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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uchôa narra lituano como se fosse brasileiro, mas se salva com humildade

Reprodução/SporTV
Imagem: Reprodução/SporTV

Alexandre Cossenza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/07/2021 01h16

A prova era a primeira semifinal do single skiff, e Lucas Verthein brigava por uma vaga na final da prova. A comentarista Fabiana Beltrame avaliava que havia "muitas chances de [o brasileiro] passar", logo havia a expectativa por um bom resultado. O dilema para quem acompanhava a prova pela TV — ou por um monitor, como o narrador do SporTV Cláudio Uchôa — é que o remador do Botafogo, na raia 5, vestia camiseta verde, da mesma cor que o uniforme do lituano Midaugas Griskonis, alinhado na raia 6.

Já depois dos mil metros percorridos, a transmissão oficial cortou para um ângulo fechado, mostrando os três primeiros, enquanto Verthein ficava para trás. Quando os remadores chegaram à marca de 1.500 metros, com um take mais aberto, o lituano Griskonis, também de verde e na parte de baixo da tela (pouco abaixo do brasileiro), passou brigando pela terceira posição. Verthein estava muito atrás, mas Uchôa se confundiu e passou a comentar a atuação do lituano como se fosse o brasileiro — nem os gráficos da transmissão oficial fizeram o locutor perceber a confusão.

Só perto da linha de chegada é que Beltrame corrigiu o locutor, que reagiu em tom de velório. "É, pois é. Ele ficou [para trás]. Que pena", disse, antes de reconhecer que Verthein brigava pela quinta colocação. O momento que poderia ser avaliado como um desastre, porém, foi salvo pelo próprio narrador, que foi humilde, admitindo a falha e a empolgação. "Eu me empolguei total, peço até desculpas."

Uchôa não é dos mais badalados narradores do canal, mas é dos mais competentes e simpáticos. No tênis, comanda transmissões longas de maneira leve e discreta, sem tentar ser mais protagonista do que o jogo. Narrar Jogos Olímpicos é uma tarefa cruel. Tudo acontece ao mesmo tempo, é preciso mudar de modalidade em questão de minutos e não dá tempo para estudar pronúncias, histórias e reconhecer visualmente quem é quem - especialmente em modalidades pouco vistas como o remo.

A falha de Uchôa, traído pela cor dos uniformes e pela emoção, é a falha de qualquer brasileiro que se deixa levar pela esperança de ver um compatriota indo bem. E tudo bem. O locutor sorriu, admitiu a empolgação e pediu desculpas. Foi sincero e humilde. Entre madrugadas longas e multitelas, nós, espectadores, não precisamos muito mais do que isso. Valeu, Uchôa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL