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O que são os "twisties", o mal que afetou Simone Biles nos Jogos de Tóquio

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Tóquio

03/08/2021 13h27

Simone Biles saiu das Olimpíadas de Tóquio com apenas duas medalhas. Nenhuma de ouro. Poderia ter sido um dos maiores fracassos da história do esporte, mas ela saiu maior do que entrou. Ao ter coragem de admitir que a pressão que sentia era grande demais e estava afetando suas performances, ela se tornou um ícone de alerta de saúde mental.

O que pouca gente, ao menos no Brasil, entendeu, é que o stress sofrido por ela tinha um efeito muito concreto. Não era apenas medo de decepcionar alguém. Mas uma espécie de vertigem que tira seu equilíbrio e a faz perder noção de espaço e movimento durante suas piruetas. Quem já olhou para baixo quando cansado ou com sono e sentiu uma tontura sabe o quanto um lapso em seu cérebro pode ser desconfortável. Para Biles, desconexões entre cérebro e corpo como a que sofreu tem um nome: twisties.

27.jul.2021 - Simone Biles se desequilibra em final olímpica por equipes - Jamie Squire/Getty Images - Jamie Squire/Getty Images
O desequilíbrio de Simone Biles que deu início à discussão sobre os twisties
Imagem: Jamie Squire/Getty Images

Para explicar o que é isso, encontramos uma explicação no beisebol. Por lá, o bloqueio mental conhecido pelo termo em inglês yips faz com que seus braços deixem de corresponder aos estímulos do cérebro. Uma reportagem do site da liga norte-americana, a MLB, explicou: o arremessador tem força para jogar a bola mais longe, mas o braço se desconecta do cérebro e lança a bola muito mais fraca. Não é frescura, não é falta de treinamento, não é despreparo psicológico. É um bloqueio mental que atinge atletas renomados que, de uma hora para outra, têm desempenhos pífios durante dias ou semanas seguidas.

O bloqueio que Simone Biles sofreu é parecido. A diferença para o beisebol é a consequência dessa desconexão entre corpo e mente. No jogo de tacos, o risco é ser sacado do time. Na ginástica, quando a atleta perde o controle sobre o que seu próprio corpo pode fazer quando está no ar, girando a até três metros do chão, o risco é mortal.

Nesses momento, o o conhecimento motor adquirido durante os anos de treinamento simplesmente desaparece. Na apresentação que marcou a desistência de Biles na final por equipes, ela pretendia fazer um salto com duas piruetas e meia. Seu corpo só deu um giro e meio. "Eu não tinha ideia de onde estava no ar. Eu poderia ter me machucado", explicou Biles. Lembre-se: ela está acostumada a realizar saltos raros até mesmo para a ginástica masculina e que não deverão ser repetidos por outras mulheres tão cedo.

Biles treinou tanto que sabe como nenhuma outra o exato momento em que precisa girar o corpo em velocidade nos 3,5 segundos entre bater a mão no cavalo e terminar o salto com os dois pés no colchão. Naquele dia, essa memória cerebral simplesmente se perdeu em alguma sinapse. A americana encerrou a apresentação de pé, assustada, mas inteira. Sem a noção espacial, perdida no ar, poderia ter caído de cabeça, ou numa angulação que causasse sérias lesões em seus membros inferiores.

Simone Biles disse que já havia sentido twisties em outras ocasiões, uma delas no início de 2019. Depois de dizer isso, outros ginastas falaram sobre o problema: "Eu tenho os twisties desde os 11 anos. Não posso imaginar o medo de que isso aconteça com você durante a competição", postou no Twitter a americana Aleah Finnegan.

Isso porque durante a maior parte do tempo os ginastas saltam em poços de espuma. Só mais perto das competições e, especificamente nelas, é que os saltos são feitos em superfícies duras. Uma coisa é sofrer o bloqueio caindo na espuma. Você pode insistir nos exercícios sem sofrer risco de lesão até que seu corpo entenda como recuperar as conexões mentais novamente. Outra, em um colchão fino durante uma competição.

Laurie Hernandez, outra ginasta que já fez parte da seleção dos Estados Unidos, contou ao site das Olimpíadas de Tóquio que já teve o problema e que ele afeta não apenas o controle motor, mas também a moral do atleta, que deixa de acreditar na sua capacidade de executar um movimento. Em treinos, isso pode ser resolvido reaprendendo a saltar ao longo de alguns dias —novamente, no fosso de espumas.

A recuperação de Biles, que voltou a competir hoje na final da trave e saiu com a medalha de bronze, foi grande. Por que o problema que ela enfrentou era muito mais do que medo.