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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Melhor momento do encerramento de Tóquio-2020 foi no Rio-2016

Denise Mirás

Colaboração para o UOL, de São Paulo

08/08/2021 10h13

Pontos de luz pelo estádio como nuvens de pássaros para preencher o Estádio Olímpico de Tóquio, até formar os aros olímpicos (que simbolicamente parecem terem perdido as cores) foram o efeito mais espetacular da cerimônia de encerramentos dos Jogos-2020. Também o telão picado em cenas familiares e com torcedores de todo o mundo saudando seus atletas foi destaque, mostrando a força das redes sociais no drible da pandemia que caracterizaram esta edição olímpica.

Os franceses, na passagem da bandeira olímpica, inovaram com imagens de pontos tradicionais de Paris, ao vivo, incluindo apresentação junto à Torre Eiffel e de aviões desenhando listas com as cores da bandeira dos "bleus". Deram uma amostra do que esperam da festa em 2024.

No encerramento de Tóquio, os produtores não se redimiram da abertura. Depois dos pontos de luz e telões, apareceu uma mistura de discoteca dos anos 1980/luz negra com domingão no parque - porque Tóquio tem tradição de personagens (cosplays) que se apresentam fantasiados em áreas da cidade.

Apesar dos enormes esforços do Comitê Organizador para levar adiante os Jogos de Tóquio-2020, ficou a impressão de que se montou uma "bolha", como uma miniatura de mundo bem distante do momento real, à parte a emoção das competições. A população japonesa segue assombrada pelos números de casos de covid-19 que só aumentam.

Sem máscara, sem distanciamento

Abe - Stoyan Nenov/Reuters - Stoyan Nenov/Reuters
Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês, aparece de Super Mario no meio do palco da cerimônia de encerramento da Rio-2016 para promover Tóquio-2020
Imagem: Stoyan Nenov/Reuters

A entrada de delegações, com mais membros que os seis propostos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), vários sem máscaras e sem distanciamento social, foi uma amostra de como o mundo ainda encara o momento global e como é difícil pensar que uma "bolha" possa evitar contágio.

O Brasil, como na abertura, foi um dos poucos países que acataram as determinações do COI, comparecendo com seis pessoas: Rebeca Andrade, ouro e prata na ginástica, e Hebert Conceição, ouro no boxe, como representantes dos atletas; Bira, funcionário mais antigo do Comitê Olímpico o Brasil (COB) em Tóquio-2020; Francisco Porath Neto, o Chico, da ginástica artística, representando os técnicos; Ana Corte, coordenadora médica do COB, e Sebastian Pereira, vice-chefe de missão.

Interessante foi ver os campeões da maratona entregando medalhas em homenagem aos voluntários - que devem ter trabalhando sem dormir, porque dos 90 mil iniciais não chegaram a 200, por causa das restrições sanitárias.

Fez bonito também a breve dança da "árvore", rodeada por lanternas japonesas. As outras danças, sem dúvida simbólicas e em imagens belíssimas, surgiram pela tevê como num documentário, sem muita ligação com o espetáculo no estádio. Quem ainda estava no gramado parecia mais na expectativa de sair dançando e curtindo, por exemplo, do que contemplar e apreciar a beleza da apresentação de cantores em vestimentas tradicionais.

No fim das contas, o melhor - e mais criativo — da cerimônia de encerramento dos Jogos de Tóquio-2020 se deu quatro anos atrás. No Rio-2016.

Foi quando o primeiro ministro Shinzo Abe encarnou o personagem de games Super Mario, como o encanador de macacão e capacete, que sai do subsolo de Tóquio e atravessa o planeta para surgir no meio do Maracanã.

Reações inesquecíveis

Duas cerimônias de encerramento foram marcantes para o mundo, em dois momentos completamente diferentes, em geopolítica e também em tecnologia.

O ursinho Misha foi colocado em vida "analogicamente", por espectadores nas arquibancadas de Moscou-1980 mudando placas em movimentos pré-determinados e sincronizados. No encerramento desses Jogos, uma lágrima escorreu de um olho piscante da mascote soviética.

No Rio-2016, a água apagava a chama da pira olímpica tecnológica, enquanto Mariene de Castro cantava e uma multidão colorida lotava o gramado em danças, esse sim um momento de apoteose e congraçamento, representativo do que se passou naqueles dias pelas ruas e arenas cariocas.

A sobriedade, necessária, do encerramento de Tóquio-2020, quis mostrar um lado festivo - que não ultrapassou a barreira do artificial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL