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OPINIÃO

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Recorde de Cielo sobrevive mais um ano; e TV americana pode ser responsável

Caleb Dressel durante o treino de natação - Reprodução/Instagram
Caleb Dressel durante o treino de natação Imagem: Reprodução/Instagram

Beatriz Cesarini

Do UOL, em Tóquio

29/07/2021 12h00

Quando César Cielo assistiu à final dos 100m livre da natação nas Olimpíadas de Tóquio ontem à noite, ele até fechou os olhos. O campeão olímpico temia que seu recorde mundial fosse quebrado pelo norte-americano Caeleb Dressel. Calma, Cesão, você pode respirar aliviado. Sua marca sobreviveu por mais um ano porque Dressel estava mais lento do que você esperava.

O americano conquistou a medalha de ouro com 47s02 e chegou a superar o recorde olímpico. Mas o tempo de Cielo, estabelecido no Mundial de Roma em 2009, de 46s91, anda é imbatível. Mas qual o segredo para um recorde olímpico durar 12 anos?

A explicação é campeonato de natação mais lento em Tóquio-2020. E isso passa por dois motivos. O primeiro é a pandemia e as dificuldades que os nadadores tiveram em todo mundo para treinar. A história de Fernando Scheffer, que teve de ir a um açude no interior de Minas Gerais para treinar, é só uma das várias histórias de improviso vividas pelos maiores atletas do mundo nos últimos 18 meses.

A outra é o horário. Ao contrário da grande maioria das competições, as eliminatórias da natação começam a partir das 7h (Brasília) e vão até as 9h. Nestes horários, é noite no Japão. As fases finais começam às 22h30 e seguem até 0h30, a manhã do dia seguinte. O mesmo já tinha acontecido nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, mas lá os recordes foram frutos dos supermaiôs, então segure a onda antes de reclamar por aqui.

O ponto, aqui, é que atletas são pessoas de hábitos e mudar o horário em que você tem de estar mais rápido, da noite para manhã, cria, sim, um impacto. Apenas dois recordes mundiais foram quebrados até o momento na natação de Tóquio-2020: revezamento 4x100 livre feminino, com a equipe australiana, e o revezamento 4x200 livre feminino, com o time da China.

Dressel não foi o único a decepcionar quando o assunto é tempo. Katie Ledecky foi desbancada pela estreante australiana Ariarne Titmus, e a húngara Katinka Hosszú nem sequer chegou entre as três melhores nadadoras de suas provas.

O espaço para novatos e zebras se abriu quando os gigantes da natação passaram a aumentar os tempos. Lydia Jacob, de 17 anos, conquistou a medalha de ouro deixando a companheira de equipe de Lilly King e campeã olímpica no Rio 2016, além de recordista mundial, para trás.

O horário não usual para as finais da natação atende a um pedido da emissora americana NBC, principal parceira do Comitê Olímpico Internacional para transmissão das Olimpíadas, ou seja, é a empresa que mais dá dinheiro para a realização dos Jogos. A ideia é transmitir as finais da natação, um dos esportes nobres das Olimpíadas e no qual os norte-americanos têm domínio quase absoluto, no horário nobre dos Estados Unidos. Se fosse mantida a programação regular, as decisões seriam realizadas pela manhã para o público americano.

A reclamação dos nadadores não é só um mimimi de "não gosto de acordar cedo" x "não quero dormir tarde". Todo deslocamento é complicado em uma Olimpíada. Tanto para atletas quanto para outros credenciados. Nadadores que encerram as eliminatórias noturnas no Centro Aquático de Tóquio, por exemplo, precisam esperar pelo transporte que os leva de volta à Vila Olímpica. Embora não seja tão demorado, a logística é cansativa.

Logo que chegam, precisam baixar a adrenalina para descansar e estar de volta às 10h30 da manhã para competir em uma final. É aí que é o ponto. Os atletas estão reclamando que chegam tarde das eliminatórias e não conseguem dormir direito, assim acabam cansados na final.

O brasileiro Guilherme Costa, conhecido como Cachorrão, nadou a qualificação dos 800m livre em 7min46s09 e chegou à final. Na grande decisão, na manhã dia seguinte, piorou seu tempo em sete segundos, uma perda considerável de ritmo. Assim que saiu da piscina, admitiu que sentiu um cansaço e se esforçou muito para completar a prova.

No mundo capitalista em que vivemos, os recursos sempre serão priorizados e a qualidade da competição esportiva vai ficando de lado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL