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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Choro de mãe, vômito e otimismo tóxico na 1ª madrugada olímpica da Globo

Hortência Marcari na transmissão do hipismo da TV Globo nos Jogos de Tóquio 2020 - Reprodução/Globoplay
Hortência Marcari na transmissão do hipismo da TV Globo nos Jogos de Tóquio 2020 Imagem: Reprodução/Globoplay

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

24/07/2021 11h56

O primeiro dia da transmissão olímpica na Globo deu um gostinho do que podemos esperar da emissora nas próximas duas semanas: uma cobertura mais humana e menos robótica — com direito a chororô de mãe, desespero de repórter e palavrão vazado.

O dia começou com a versão olímpica da Glória Pires no Oscar: Hortência, eterna rainha do basquete brasileiro, foi convidada a comentar ao vivo a prova do filho, João Victor Oliva, no adestramento do hipismo. Lembrei na hora da minha mãe comemorando o Troféu Aceesp que ganhei em 2019: "Minha filha ganhou o maior prêmio de jornalismo do Brasil". Não é bem isso, mas no coração leigo — e cheio de amor — de mamãe, era.

Hortência mostrou que mãe é tudo igual, só muda de endereço: não demonstrou exatamente manjar do esporte praticado pelo filho, mas chorou quando a prova acabou e Oliva desceu do cavalo sorrindo. "Pela cara do João, ele foi muito bem". Junto à ex-atleta, no estúdio, estava apenas o narrador Rembrandt Júnior — não havia sequer um especialista no esporte para comentar as provas. Ele seguiu a intuição materna: "Isso é o que importa. Se você disse... Se ele estiver bem, se ele sentiu que foi bem, está bom também para a gente", disse.

Tanto Rembrandt quanto Hortência demonstraram falta de intimidade com o evento, fizeram a internet rir e geraram memes ao dispararem comentários do tipo "a gente percebe a harmonia entre cavaleiro e cavalo". Nem mesmo o hit "Copacabana", de Barry Manilow, parte da trilha sonora da apresentação de Oliva, salvou o perrengue do narrador. Ele esboçou comentar a canção, mas viu que a emenda sairia pior que o soneto: "Acompanhado de uma música..." e nunca completou a frase. Mas, gente! Quem nunca deu um migué que atire a primeira pedra, né?

Ao fim da prova, Hortência chorou de emoção ao falar sobre o desempenho do filho com Felipe Andreoli — que, aliás, surpreendeu a todos ao narrar a partida de tênis entre João Menezes e o croata Marin Cilic. Diferentemente dos colegas um pouco mal encaixados na transmissão relatada acima, Andreoli mostrou que manja muito do esporte, e caiu nas graças do Twitter. Ele mesmo se mostrou bastante satisfeito com o próprio desempenho, que foi, realmente, brabo.

Ainda falando em mamães, Cris Rozeira, convidada a comentar a partida entre Brasil e Holanda do futebol feminino, foi surpreendida pelo filhinho. Bento, de três meses, vomitou no uniforme da atleta ao vivo. "Galvão, o Bento gorfou na minha roupa inteirinha". Maternidade real, a gente vê por aqui — e o Galvão fazendo voz fofinha pra falar com o bebê, que apareceu na telinha, foi tudo o que a gente precisava depois de um dia ruim para o Brasil nas Olimpíadas.

Cris também se frustrou e deixou escapar um palavrão no terceiro gol da Holanda contra o Brasil. O lance fez com que a partida terminasse empatada, e a jogadora não se segurou: "Puta merda", foi o que pensamos todos nós quando Dominique Janssen encontrou o gol de Bárbara. Que jogaço, inclusive. O empate contra uma das seleções favoritas ao ouro mostra que o time de Pia Sundhage ainda vai fazer a gente pular do sofá um monte de vezes nas próximas semanas.

Me ajuda aí, Amanda!

O jogo da seleção feminina de futebol também foi pano de fundo para o desespero da repórter Lizandra Trindade, que não sabia quem entraria no lugar de Duda depois do intervalo. A técnica Pia fez três alterações para o segundo tempo, e Galvão deu brecha para a repórter contar. "E temos alterações aí, hein?", disse o narrador. "Está saindo a Bia Zaneratto para a entrada da Ludmila. Também está saindo a Duda, e quem entra no lugar dela eu já checo... ", falou a repórter. "Duda para quem? Angelina. Não, Duda e... Me ajuda aí, Amanda!".

Lizandra falava com a produtora Amanda Kestelman. Galvão, na hora, pediu calma à colega: "Calma, calma. Não se apavore. Vamos com calma". O Twitter foi à loucura. Será "Me ajuda aí, Amanda" o "Giovanna, o forninho caiu" dos não cringes?

A cobertura olímpica não precisa ser pasteurizada, certinha, engomada como a Globo fez questão que fosse por muito tempo. A descontração, as falhas e incidentes são naturais, e deixam a transmissão muito mais divertida. Não é muito mais legal assistir a um jogo enquanto o Galvão faz voz fofinha pra um bebê? Claro que é.

Agora, o que não é tão legal é o exagero na tentativa de amenizar as derrotas dos brasileiros na ginástica hoje. Diego Hypólito personificou o termo positividade tóxica. A equipe se complicou e está fora da final por equipes. Arthur Nory, que chegou às Olimpíadas como medalhista olímpico (foi bronze em 2016) e o campeão mundial, fez uma apresentação ruim na barra fixa, caiu no solo e acabou eliminado da competição ali mesmo.

Como comentarista da modalidade, Hypólito afirmou que o time brasileiro tem que estar feliz mesmo não classificado para finais, já que "estão trazendo alegria para o nosso povo em meio a tantas tristezas. Tantas pessoas que vieram a óbito, tantas pessoas que perderam entes queridos. Eles estão trazendo felicidade aí nos Jogos Olímpicos, dando seu máximo, se dedicando muito".

Entendo a tentativa de Diego de amenizar a dor dos colegas — afinal, é bem provável que ele quisesse ter ouvido palavras como essas quando caiu de bunda em Pequim-2008 e de cara em Londres-2012. Ainda assim, usar a pandemia e as mortes decorrentes do coronavírus para contrapor os fracassos da ginástica masculina não é somente exagerado, como bastante equivocado.

Mesmo após a repercussão das falas no Twitter, o ex-atleta continuou no modo good vibes na transmissão do SporTV, frisando que os ginastas não precisam pedir desculpas para ninguém e que ele estava muito feliz com o desempenho do Brasil em Tóquio.

A positividade tóxica tem que acabar. As "falhas nossas", não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL