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Técnica de Cargnin após bronze: "Senti que ele ia conseguir grandes coisas"

Daniel Cargnin, judoca brasileiro, posa com medalha de bronze das Olimpíadas de Tóquio - Gaspar Nóbrega/COB
Daniel Cargnin, judoca brasileiro, posa com medalha de bronze das Olimpíadas de Tóquio Imagem: Gaspar Nóbrega/COB

Beatriz Cesarini

Do UOL, em Tóquio

25/07/2021 08h41

Primeira pessoa a receber um emocionado abraço após a medalha de bronze nas Olimpíadas de Tóquio, a técnica de Daniel Cargnin, Yuko Fujii, revelou confiança de que seu judoca teria um dia histórico na arena Nippon Budokan.

Segundo a sensei, Cargnin se mostrou muito focado, o que a deixou mais despreocupada no trabalho mental com seu atleta antes das lutas neste domingo (25).

"Quando saiu a lista dos nomes, antes da chave sair, eu realmente senti que o Brasil tinha chance real na categoria. Quando saiu a chave, vi que dependeria muito do espírito do Cargnin. Tudo estava bem equilibrado, esse seria o diferencial. Nos treinos, ele estava muito focado, realmente fazendo tudo por ele mesmo, sem se preocupar com nada fora. Ali, realmente senti que ele ia conseguir grandes coisas. A cabeça dele estava bem definida. Eu parei de falar com ele, deixei ele à vontade", declarou Yuko.

A treinadora revelou otimismo até mesmo na luta das semifinais, contra o favorito Hifumi Abe, japonês que, posteriormente, acabaria ganhando a medalha de ouro:

"Mesmo pegando o japonês, que todo mundo acha que é muito forte, eu achava que ele ia passar naquela luta, e ele também, por conta da atitude dele no dia".

Yuko destacou o quanto Daniel Cargnin estava preparado para a competição, algo que a deixou tranquila quanto ao seu desempenho.

"Em um momento difícil sempre acreditava na nossa equipe, nos nossos atletas, não só eu como a comissão. Foi bom que o Daniel lutou muito hoje. A minha mensagem era para ele lutar por ele mesmo. Eu não falei nada para ele. Ele já sabia tudo. O meu objetivo era fazer o atleta independente, então fiquei muito feliz. Coroa nosso trabalho, que foi certo, e acredito que vão sair mais coisas boas. Todos os atletas vão dar o seu melhor", disse a treinadora.

Perdeu para o medalhista de ouro

Estreante em Jogos Olímpicos, o gaúcho de 23 anos se mostrou confiante desde a primeira vez que pisou no histórico tatame da arena Nippon Budokan.

Na primeira rodada, Cargnin superou o egípcio Mohamed Abdelmawgoud no golden score, quando o brasileiro conseguiu um ippon logo nos primeiros segundos. No tempo regular, a luta foi equilibrada, e cada judoca terminou com uma punição. A primeira para o egípcio, e a segunda logo depois para Cargnin.

Nas oitavas de final, o gaúcho venceu Denis Vieru, da Moldávia, com um waza-ari também no golden score. Em seguida, ele superou Manuel Lombardo, da Itália, número 1 do mundo na categoria, e se classificou para as semifinais.

Cargnin, porém, não foi páreo para o anfitrião Hifumi Abe, que posteriormente se tornaria o medalhista de ouro. O japonês venceu o brasileiro com um ippon faltando 1m35s para o fim do combate.

Apesar de não ter a presença de torcida na Arena Nippon Budokan por causa das medidas de segurança contra o coronavírus, o clima estava quente. Muitos voluntários japoneses aproveitaram para sentar na arquibancada e torcer por Abe.

Na disputa pelo bronze, Cargnin se mostrou focado, obteve o wazari sobre o israelense Baruch Shmailov e depois segurou o resultado com inteligência. Com a vitória decretada, o brasileiro não segurou a emoção e chorou bastante abraçado com sua treinadora Yuko Fujii.

"Lembro de estar falando com a sensei Yuko... Uma vez a gente estava em um treinamento na Itália, em 2018, e eu estava muito cansado, apanhando muito, e ela me levantava e dizia: 'vamos lá, vamos lá'. Eu me peguei chorando no banheiro e pensando: 'Por que ela não desiste de mim? Às vezes eu mesmo penso em desistir!'. Encontrar ela foi especial, eu acreditei nisso. Preciso agradecer ao meu ídolo João Derly, meus amigos... Todos me deram muito suporte. Estou muito feliz, ainda não caiu a ficha", declarou Cargnin.

Uma nova geração

Daniel Cargnin conquista o bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Daniel é a grande revelação do judô masculino brasileiro nos últimos anos. O atleta foi campeão mundial júnior em 2017, em Zagreb, na Croácia, e já tinha um bronze no torneio, de 2015. Além disso, foi vice-campeão dos Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019. Com a conquista, o atleta consolida a nova geração do Brasil na modalidade.

Ele chegou em Tóquio como um dos brasileiros menos cotados para a conquista de uma medalha. Em uma seleção com atletas experientes como Mayra Aguiar, Rafael Silva - o baby, e Ketleyn Quadros, Daniel surpreendeu ao vencer o número 1 do mundo e chegar nas semifinais.

A sua categoria, meio-leve (até 66kg), tem tradição: Rogério Sampaio foi campeão olímpico em Barcelona-1992 e Henrique Guimarães foi bronze, quatro anos depois —os dois ganharam medalhas quando a categoria ainda tinha limite de 65kg.

Apesar disso, a grande referência dele é João Derly, que conquistou duas medalhas de ouro no Mundial (em 2005 e 2007), mas nunca chegou ao pódio olímpico. Os dois são do mesmo clube, a Sogipa, e foram formados pelo mesmo treinador, Kiko.