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Perfeccionismo de Calderano faz Brasil virar protagonista no tênis de mesa

Hugo Calderano é top 10 do ranking mundial - Gaspar Nóbrega/COB
Hugo Calderano é top 10 do ranking mundial Imagem: Gaspar Nóbrega/COB

Demétrio Vecchioli

Colunista do UOL, em Tóquio

21/07/2021 12h00

Os sorteios de chaveamentos olímpicos costumam dar privilégios àqueles que mais se destacaram durante o ciclo olímpico e que, por isso, ocupam as primeiras posições do ranking mundial. Transformados em cabeças de chave, esses atletas da elite só se enfrentam em eventuais fases decisivas, quando as medalhas são definidas.

Entre os poucos brasileiros com esse status de favorito, Hugo Calderano brilha em um esporte onde o Brasil se acostumou a ser coadjuvante quando o sarrafo sobe e os melhores do mundo se encontram. Número 6 do ranking mundial, atrás de quatro chineses (dos quais só dois disputam a Olimpíada) e um japonês, ele chega a Tóquio como, literalmente, um favorito.

E ainda deu sorte no sorteio. Considerando o ranking, seu maior risco no caminho até uma inédita semifinal é o alemão Dimitrij Ovtcharov, número 12 do ranking mundial. Ou seja: até os jogos que valem medalha, ele não enfrenta nenhum top10. Chinês, só em uma eventual semifinal.

"É incontestável a hegemonia dos chineses e realmente é um grande desafio. Mas eu nunca penso que eles são invencíveis, até porque já ganhei de alguns. Eles são os favoritos, mas tudo pode acontecer e confio muito que seja possível. Estou me preparando da melhor forma para ter o máximo de chance. Eu não consigo controlar o que os outros vão fazer, mas sim o que eu vou fazer", disse Calderano em entrevista coletiva.

Em busca da perfeição, o brasileiro de 25 anos tem um controle quase obsessivo sobre o que ele consegue fazer. Por exemplo: apesar de ter morado em apenas dois países durante a vida — Brasil e Alemanha, onde jogou as últimas temporadas —, Calderano fala sete línguas português, inglês, alemão, espanhol, italiano, francês e mandarim.

Colecionador de cubos mágicos — tinha mais de 70 na casa onde vive, na Alemanha —, aprimorou a técnica até atingir o recorde de 6s32 para montar o cubo mais tradicional, de seis faces. Como demonstração de que sua mente controla seu corpo, aprendeu a dar salto mortal parado. Fã de basquete, aprendeu a enterrar, apesar da altura relativamente baixa para a modalidade, 1,82m. É como se não houvesse algo que Calderano não consegue fazer.

"É justamente na parte mental que sinto que consigo competir com eles e ter alguma chance, alguma coisa extra. Eu também já mostrei várias vezes que nos momentos importantes eu consegui jogar bem. Com certeza a parte mental é a principal no tênis de mesa. Você pode treinar horas, ter a técnica perfeita, mas se não tiver aquela concentração no momento decisivo vai ser bem difícil ganhar", disse ele.

Novas regras

A pandemia afetou Calderano fora e dentro de quadra. Por causa das restrições de viagem, ficou um ano e meio sem visitar os pais, que moram no Brasil. Só voltou para casa porque sofreu uma lesão no ombro que exigiu uma parada nos treinamentos.

"Tive uma lesão no ombro há pouco tempo, mas voltei muito bem. Ela me ajudou a recarregar as energias e sinto que já estou preparado. Consegui treinar com intensidade, consegui prevenir mais lesões e treinar todo treino com muita intensidade, muita qualidade", afirmou, hoje, ao UOL Esporte.

Dentro de quadra, algumas regras mudaram por causa da pandemia. Por exemplo, é proibido secar a mão na mesa, algo habitual na modalidade. Também não se pode mais soprar a bolinha para secá-la, mas essa regra ninguém cumpre.

"Não tem como evitar. Tem que secar porque não dá para jogar se estiver molhada. A gente treina soprando todo dia, não tem como não soprar. Mas o principal é conhecer bem as regras e conseguir se adaptar na hora."