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Sushi? Sashimi? Saiba o que a delegação brasileira vai comer na Olimpíada

Beatriz Cesarini

Do UOL, em São Paulo

12/06/2021 04h00

Há mais de dois anos, o chef de cozinha Allan Sales se mudou para o Japão com o foco em uma missão: organizar toda a alimentação da delegação brasileira para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Em parceria com o COB (Comitê Olímpico do Brasil), o cozinheiro profissional coordenou a montagem dos restaurantes das nove bases "verde e amarelas" espalhadas por oito cidades da terra do sol nascente, já que haverá competição e treinamento também fora da capital.

Em conversa com o UOL Esporte, Allan Sales falou sobre essa preparação que, embora pareça simples, foi desafiadora. Além disso, o chef executivo contou quais os principais pratos que atletas e suas delegações irão encontrar, como moqueca de peixe e frango com quiabo. E teve confederação que chegou a pedir iguarias da culinária japonesa, como sushi e sashimi, todos os dias da viagem.

"Em bases que têm esportes mistos, nós vamos trabalhar com buffet. Geralmente, atletas de combate controlam o peso, então, tem que ter carboidratos de baixo índice glicêmico, peito de frango, que tem muita proteína, ovo... E tem outros que precisam de uma comida mais pesada, como levantamento de peso", explicou o chef.

Durante a Olimpíada de Tóquio, Allan vai servir 35 mil refeições. Para isso, precisará de quatro toneladas de arroz, três toneladas de carne (porco, frango e boi), entre outros alimentos.

"O processo para chegar a um cálculo para não ter falta ou desperdício de alimento demorou dois anos. Eu via mais ou menos o que comiam, pesava a comida do prato. Foi bem desafiador", acrescentou Allan.

A ideia do chef executivo do COB é fazer com que as refeições "abracem" os atletas e os restaurantes tenham um clima de casa de vó. Para tudo ficar perfeito, Allan e o COB realizaram eventos teste durante as competições que os brasileiros disputaram no Japão ao longo dos últimos anos.

"Esse é um trabalho muito legal que o COB está oferecendo para os atletas. Até porque a culinária japonesa é totalmente diferente. Um café da manhã é como uma refeição completa para eles e o almoço é muito leve, com caldos e tudo mais. Então, a gente fez esse abraço aos atletas. Vamos ter comida brasileira, mas muito além do arroz e feijão: moqueca de peixe, frango com quiabo, vaca atolada, churrasco. Também tem as comidas que estão na nossa cultura: lasanha, panqueca, strogonoff", contou Allan.

"É legal ver como eles recebem isso. Atletas que moram na Europa por muito tempo chegam e ficam impressionados e felizes com farofa. É muito bom ver o rosto deles quando se deparam com as nossas refeições", acrescentou.

Nada impede Allan de atender alguns pedidos especiais. A seleção brasileira de judô, por exemplo, solicitou a culinária japonesa em todos os jantares. Um atleta do Rio Grande do Norte disse que não poderia faltar cuscuz no café da manhã. Nos eventos teste, o chef preparou ovos fritos para a delegação de atletismo. Desses "abraços" nasceram amizades.

"Acabei conhecendo muitos atletas. Criei um carinho pelo handebol feminino, a gente troca receitas até. Admiro muito a Ana Marcela, da maratona aquática, Martine e Kahena, da vela... O pessoal do atletismo também é demais. Eles colocavam pagode na cozinha, pediam um ovinho frito: 'Ô chef, não dá pra fritar um ovinho pra gente?'. E a gente fez. 'Gema mole ou gema dura?'", completou o chef.

Os bastidores da cozinha do chef Allan

Além da complexidade para chegar a um denominador comum de uma delegação com atletas de diferentes esportes, Allan viajou o Japão para ensinar a japoneses sobre a culinária brasileira. Em alguns momentos, sem a presença de tradutores, a interação era via paladar e olhos atentos.

"Pensamos que era só chegar e treinar equipes de cozinha. Foi muito mais que isso. No Japão, eles trabalham de uma forma diferente com o corte de animais. Eles moem uma parte da carne de boi que, às vezes, a gente não usa para moer, cozinham o que não usamos para cozinhar. É diferente, principalmente para o nosso tipo de culinária", explicou o chef que tem 15 anos de experiência.

"Foram dois anos de ajuste. Trabalhei com tradutores, porque em muitos lugares não se fala inglês. Fizemos apresentação como o mapa do boi, explicamos que parte os brasileiros usavam para cada coisa na culinária. Em alguns lugares, montamos cozinhas do zero. Até as áreas de lavar louça a gente instalou", acrescentou Allan.

Alguns dos restaurantes terão uma cozinha só com funcionários japoneses, com apenas um brasileiro para ser o "olho" de Allan durante os Jogos. Mesmo assim, o chef ficará circulando pelo país para acompanhar a operação de suas cozinhas.

"É muita gente, muita comida, muito detalhe. São nove bases. Eu vou começar no centro de Tóquio. Lá, tem um sistema de transporte muito eficiente. Eu consigo chegar em uma hora em locais a 300 quilômetros de distância. A ideia é ir ficando nos três primeiros dias de funcionamento de cada base, aí, depois, vou circulando, e no fim, vou passando para me despedir", disse o chef.

"Estamos esperando os atletas de braços abertos. Torcemos para que tudo dê certo e que cheguem saudáveis e partam saudáveis, felizes pela experiência de terem vivido os Jogos e ter comido comida brasileira no Japão", concluiu.