fotógrafo Jonne Roriz viu os peixes pulando de um lado, viu Ana Marcela nadando de outro e começou a sonhar que seria incrível se a atleta e os animais se encontrassem no mesmo quadro em algum momento na baía de Tóquio. Ele preparou as lentes da sua câmera e esperou. Mas nada aconteceu.

A maratona aquática é uma prova complicadíssima, na qual os atletas precisam nadar por 10 quilômetros em águas abertas, sem raias de demarcação, o que às vezes leva a disputa à violência física. No caso das Olimpíadas de Tóquio, tudo isso sob um calor que já tinha feito gente desmaiar.

Jonne Roriz, fotógrafo do COB - Mario Bock/Divulgação - Mario Bock/Divulgação
Jonne Roriz, fotógrafo do COB
Imagem: Mario Bock/Divulgação

Fotografar a maratona aquática também costuma ser complicado porque os fotógrafos ficam distantes dos nadadores, que permanecem com o corpo quase totalmente submerso durante a maior parte do tempo. Jonne Roriz estava numa praia na baía quando viu os peixes pularem no trajeto onde as atletas passariam. Mas quando Ana Marcela passou, os peixes não pularam. Jonne focou o rosto da brasileira, enquadrou um pouco do cenário, garantiu algumas fotos e resolveu mudar de posição.

O fotógrafo tinha viajado a Tóquio a convite do Comitê Olímpico Brasileiro para registrar a participação dos atletas do país. Estava trabalhando muito e dormindo pouco, mas com isso já estava acostumado porque era sua quinta Olimpíada. Ele sabia que nadadores de longa distância precisam se alimentar durante a prova e sabia que eles fazem isso se aproximando de uma plataforma para pegar alimento.

A organização das Olimpíadas permitiu que os fotógrafos ficassem ali a registrar as atletas mais de perto. Jonne se aproximou do mar, trocou as lentes de sua câmera e esperou Ana Marcela chegar. E esperou mais um pouco.

Quando viu os braços tatuados rasgando a superfície da água, o fotógrafo percebeu que Ana Marcela virou o rosto para tomar ar. Nesse momento, nesse milésimo de segundo, Jonne Roriz percebeu o peixe voando sobre a cabeça dela e apertou o botão.

"Quando eu vi, não acreditei: era a imagem que eu tinha cantado pra mim mesmo antes, só que com um peixinho menor", disse o fotógrafo depois. Ali estava Ana Marcela nadando para sua primeira medalha de ouro olímpica, e o peixe tendo que sair do caminho para a brasileira passar. "O foco estava todo certinho no rosto dela. O peixe pulou alinhado ao rosto. Se ele tivesse saltado um pouquinho mais pra trás, teria saído desfocado."

Na fotografia, no esporte e em muitas outras coisas na vida, a sorte desempenha um papel fundamental. Sem ela não se come nem um Chicabom, disse Nelson Rodrigues. Ana Marcela teve sorte de encontrar peixes que saíram do seu caminho; o mesmo não se pode dizer da medalhista de bronze Kareena Lee, atingida no peito por um peixe durante a prova.

Jonne teve sorte ao ver a cena acontecer, mas a foto só foi possível porque ele estava preparado para registrá-la. Seu trabalho foi destaque nos principais veículos do país, entrou na capa do "Globo", abriu uma página na "Folha", apareceu no "Jornal Nacional" e na "Globo News". O perfil oficial de Tóquio-20 elegeu a foto como a melhor das Olimpíadas até aqui.

Ana Marcela - Satiro Sodré/SSPress/CBDA - Satiro Sodré/SSPress/CBDA
Ana Marcela Cunha. Jogos Olimpicos, Tokyo 2020. 04 de agosto de 2021, Toquio, Japao. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA
Imagem: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Ana Marcela terminou a prova em menos de duas horas e se tornou campeã olímpica na sua terceira tentativa. Depois de enviar as imagens daquele dia ao COB, Jonne foi designado a outro esporte e se preparou para caçar outros grandes momentos como aquele.

Mas e o peixe? O fotógrafo às vezes pensa nele. "É um peixe muito pequenino, singelo. É um Nemo de tão fofo. Toda vez que eu vejo a foto tenho vontade de rir."

É como se ele estivesse dizendo: 'Cara, vaza que tá passando um trator aí!'"