Topo

"Só queria a medalha, mas vem o pacote completo", brinca Italo após ouro

Ítalo Ferreira mostra medalha de ouro conquistada em Tóquio; ele viaja ainda esta quinta para o RN - Marcelo Maragni
Ítalo Ferreira mostra medalha de ouro conquistada em Tóquio; ele viaja ainda esta quinta para o RN Imagem: Marcelo Maragni

Marcello De Vico

Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

29/07/2021 21h41

Italo Ferreira virou celebridade, e já sabe disso. Único brasileiro a ganhar medalha de ouro nos Jogos de Tóquio até aqui, o surfista potiguar não parou desde que venceu Kanoa Igarashi na terça-feira (27) e se tornou o primeiro campeão olímpico da história do surfe. Enquanto ainda digere o que aconteceu no Japão, o campeão mundial de 2019 tenta se acostumar com os holofotes que nunca estiveram tão direcionados a ele como agora.

"Foi difícil para digerir, ainda está sendo. Estou meio em choque, é fora do que tinha imaginado. Eu só queria a medalha, mas vem o pacote completo", brincou Ítalo em entrevista coletiva online concedida horas antes do tão esperado embarque de volta para casa, em Baía Formosa (RN). "Mas é legal, receber o carinho das pessoas, o respeito... Espero que estejam orgulhosos de mim", disse o medalhista de ouro.

Ítalo Ferreira conversou com a imprensa depois de chegar em São Paulo - Marcelo Maragni - Marcelo Maragni
Ítalo Ferreira conversou com a imprensa depois de chegar em São Paulo nesta quinta
Imagem: Marcelo Maragni

"Isso reflete nas minhas redes sociais, multiplicou [2,3 milhões de seguidores até o fechamento dessa matéria], e só está crescendo, isso é muito louco. No início, eu só queria medalha, e vem o pacote completo [risos], mas é legal, é aproveitar o momento, que passa rápido", reforçou.

Italo não terá tempo de descansar, uma vez que tem menos de duas semanas até o próximo compromisso, no México, pela penúltima etapa da Liga Mundial de Surfe (WSL) antes das finais. Ser bicampeão, aliás, é o próximo grande objetivo do surfista, que faturou o WCT em 2019.

"Conquistar mais títulos mundiais. Isso é um desafio para mim", disse ao ser questionado se ainda tinha algum sonho na carreira. "Estou bem esse ano, na vice-liderança, e com grandes chances de vencer. Acho que estou bem mais leve depois do primeiro título [mundial], fica mais confortável. Agora é sonhar em vencer algumas etapas que eu queria, como Tahiti, e continuar evoluindo", acrescentou o potiguar de 27 anos.

Ítalo Ferreira comemora título mundial de surfe da WSL, em dezembro de 2019 - Kelly Cestari/WSL - Kelly Cestari/WSL
Ítalo Ferreira comemora título mundial de surfe da WSL, em dezembro de 2019
Imagem: Kelly Cestari/WSL

Questionado pela reportagem sobre a diferença do que sentiu nas vitórias do circuito mundial e dos Jogos de Tóquio, Italo classificou a Olimpíada como "um sentimento único", apesar de considerar a Liga Mundial de Surfe "mais desafiadora".

"É bem diferente. No circuito, é bem mais desafiador, o ano inteiro competindo, com vários tipos de onda, e você tem que ir bem em quase todas as etapas. Nas Olimpíadas, você vai um pouco mais certo... Mas foi algo que, como foi a primeira conquista, ninguém nunca tinha escrito, realmente foi um sentimento único", afirmou o potiguar, que segundos antes do término da bateria decisiva já começou a comemorar, uma vez que a situação de Kanoa era bem difícil.

"Até antes de terminar a bateria já estava comemorando, o Kanoa estava numa situação quase impossível, até parei de ficar próximo dele... Pensei: 'Se tiver que ser campeão, vai ter que ser'. Foi um sentimento incrível, passou um filme na minha cabeça, como nas outras vitorias também, mas essa teve um diferencial, de eu ter sido o primeiro campeão olímpico do surfe na história."

"Quem estivesse na final, eu ia passar por cima"

Ítalo Ferreira quebrou a prancha em manobra na primeira onda da final olímpica - Ryan Pierse/Getty Images - Ryan Pierse/Getty Images
Ítalo Ferreira quebrou a prancha em manobra na primeira onda da final olímpica
Imagem: Ryan Pierse/Getty Images

Italo Ferreira revelou ainda o único momento ao longo das disputas na praia de Tsurigasaki em que se sentiu vulnerável: na semifinal contra Owen Right. A bateria com o experiente australiano foi apertada, com uma diferença de menos de um ponto na somatória (13.17 a 12.47).

Italo manteve-se concentrado como nunca, em uma preparação que começou bem antes de chegar ao Japão, ainda em sua cidade natal. "Fui tão focado no que queria que outras coisas não me afetaram. O único momento que me senti vulnerável, meio que na dúvida, foi contra o Owen, mas depois, quem estivesse na final comigo, ia passar por cima", brincou.

O surfista potiguar contou detalhes de sua preparação, como o trabalho para perder 5kg para competir no Japão, e falou sobre o perrengue de ter uma prancha quebrada logo no início da final contra Kanoa Igarashi.

"Dediquei um tempo extra para esse desafio. Tive um tempo em casa para me preparar antes de embarcar, testei todas as pranchas... Teve uma mudança com a entrada de um tufão que alterou a ondulação, e a sorte foi que levei uma pranchinha maior, e foi com ela que fui até o final, que quebrou na primeira onda", declarou. "Tive que reduzir minha alimentação, controlar... Saí de 74 kg para 69, sequei bastante, estava bem fisicamente e mentalmente, e o resto foi na água, com o que mais gosto de fazer", disse.

E o futuro?

Ítalo Ferreira, medalha de ouro no surfe em Tóquio-2020 - Jonne Roriz/Jonne Roriz/COB - Jonne Roriz/Jonne Roriz/COB
Ítalo Ferreira, medalha de ouro no surfe em Tóquio-2020
Imagem: Jonne Roriz/Jonne Roriz/COB

A vitória de Italo nas Olimpíadas traz questionamentos: será que o Brasil saberá aproveitar este momento para desenvolver ainda mais o esporte? O próprio surfista potiguar respondeu: "Vai depender muito de quem está por trás. Agora as pessoas precisam pensar mais no próximo ao invés de pensar no próprio umbigo, ajudar, com a palavra no verdadeiro sentido. Seria a melhor forma desses caras aproveitarem essa oportunidade, e não só sugar", disse, sem citar nomes.

Italo destacou a importância de sua conquista para o mercado do surfe brasileiro e comemorou a grande que fase que o país verde e amarelo vive no surfe, com ele, Gabriel Medina, Filipe Toledo e cia.

"Todo mundo ganhou, tanto as empresas que estão ali no mercado quanto as empresas de fora do segmento, e especificamente os atletas, os fãs, que acompanham o esporte, e isso deu uma quebrada no preconceito, e a gente mostrou que o surfe é bem profissional", afirmou. "Antigamente era só EUA e Austrália, e hoje o Brasil domina, vence quase todas as etapas, venceu as Olimpíadas... A gente vive um dos melhores momentos, e isso [crescimento do esporte] vem naturalmente", completa.