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Técnica do judô, Yuko Fujii é cria do Nippon Budokan e tem filho brasileiro

Técnica Yoko Fuji abraça judoca Daniel Cargnin após conquista do bronze - Reprodução/TV Globo
Técnica Yoko Fuji abraça judoca Daniel Cargnin após conquista do bronze Imagem: Reprodução/TV Globo

Beatriz Cesarini

Do UOL, em Tóquio

25/07/2021 12h13

Uma cena que marcou a conquista da medalha de bronze de Daniel Cargnin, no judô, foi o abraço emocionado na técnica Yuko Fujii. A quem interessar possa, ela é japonesa e, no currículo, tem o feito de ser a primeira mulher a treinar a seleção brasileira de judô.

No Japão, seu país de origem, é pouco tradicional ter mulheres à frente do treinamento esportivo. Também por isso, o Brasil se interessou em 'importar' Yuko e para que já compusesse o programa Olímpico de Londres.

Treinadora e seleção se adaptaram uma à outra - e, já nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, ela se tornou assistente técnica da equipe. Hoje, entretanto, Yuko é a principal líder do grupo. Além da exigência técnica, ela também tem um lado mãe que cativa a todos. Ao campeão olímpico Cargnin, inclusive.

Histórico de sucesso

Yuko é um fenômeno desde a infância - e, exatamente por isso, conhecia bem o local de combate do pupilo: desde os 10 anos de idade, ela treinava na arena Nippon Budokan. Isso porque o espaço foi construído em 1964 para os Jogos de Tóquio daquele ano. Posteriormente, a arena se tornou um centro de artes marciais japonesas. Foi ali o desenvolvimento de Yuko no judô.

Em entrevista, a japonesa comenta a importância da arena na conquista: "Desde 10 anos, eu sempre lutei aqui. Tenho muitas lembranças. Ver o nosso atleta fazer o excelente campeonato que fez aqui é muito emocionante", comemora.

Em 2016, a treinadora viralizou na internet, e não foi por causa do esporte: Yuko é mãe de Kiyotake Fujii, também conhecido como João, e o menininho roubou a cena no Parque Olímpico. O pequeno é brasileiro e, durante o evento, posou para fotos com várias pessoas que passavam perto da arena.

Além da inegável técnica, o lado maternal também aproxima os atletas de Yuko, segundo o gestor de alto rendimento da federação de judô, Ney Wilson. "Os atletas confiam nela, e ela tem os dois lados: se impõe, lidera, mas também os traz para perto com esse lado afetivo. Então, ela cobra ao mesmo tempo em que os conquista", diz.

O apoio a Daniel

Daniel é apegado à mãe, e dedicou a ela a medalha de bronze conquistada neste domingo (25) sobre o israelense Baruch Shmailov. Entretanto, em entrevista concedida após a competição, o atleta relembrou a importância de Yuko na perseverança dele.

"Em 2018, na Itália, eu pensei em desistir porque estava apanhando muito. Ela ficava falando 'vamos lá, vamos lá', e eu do outro lado chorando no banho. Naquele momento, em prantos, pensei: 'Por que ela nunca desiste se até eu penso em desistir?'. Então, quando a encontrei em Tóquio, fiquei extremamente feliz".

Yuko afirma sempre ter acreditado na equipe, mesmo nos momentos de dificuldade. "Daniel lutou muito hoje. A minha mensagem era para ele lutar por ele mesmo, mas acabei não falando nada. Ele já sabia de tudo. O meu objetivo é sempre criar atletas independentes, então fiquei muito feliz. Essa premiação coroa nosso trabalho, que foi correto, e acredito que teremos mais notícias boas. Todos os atletas vão dar o melhor", diz.

Ela continua: "Inicialmente, nosso trabalho era fortalecer os fundamentos e potencializar o jogo brasileiro. Mas só com isso não conseguíamos medalhar nas competições internacionais. Discutimos e conversamos bastante para conscientizar os atletas, e sempre buscamos estimular treino e trabalho muito competitivos. Sempre que saíamos do Brasil nesse momento difícil da pandemia, mesmo com toda dificuldade, nossa equipe conseguia ganhar mais experiência, e nossos atletas sempre traziam coisas boas, mantendo o nível de treinos no Brasil aumentando a competitividade. Deu certo, e é agora que tenho certeza disso."

Yuko relembra, ainda, a sensação antes mesmo da divulgação dos nomes selecionados para os Jogos. Ela conta que, desde essa época, já sentia que o Brasil tinha chances reais na categoria. "Quando saíram as chaves, percebi que dependeria muito do espírito do Daniel. A chave estava equilibrada, e o emocional seria o diferencial", explica.

"Nos treinos, ele estava muito focado, realmente fazendo tudo por ele mesmo, sem se preocupar com nada que estivesse fora. Ali, realmente senti que ele conseguiria grandes feitos. A cabeça dele estava bem definida. Eu parei de falar com ele, deixei ele à vontade. Mesmo pegando o japonês, que todo mundo acha que é muito forte, eu a sentia que ele passaria naquela luta. E ele também sentia, era claro na atitude diária que tinha."

Potencial brasileiro

A treinadora afirma acreditar muito no potencial do judô brasileiro. "Anos atrás, descendentes de japoneses começaram a lutar judô, não só como esporte, mas como um espírito. Esse espírito permanece nos atletas até hoje, e isso fortalece o judô brasileiro. Nós temos que manter isso para o futuro."