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Base vem forte: quem são as promessas que surgem como novos Alison Piu

Gabriel dos Santos, 18 anos, promessa dos 400m com barreiras - Atletismo Paranavaí
Gabriel dos Santos, 18 anos, promessa dos 400m com barreiras Imagem: Atletismo Paranavaí

Roberto Salim

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/08/2021 04h00

O atletismo brasileiro é surpreendente: ao mesmo tempo em que não consegue se firmar como uma potência olímpica, já revela corredores promissores para os 400 metros com barreiras, na esteira do sucesso de Alison dos Santos.

As promessas da vez são os jovens Eric Cardoso, de 15 anos, e Gabriel dos Santos, de 18 anos. Curiosamente, eles são de uma mesma cidade paranaense e frutos da verdadeira usina de talentos do velho Mimi, que funciona na pista do Colégio Estadual de Paranavaí.

'Tem dois meninos muito bons aqui com a gente", assegura Ademir Nicola, o professor Mimi, já aposentado. Ele começou há 45 anos, no norte do Paraná, seu projeto de atletismo em uma pista que continua de terra. Hoje segue fabricando aparelhos para o atletismo, mas é apenas um voluntário no grupo que está agora nas mãos dos professores Leandro Lopes e Agnaldo Souza, seus ex-atletas.

"Gabriel Alves dos Santos fez a terceira melhor marca do mundo no ano passado, na categoria sub-18, quando foi campeão brasileiro, com 52s36", explica o professor Agnaldo, dizendo que a barreira era de 84cm no ano passado. E neste ano, Gabriel melhorou ainda mais sua performance. No Sul-americano realizado em Lima, no Peru, foi o campeão e alcançou o tempo de 52s33, marca que o leva para o Campeonato Mundial Sub-20, de Nairobi, ainda este mês. Nesta categoria a barreira já sobe para 91 cm.

Eric Cardoso, 15 anos, promessa do atletismo - Atletismo Paranavaí - Atletismo Paranavaí
Eric Cardoso, 15 anos, promessa do atletismo
Imagem: Atletismo Paranavaí

"O Eric Guedes Cardoso é o primeiro do ranking brasileiro na categoria sub-16, em que a prova de barreiras é de apenas 300 metros. Ele fez a marca de 42s92, na cidade de Cascavel, em um torneio da Federação Paranaense", acrescenta o professor Leandro.

E enquanto Gabriel se prepara para o Mundial, Eric treina para competir no Campeonato Brasileiro sub-18, no Centro Olímpico, em São Paulo. "E o Eric tem apenas 15 anos".

Na verdade, Eric ainda está numa fase de escolha da prova: "Faz salto em altura, salto triplo, salto com vara, salto em distância e os 300 com barreiras", explica Agnaldo que foi fundista e hoje é professor-doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

"O que vai definir a prova escolhida é o seu biotipo. Ele já tem 1,80 metros e está ainda em fase de desenvolvimento. Pode ser que siga na barreira ou até mesmo passe para uma prova combinada, como o decatlo".

O projeto de atletismo em Paranavaí começou há 45 anos com o professor Mimi, e hoje o "Da rua para a pista da pista para o Brasil" está credenciado no SNT (Sistema Nacional Caixa de Treinamento) - Descoberta de Talentos, da Confederação Brasileira de Atletismo. O trabalho recebeu o selo "Ouro" da entidade, na qual apenas 20 instituições do país têm essa classificação.

"Recebemos três mil reais por mês durante um ano, o que nos ajuda na compra de materiais, alimentação e viagens", explica o professor Leandro.

Não é muito dinheiro, mas para quem conta com um trabalho quase que voluntário é uma ajuda e tanto. Em tempos normais, antes da pandemia, 120 crianças se exercitavam na pista de terra da escola. Hoje são quase 80 em todas as categorias. E o assunto do dia nesta terça-feira era a performance de Alison Santos e o recorde mundial do norueguês Karsten Warholm.

01.08.2021 - Jogos Olímpicos Tóquio 2020 - Atletismo Masculino. 400m com barreiras. Na foto o atleta Alison dos Santos. Foto: Wander Roberto/COB - Wander Roberto/COB/Wander Roberto/COB - Wander Roberto/COB/Wander Roberto/COB
Alison dos Santos foi bronze nos 400m com barreiras
Imagem: Wander Roberto/COB/Wander Roberto/COB

"Cara, ficamos impressionados com aquela final. Eu nunca imaginei que estaria vivo para ver alguém correr os 400 m com barreiras com uma marca abaixo dos 46 segundos. Fiquei de boca aberta, mas recorde é para ser batido, né?", comentava nesta manhã a o técnico Leandro, que encerrou a carreira como decatleta.

"Eu estava falando para o Gabriel que eu acho que daqui dois anos o Alison vai bater esse recorde do mundo."

O seu jovem atleta lhe perguntou: "Professor, será que daqui a três anos eu estarei em Paris, na Olimpíada?"

O professor respondeu que tudo vai depender de sua dedicação aos treinamentos.

"O Gabriel é muito dedicado e não perde um treino, mesmo porque mora na escola e é só abrir o portão que ele já está na pista", conta o professor Leandro. "A mãe do Gabriel é a zeladora da escola."

E será que o Alison é para ser alcançado por algum brasileiro?

O professor Leandro nem pensa muito para responder.

"Sim, o Alison é para ser alcançado. Existe uma evolução grande no Brasil. Sempre aparece algum talento. Em nosso país o que falta é chance para que o jovem possa despontar. Nós temos aqui o Gabriel, que vai para o mundial a semana que vem. Deve correr abaixo de 50s, assim que encaixar a corrida. Mas nosso objetivo no momento é bater o recorde brasileiro do sub-20 no ano que vem. Se tudo correr dentro do planejado, o objetivo é que ele consiga fazer 49s no ano que vem."

E Leandro completa: "Se o Gabriel correr agora lá em Nairobi 51s30, 51s40, ele pega a final no mundial sub-20."

São objetivos como aqueles sonhados anos atrás pelo menino Alison.

"No ano passado, no Campeonato Brasileiro sub-18, a marca obtida pelo Gabriel foi a terceira melhor do mundo na categoria dele: 52s36, quando tinha 17 anos. Foi o melhor brasileiro ranqueado no mundo em 2020, computando até a categoria adulta", diz Leandro.

"Já o Eric faz todas as provas é um projeto a longo prazo", explica o professor, que é um grande fã de Alison. E a conquista da medalha de bronze em Tóquio já agitou o Centro de Treinamento de Paranavaí.

"Só hoje cedo já recebi vários telefonemas de mães querendo inscrever seus filhos aqui em nosso projeto de atletismo".

É o efeito Alison.

"Ele é fenomenal e, além de incentivar os meus garotos, vai também bater o recorde mundial do norueguês. É só melhorar a saída. Eu aposto nisso..."

E o professor Leandro faz ainda outra previsão. "Vocês podem escrever: ainda vão ouvir falar muito do Gabriel".

Como se vê tem gente com muita disposição para ultrapassar todas as barreiras do atletismo nacional.