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Foco nos pés: a guerra tecnológica dos calçados chega às Olimpíadas

Denise Mirás

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/07/2021 19h56

"Esquisita e injusta", falou Usain Bolt, sobre a permissão de uso de "superpregos" nas sapatilhas de atletismo, que foram criados para quebrar seus recordes mundiais dos 100m e 200m (9s58 e 19s19). É injusta para com um monte de atletas, comentou o jamaicano, porque grandes fabricantes de tênis já haviam tentado esse tipo de inovação tecnológica e a World Athletics (a federação internacional de atletismo) havia proibido. "Não, não se pode mudar os pregos, disseram. Agora, estão mudando. Só rindo", falou o jamaicano. " Com esses superpregos eu teria corrido abaixo dos 9s50."

A reação de Bolt está mais para mudança de postura dos dirigentes internacionais do que contra novidades nos equipamentos. Mas o agito não se prende apenas aos pregos das sapatilhas para velocistas. A guerra das marcas vem de décadas e a WA, por pressão dos fabricantes, passou a aceitar protótipos em competições oficiais - menos Mundiais e Olimpíadas. Nesses grandes eventos, "só poderão ser utilizados quando disponíveis no mercado para todos os competidores".

Olimpíadas são vitrines ideais para apresentação de novidades tecnológicas e algumas das que despertam curiosidade imediata são relacionadas aos tênis que irão calçar as estrelas do espetáculo.

Desta vez, a Nike provocou alvoroço com um "supermodelo" de sapatilhas, chamadas de Zoom Air Viperfly. Mas, ainda assim, são um modelo adaptado, para que a World Athletics garantisse sua homologação. Serão utilizadas, por exemplo, pela britânica Dina Asher-Smith.

Mas por que o Zoom Air Viperfly, desenvolvido inicialmente para... Usain Bolt (!), e desenhado especialmente para a prova dos 100m (prova em linha reta), teve de ser adaptado?

À sola mais rígida e leve, já homologada, seria acoplado um mecanismo de fibra de carbono para funcionar como trampolim de impulsão, para se alcançar mais velocidade. O projeto, além da tecnologia, levou em conta a tática da corrida, tendo como foco principalmente os últimos (e cruciais) 20 metros.

A aposta vale também para calçados de provas mais longas (5.000m e 10.000m), onde dois recordes mundiais já foram batidos, respectivamente pelo ugandense Joshua Cheptegei e pelo etíope Letesenbet Gidey, com o Nike ZoomX Dragonfly, anunciado como "o calçado mais rápido de todos os tempos". Outra marca extraordinária foi quebrada em Viena, no ano passado, pelo campeão olímpico Eliud Kipchoge: o queniano transpôs a barreira das duas horas da maratona com o criticado Nike Alphafly.

A Asics tem o velocista japonês Yoshihide Kiryu, por exemplo, se beneficiando de sapatilhas sem os tradicionais pregos: para o modelo Masterprint, a Asics desenvolveu uma sola externa de fibra de carbono com o desenho de favos de mel, em linhas em vez de pontos, na busca de maior aderência à pista (a altura dessa sola é personalizada).

Os pesquisadores levaram em conta o tempo que os tradicionais pregos (que também são oficializados por regras) gastavam para entrar e sair da superfície de corrida. Como ficam em ângulo com o solo, exigem um tantinho de força do atleta, o que poderia estar "atrapalhando". Com o novo calçado, sem os pregos e com propulsão a partir do Flexcarbon (plástico com fibras de carbono), o tempo dos 100m seria reduzido em 0s048.

A Nike agora se volta para o salto em distância: suas sapatilhas levam uma espécie de placa separada na parte da frente da sola, e já valeram para a heptatleta sueca Nafi Thiam, campeã olímpica da prova, um avanço de nada menos que 9cm em sua melhor marca (8,31m) no Europeu Indoor de Torun, na Polônia. Essa sapatilha, chamada de LJ (Long Jump) Elite, já está aprovada para Tóquio-2020.

Coisas do altíssimo rendimento...

Errata: o calçado da Asics mencionado acima é o Metaspeed, diferente do que foi publicado.

Fabricantes como Nike e Asics usarão os Jogos de Tóquio para colocar modelos que podem ajudar recordes serem batidos nas provas de velocidade e do salto em distância.