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"Cabeça de vencedora" fez Rebeca voltar ao alto nível, diz médico cirurgião

Roberto Salim

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/07/2021 11h50

O médico Caio D'Elia cresceu no meio do esporte. Foi carateca da equipe nacional. E depois de formado já tratou de muitos atletas nacionais e sabe que é preciso ter cabeça de vencedor para chegar a um pódio olímpico, especialmente quando se passa por cirurgias delicadas no joelho. E quando a jovem competidora passa por três, então, é preciso ser uma autêntica leoa.

"É sim o caso da Rebeca Andrade", confirmava o cirurgião, que fez uma das cirurgias da medalhista de prata. "Foi para a reconstrução do cruzado anterior", no ano de 2015, quando muitos chegaram a colocar em dúvida a sequência da carreira da menina promissora de 16 anos.

Passados cinco anos, nesta manhã, em seu consultório, no bairro do Morumbi, o doutor não conseguiu assistir à apresentação de Rebeca Andrade, em Tóquio, mas se sentiu feliz ao saber que ela estava próxima da consagração, após tanto sacrifício: treinos e sessões intermináveis de fisioterapia.

"O atleta do alto rendimento em 100% dos casos convive com alguma dor. E só os que tem a cabeça vencedora conseguem passar por cima desse desconforto. E Rebeca se encaixa nisso", afirma ele, completando. "Se a cada dor, o atleta se queixa, isso pode atrapalhar a performance e a própria trajetória esportiva".

No caso de uma ginasta a questão é ainda mais difícil. "Por quê? Porque a energia dispendida com o movimento no quadril, tornozelo e joelhos é absurda. E dependendo da velocidade de execução do exercício, dependendo da altura atingida, o impacto na queda chega de 10 a 12 vezes o peso do corpo. Imaginem isso para quem tem três cirurgias no joelho?"

Aí é que entra a tal cabeça de vencedora. "É aí que a parte mental faz a grande diferença. Ao invés de se queixar, ela perguntava: quando vou voltar? Quando poderei treinar novamente?"

A parte estatística do sucesso das cirurgias é grande. "Normalmente após uma cirurgia bem-sucedida, 90 a 95% dos atletas voltam ao alto rendimento. Mas, após três operações, como no caso de Rebeca, esse índice vai se reduzindo, cai para até 60% de possibilidade de retorno ao alto nível".

Claro que a evolução da medicina esportiva nos últimos anos ajudou muito essa recuperação e os vários recomeços da ginasta brasileira. "Não só a cirurgia em si, como também as novidades que existem na fase de recuperação, com uma fisioterapia apropriada. E ela teve tudo isso".

Não bastasse a técnica, o amparo psicológico e apoio de sua mãe, dona Rosa, o doutor atribui a um outro fator o sucesso de Rebeca Andrade, mesmo depois de tantos obstáculos clínicos.

"Ela é diferente geneticamente. Suas fibras rápidas têm uma contração muito veloz o que permite uma explosão muscular muito superior à média dos atletas. Isso e sua garra são diferenciais potentes que explicam o sucesso que agora chegou com a medalha olímpica".

Sucesso de quem tem espírito de leoa, e que passou por sua última cirurgia em 2019. Outra bem-sucedida operação realizada pelos médicos Luiz Antônio Vieira e Rodrigo Sasson, no Rio de Janeiro.