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Sacadas e pegadinhas: conheça os segredos por trás da coreografia de Rebeca

Rebeca Andrade no solo, durante competição individual geral de Tóquio-2020 - Júlio César Guimarães/COB
Rebeca Andrade no solo, durante competição individual geral de Tóquio-2020 Imagem: Júlio César Guimarães/COB

Denise Mirás

Colaboração para o UOL, de São Paulo

01/08/2021 12h00

Rebeca Andrade já é campeã olímpica e, com a prata do individual geral, a primeira mulher com duas medalhas olímpicas conquistadas na mesma edição dos Jogos Olímpicos. Mas ainda resta um desafio: a final do solo, marcada para amanhã (2), às 5h (de Brasília).

Para te contar qual o segredo do "Baile da Rebeca", como está sendo chamada a apresentação da ginasta ao som do funk "Baile de Favela" com elementos de Bach, o UOL ouviu o trio Rhony Ferreira (Coreógrafo), Angela Molteni (musicista e produtora musical) e Misa Jr. (maestro), responsáveis pela criação e produção da trilha sonora.

Angela Molteni, Misa Jr. e Rhony Ferreira - Rhony Ferreira/Arquivo pessoal - Rhony Ferreira/Arquivo pessoal
Angela Molteni, Misa Jr. e Rhony Ferreira:amigos na criação
Imagem: Rhony Ferreira/Arquivo pessoal

Quais os segredos da coreografia?

Olhos e ouvidos atentos

A inspiração veio do intervalo das competições da Rio-2016, quando Rhony percebeu que um funk levantava a plateia: "Essa música tem potencial. Guardo para a melhor oportunidade, para o melhor perfil de ginasta para ela". O coreógrafo foi se informar com o DJ que animava e descobriu que aquele era Baile de Favela, de MC João.

Armazém de ideias

Rhony gosta de guardar na memória trechos de música e sons em geral, que podem ser usados no ciclo olímpico seguinte. Ele conta que busca o que pode "causar", surpreender. No caso da música de Rebeca, era o contraste do erudito, com a "Tocata e Fuga em Ré Menor", de Johann Sebastian Bach, com o funk.

Música e personalidade

Com a ideia na cabeça, é preciso encontrar quem aceite realizá-la. Coreógrafo e ginasta precisam estar de acordo com o que será feito. No caso de Rebeca, que é extrovertida, não havia problemas com gingar, dançar. "Com fones de ouvido, quando escutou a trilha pela primeira vez, Rebeca já abriu o sorrisão quando entrou o funk. Chamou a atenção das outras meninas porque começou a dançar sozinha", conta Rhony.

Liberdade revela alegria

Ver a ginasta confortável com a escolha é importante: feliz e se sentindo livre com a trilha, a atleta cativa público e árbitros. Maria Angela diz que há garotas muito mecanizadas, "que não vibram", e passam a impressão que não estão sentindo a performance no coração.

Construção de acordo

É preciso, agora, que música e coreografia entrem nas séries obrigatórias, ou vistam, como Rhony diz, de maneira a facilitar para a ginasta uma apresentação fluida, sem paradas. "Procuramos, por exemplo, montar duas exigências acrobáticas aproveitando uma diagonal só. E também nada de giros com a cabeça antes de piruetas triplas, para não correr risco de ficar tonta. Há trechos estratégicos, de seis segundos, que aponto para o maestro, para a ginasta respirar".

Boa sacada

"Todos os árbitros conhecem o 'plié', um movimento de dobra dos dois joelhos no balé clássico. Mas não sabem muito sobre passos de samba. Já vi coreografia em que colocaram samba na trilha e fizeram passos de salsa!" Se não sabem, não teriam como descontar na parte artística. Não podem dizer que está errado, se não têm a capacidade para julgar. Além disso, Rhony fala às ginastas tímidas que podem pensar que estão encarnando um personagem e encarar os árbitros no fundo dos olhos e sorrir. Para o público também. "Sorriso desarma. Gentileza gera gentileza".

Meio de campo

O entrosamento do trio tem 25 anos. Daí a afinidade de ideias, gostar de inovar e surpreender, vontade de encarar desafios para executá-los e não ter medo de experimentar. Bem-humorada, Angela conta: "Nós nos conhecemos há bastante tempo e faço o meio de campo - ou o meio do solo... - entre duas feras: o Rhony e o maestro Misa Jr.", diz. Para Angela, trabalhar se divertindo funciona muito bem, "cada um com sua ideia, cada um com sua visão.".

Musicalmente, é preciso ter liga no arranjo, quando se monta o mapa de tempo. Fazemos ponto por ponto, para que se unam ginástica e música. É como se estivéssemos bordando o solo."

Angela Molteni, musicista e produtora musical

Sem medo de embarcar

Misa Jr. confessa que teve dificuldade para imaginar a fusão de uma música mais 'tétrica' e forte, como a escolhida de Bach, com o funk. Com formação clássica, o maestro está há mais de 20 anos trabalhando em estúdio. Por isso, teve de voltar a estudar o jeito de dedilhar o instrumento usado na tocata de Bach: o órgão de tubo. "É uma peça feita para esse instrumento. E não tem pontos de edição. Eu ia precisar tocar direto."

A 'pegadinha' da trilha

Bach, conta o maestro, facilitou o "encaixe" com MC João. "Eu estava preocupado principalmente pela questão rítmica, na conexão das duas músicas, por causa dos tempos. Mas a tocata não tem ritmo! É o que chamamos de música livre - ad libitum em latim. E, como não tem ritmo, não interfere quando entra o funk, com a batida. Essa é a pegadinha."

    De passagem

    Essencial, para o trio, é que a ligação entre uma música do século 17 com outra do século 21 aconteça sem quebras. O arranjador escolhe os timbres, por exemplo, e o maestro "ajeita" segundos com o coreógrafo, estabelecendo pontos marcados, como a cravada de pé, com uma batida de tambor. Os segundos necessários para que a ginasta respire são, também, marcados pela música.

    Esqueleto e adaptações

    Do rascunho, com o esqueleto da música montado, e o mapa musical, ainda são feitas adaptações com a ginasta, por meio de vários testes, para ajustes de tempos, por exemplo, para momentos de valorização de braços. Uma última versão fica pronta a cerca de três meses antes de Mundiais e Olimpíadas. O normal é participar de competições nos meses antecedentes, para observar a reação do público e também dos árbitros. "O atleta veste a coreografia e é uma emoção muito grande quando a gente o vê desfilando", define Angela

    Encerradas as Olimpíadas, o trio já começa a pensar nas músicas para as atletas juvenis que poderão estar nos Jogos seguintes. Outro ciclo se inicia.