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Onde as meninas do basquete brasileiro perderam o caminho para Tóquio?

O técnico Antônio Carlos Barbosa no comando da seleção brasileira de basquete na Olimpíada Rio-2016 - Divulgação/CBB
O técnico Antônio Carlos Barbosa no comando da seleção brasileira de basquete na Olimpíada Rio-2016 Imagem: Divulgação/CBB

Roberto Salim

Colaboração para o UOL, em São Paulo

25/07/2021 04h00

Tradição, o basquete feminino do Brasil tem desde os tempos de dona Coca. História e títulos, o time tem desde Maria Helena, Marlene, Norminha, Nilza, Laís e Heleninha. Torcida sempre teve nos ginásios do Rio e São Paulo. E encantamento a equipe proporcionou a quem adora esporte com estrelas do porte de Paula, Hortência, Janeth e Alessandra. Então, por que as brasileiras não estarão presentes no Saitama Super Arena nos Jogos Olímpicos de Tóquio, quebrando uma sequência ininterrupta, que vinha desde 1992, em Barcelona?

A resposta, com certeza, está fora das quadras.

Com a palavra o técnico que mais dirigiu a seleção brasileira: Antônio Carlos Barbosa. Ele esteve à frente da equipe em três Olimpíadas: em Sydney foi bronze vencendo a Coreia do Sul, em Atenas ficou em quarto lugar, perdendo o bronze para a Rússia e no Rio de Janeiro, a equipe ficou em penúltimo lugar. No total, Barbosa esteve orientando o time em 448 jogos internacionais e somando as três ocasiões em que foi técnico, completa 22 anos como comandante de um grupo que, no início, teve as meninas Paula e Hortência e chegou a 2016 com Clarissa e Damiris.

"Para o basquete feminino é um desastre não ir à Olimpíada. É terrível, perde-se espaço, a modalidade passa um período de esquecimento. E pensar que perdemos a vaga para Porto Rico, um adversário que se enfrentarmos dez vezes, ganhamos no mínimo oito", lamenta Barbosa, que se aposentou este ano do basquete e hoje trabalha como assessor na Secretaria de Esportes da prefeitura de Itu.

basquete - Jamie Squire/Getty Images - Jamie Squire/Getty Images
Seleção brasileira de basquete comemora após conquista o bronze nos Jogos de Sydney-2000. Sua última medalha olímpica (Photo by Jamie Squire /Getty Images)
Imagem: Jamie Squire/Getty Images

Mas, na verdade, ele sabe que a vaga não foi perdida exatamente na quadra, no jogo com as porto-riquenhas. É uma eliminação que se desenha há tempos.

"Foi em gestões anteriores, em que problemas financeiros afetaram diretamente a preparação da equipe, que não teve jogos suficientes para amadurecer nem ganhar entrosamento e confiança", sintetiza Barbosa, explicando que os problemas vêm desde sempre, tornando-se crônicos a partir de 2008.

"Foi um nono lugar, uma má classificação em Pequim, que indicou o início da queda. Em Londres, ficamos em 11º. E em 2016, nas minhas mãos, no Rio de Janeiro, também em 11º lugar. Recebi a equipe em 2015, quando o Luiz Zanon saiu e não podemos dizer que tenha havido verdadeiramente um ciclo olímpico, uma preparação séria, com jogos suficientes para a equipe ganhar confiança."

Tudo muito diferente do início dos caminhos na década de 70, quando o jovem Barbosa (começou a carreira aos 26 anos) tinha à sua disposição as meninas Paula (14 anos) e Hortência (16) para começar um trabalho de renovação.

"Depois de uns amistosos em São Paulo, a Paula estreou para valer no Sul-Americano do Peru, mas isso não conta. Vamos deixar Paula e Hortência... e também a Janeth fora dessa discussão. Elas eram especiais, assim como a Damiris nos dias de hoje. Continuamos tendo jogadoras de nível, mas pesou a questão diretiva, a falta de um cuidado maior com uma modalidade de tradição em nosso país."

Barbosa aponta a falta de apoio à base, a falta de competições de alto nível no país e a falta de jogos da seleção como fatores determinantes dessa decadência anunciada.

"Em 2002, no Campeonato Mundial da China, tínhamos oito meninas jogando na WNBA (Cíntia, Kelly, Érica, Iziane, Helen, Janeth, Claudinha e Adrianinha) e a Alessandra atuando na liga sul-coreana que é fortíssima. Ainda assim, tínhamos torneios internos muito fortes no Brasil, tínhamos vários focos de trabalho com muito apoio na base. Agora... estamos em um patamar diferente. Ainda há talentos e promessas, mas não há como desenvolver o basquete por aqui."

Para os times vitoriosos que o Brasil conseguiu montar, houve ciclos olímpicos, com mais de 50 jogos internacionais de preparação. "Foi assim em 1999 e 2000", relembra Barbosa, citando a realização de partidas amistosas que deram consistência à seleção.

"É isso que dá vivência às jogadoras, confiança. Elas acabam sabendo como decidir, pois passam por situações que se repetem contra adversárias difíceis e sabem como agir no momento certo. Já na equipe que assumi em 2015, não tivemos preparação com jogos de verdade. E acreditem: o time não era mau, não era ruim. Em alguns momentos, eu pensei em conseguir algo maior com elas, mas não tivemos amistosos, foi tudo improvisado neste aspecto."

Barbosa, do alto de sua experiência, sabe muito bem que só treinos não resolvem, nem só fazer amistosos sul-americanos. Ainda assim, ele sonhou.

"Tirando a derrota para o Japão, em que elas fizeram uma exibição perfeita, nas demais partidas, nós estivemos na frente sempre. Só faltou a tranquilidade, o hábito de fechar o jogo. Foi assim contra a Bielorrússia, a Turquia e a França."

Os resultados incipientes das últimas Olimpíadas e a ausência em Tóquio devem afetar ainda mais o basquete feminino no país, que sofre sistematicamente com a falta de investimentos e do tal intercâmbio. "Se pegarem uma reportagem antiga, da década de 70, já vão ver que eu me queixava disso, sugeria mudanças. Vivemos depois um período melhor, só que, infelizmente, as administrações na confederação falharam."

Damiris - Divulgação/CBB - Divulgação/CBB
Damiris - em ação pela seleção brasileira feminina de basquete na Olimpíada Rio-2016 - é uma representante da nova geração elogiada por Barbosa
Imagem: Divulgação/CBB

Mas Barbosa ainda mantém a esperança de que novas jogadoras façam ressurgir o encantamento causado por Mágicas e Rainhas. "Apesar de tudo, ainda surgem Clarissas e Damiris, uma fora de série, do padrão dos velhos tempos."

É com essa expectativa que o velho Barbosa vai ligar a televisão bem cedinho neste domingo (25), às 22h (de Brasília) para ver Coreia do Sul e Espanha na abertura dos Jogos que ele se acostumou a acompanhar do banco de reservas durante os melhores anos de sua vida esportiva.