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Com crianças em Tóquio, skate pode pôr limite de idade após Olimpíadas

Rayssa Leal no Mundial de Skate Street em Roma - Reprodução
Rayssa Leal no Mundial de Skate Street em Roma Imagem: Reprodução

Letícia Lázaro

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/07/2021 04h00

O skate é uma das modalidades olímpicas que atualmente não tem idade mínima para competir. Por causa disso, o esporte terá a participação de jovens e menores de idade na Olimpíada de Tóquio, como é o caso de Rayssa Leal, de 13 anos, que se tornará a mais jovem brasileira a participar do evento. Depois dos Jogos, no entanto, esse cenário pode mudar.

Os Jogos de Tóquio marcam a estreia da modalidade no programa olímpico e devem funcionar como um laboratório para que a World Skate, entidade que organiza internacionalmente a modalidade, entenda melhor o que funciona ou não dentro do contexto de Olimpíadas.

Depois do torneio no Japão, a tendência é que o skate discuta de forma mais ampla a possibilidade de estabelecer uma idade mínima para elegibilidade dos competidores, o que faria com que jovens prodígios da modalidade não sejam mais permitidos nos Jogos Olímpicos.

Além de Rayssa, outros exemplos de crianças que competirão em Tóquio no skate são a britânica Sky Brown e a japonesa Kokona Hiraki, ambas de 12 anos. Assim como a brasileira, elas também se tornarão as mais jovens atletas da história olímpica de seus respectivos países.

"A gente acredita que vai ser colocado um limite, eu digo pelas conversas que a gente sabe, da Internacional [World Skate], do que a gente conversa com outras federações no mundo. Acho que vai ser colocado. Depois dessa estreia, dessa primeira aparição, muita coisa vai se dizer a respeito disso", explicou Tatiana Lobo, gerente de esportes da Confederação Brasileira de Skate (CBSK), em entrevista ao UOL Esporte.

Embora haja essa tendência, ainda não se sabe exatamente se essa mudança passará a valer já na próxima Olimpíada, em Paris, em 2024, e nem qual será o limite imposto.

Preparação psicológica

A participação olímpica de Rayssa Leal influenciou, e muito, na delegação da CBSK para Tóquio. Por causa da pouca idade de alguns atletas (além de Rayssa, Isadora Pacheco tem 16 anos), a Confederação de Skate precisou se adaptar, a começar pela preparação mental.

A psicóloga da CBSK, Juliane Fechio, conta que, apesar de semelhante, o trabalho feito com as "pequenas" é diferente do realizado com os adultos. Para as mais jovens, as sessões costumam ter menor duração e as atividades são mais lúdicas —utilizando imagens e cartões divertidos, que indicam sentimentos como, raiva e alegria. Dessa forma, Juliane consegue entender melhor o que elas estão sentindo pois é mais difícil para uma criança expressar as emoções.

Skate: Rayssa Leal é a atleta mais nova do Brasil nos Jogos Olímpicos - GettyImages - GettyImages
Skate: Rayssa Leal é a atleta mais nova do Brasil nos Jogos Olímpicos
Imagem: GettyImages

A preparação esportiva precoce de crianças esportistas também tem problemas. Segundo a psicóloga, o amadurecimento precoce desses atletas cria algumas questões internas que precisam ser trabalhadas.

"A criança ainda não tem maturidade psicológica para entender que, às vezes, ela vai treinar e não vai competir. Que ela pode ganhar mas pode perder, então é muito comum a gente ver crianças chorando na competição porque se sente frustrada, não sabe lidar com aquilo", explicou

Outro problema é que, muitas vezes, a pressão por resultados vem do ambiente externo. Pais e patrocinadores podem influenciar negativamente durante essa preparação. Por isso, Juliane costuma, paralelamente ao trabalho com as jovens, ter sessões com os pais delas.

"Quanto menor, maior o vínculo, o atendimento que tenho com esses pais. Então eu faço atendimento com as crianças uma vez por semana, e pelo menos uma vez por mês, com os pais também."

Questões logísticas

Em Tóquio, que tem imposto duras restrições por causa da pandemia de covid-19, todos os atletas menores de 16 anos do skate poderão levar um acompanhante legal o que, para Tatiana foi uma "vitória" da confederação, que lutou por essa permissão. Para ela, ter alguém que a criança confia por perto dá uma sensação maior de segurança, mas demanda também um planejamento contando com uma pessoa a mais no grupo, o responsável legal, o que, nem sempre, é fácil.

"A partir do momento que ele não é uma pessoa tão diretamente importante para os outros atletas, pode, muitas vezes, atrapalhar. Então é muito complexo de forma geral", explicou Tatiana.

Apesar das incertezas do futuro, a gerente de esporte da CBSK explicou que a Confederação está preparada para qualquer decisão da World Skate.

"Acho que a gente vai ter que se adaptar, porque qualquer que seja a regra que venham a colocar, de novo, a gente vai ter que se organizar para trabalhar da melhor forma", disse. "Depois do que a gente está fazendo na Olimpíada, com esse leque tão amplo de atletas, pela primeira vez, acho que, de fato, a gente vai estar preparado para o que eles resolverem."