Palavra de pai

Minha maior conquista: o Arthur antes do filho é totalmente diferente do Arthur depois do filho

Arthur Zanetti, em depoimento para Denise Mirás Colaboração para o UOL, em São Paulo Marcus Steinmeyer/UOL

Liam, você nasceu em um ano de pandemia, complicado. Um ano em que o mundo parou. Ainda bem que você nem vai para a escola ainda, porque crianças de 2, 3 aninhos estão em casa, vivendo de forma bem diferente, sem contato com amiguinhos. Digo para você que foi um ano muito triste, mas teve um lado bom para mim, que foi o adiamento da Olimpíada de Tóquio 2020. Assim, consegui acompanhar a gestação da sua mãe - principalmente os últimos dois, três meses, que é quando dá aquela evolução no bebê -, e depois o seu nascimento. E, agora, seu primeiro ano. Se fosse uma temporada normal, com certeza perderia boa parte dessa convivência. Então, a pandemia me trouxe isso: em um momento tão delicado, bem triste para todo mundo, tive um lado bom.

Era um domingo, aquele 13 de setembro de 2020. E de noite, umas nove e meia... Eu e sua mãe Jéssica já não esperávamos você, para falar a verdade. Porque vai chegando naquela retinha final, a gente acorda e fala: "Putz! Será que é hoje?". Aí vai, está acabando o dia, e não, não é. Aí, de novo: a gente acorda: "Será que é hoje?" E não, não é... Naquele domingo, já tarde, eu falei: "Não vai ser hoje, mas do fim de semana que vem não deve passar...". Foi quando a Jéssica sentiu uma coisa diferente, um leve sangramento, bem levinho. O médico tinha dito que no caso de qualquer sangramento era correr para o hospital. "Então, vamos para o hospital. Agora!".

Sou tranquilo, mas dessa vez eu fiquei nervoso, viu, filho?! A gente pegou tudo que já tinha deixado preparado, só estava faltando umas coisinhas ou outras, um documento... A Jéssica, sua mãe, lembrou: "Precisa do comprovante de residência". E eu: "Que comprovante de residência! Mulher, você está tendo um filho e quer saber comprovante de residência?! Vamos embora, vamos para o hospital logo. Depois, eu volto para casa, caso precise, pego essa porcaria". E ela: "Mas precisa!". "Não precisa nada!" Coloquei ela no carro e aí começaram as contrações, ela dizia que eram bem fortes. "E eu: Deus do céu! O que foi?!" O hospital, em São Caetano do Sul, era perto de casa, uns 15 minutos, ainda mais de noite... Fomos rápido. Mas as contrações eram cada uns três minutos - de novo, de novo... E a cada uma meu coração dava aquela acelerada!

Na porta e já fui dizendo: "Minha esposa vai ter filho!". A médica plantonista fez o exame, viu a dilatação, ligou para o médico, voltou e disse que a cesárea estava marcada para as 10 da noite. "Mas 10 da noite é daqui 15 minutos, moça! Não, calma, também não é assim, não!". Daí foi aquele procedimento todo e você nasceu, Liam. Com 49,5 cm, 3,505 kg. Era 11h09 da noite. Acompanhei cada momento, vi você saindo da barriga da sua mãe... É uma sensação única. Chorei muito, um choro de felicidade, de alegria. Porque é aquela expectativa. A gente via sua imagem no ultrassom em 3D —hoje é tudo muito avançado, não é?... Mas quando nasceu... É aquela coisa mais linda, e choro para todo lado!

Quando minha mãe Roseane - sua avó, Liam - estava grávida do Victor - meu irmão, que é quatro anos mais velho do que eu -, meu pai - o seu avô Archimedes - pensava no nome Graco. Minha mãe não queria de jeito nenhum e foi olhar em um livrinho dela, lá, de nomes, e viu Victor. Ficou Victor. Depois, quando era a minha vez de nascer, meu pai veio de novo com o Graco, mas minha mãe foi no livrinho dela e achou Arthur um nome bonito, com significado de "forte, protetor, persistente"... Fiquei Arthur.

E você, Liam?

Eu pensava em alguns nomes, sua mãe em outros. E tudo nome de menino. "E se for uma menina, como vai ser?", a gente falava. Não tínhamos pensado em nenhum... Mas no caso dos nomes de meninos, chegamos a um consenso: Liam. Pronunciando assim: "Lí-am". Gostamos muito do seu nome, achamos bem legal, bem bonito. Fomos procurar o significado e era "corajoso". Então seria Liam!

Eu mudei muito com a sua chegada, sabe? Aliás, antes, até. Perto de você nascer, já comecei a mudar um pouquinho. E quando você nasceu... Fiquei totalmente diferente. Se achava que sair de noite era tranquilo, ah, agora se saio à noite presto muito mais atenção em tudo. Você começa a ter uma visão diferente do mundo, dos perigos, começa a querer proteger. Eu sou outra pessoa. O Arthur antes do filho é totalmente diferente depois do filho.

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL

Minha infância foi muito boa e vou contar para você. Apesar de ter começado na ginástica muito cedo, aos 7 anos, e já cumprindo compromissos com 8, aquilo de treinar todos os dias, também brincava muito. Meu pai, o seu avô, Liam, sempre fez questão de morar em uma rua tranquila, para dar para a gente, os filhos, a liberdade de brincar. Por isso, eu e meu irmão, o seu tio, nunca fomos de ficar no videogame, em celular.

A gente tinha escola e tarefas no dia todo, mas à noite saía para a rua. Era muito movimentado. Muitas crianças quase da mesma idade e na mesma faixa de brincadeiras, no máximo uns quatro anos de diferença, como eu e o Victor. Não tinha café-com-leite. Só se aparecesse alguém com uma diferença muito grande, que tivesse uns 4 aninhos. Aí não tinha como brincar ou competir com a garotada de 10, 12. Mas a gente sempre dava um jeito para o pequeno aprender, ficando por ali, convivendo com a turma.

Era vôlei, futebol, rouba-bandeira, polícia-ladrão, pega-pega, esconde-esconde. Cada dia fazia uma brincadeira... Ah, a gente gostava muito de taco - tinha quem falasse "bétis", mas na nossa rua era taco. Eu vou ensinar tudo para você. A gente aproveitava bastante e tinha vezes que até os adultos, meus pais, pais de outras crianças, entravam na brincadeira. A rua era sem saída, na Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo, onde morei boa parte da minha vida. Descida. Com skate, carrinho de rolimã, patins. Uma vez fizemos toda uma engenharia para montar um trenzinho de rolimã e quando aquele que estava na frente deu o comando para puxar o freio... os freios saíram nas nossas mãos! Aí o jeito foi frear com mãos, pés... A gente se ralava direto! Mas era divertido e muito gostoso. O ralado era o de menos.

Brincar é muito importante, desenvolve coordenação mas também integração das crianças. Não sou bom em tudo, não, meu filho! Mas se me chamam para jogar um vôlei, um tênis, eu consigo. Um futebol... bom, aí é assim: mais ou menos. Acredito que foi assim que desenvolvemos nossas habilidades e sei que se me chamam para brincar não sou aquele "pato". E aprendemos a socializar. A brincadeira é legal também por isso: para integrar as crianças, ter esse contato. Se é mais tímida, começa a ter convivência, a se soltar um pouquinho, e não fica aquela criança acuada.

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Liam, brincar é a base de tudo que uma criança precisa para se desenvolver. A rua em que moramos hoje é bem movimentada e a situação da segurança também é muito pior do que antigamente. Ficar na rua é muito perigoso. A gente teve mais liberdade. Agora, a sua brincadeira deverá ser na escolinha. É meio complicado, mas vou tentar proporcionar a você o máximo que puder, compensar levando para parques, com outras crianças para brincar.

Quem sabe a gente não mude para um condomínio fechado, que também é um dos nossos objetivos, meu e da sua mãe. Pela questão de ter mais tranquilidade também, porque viajo muito e ela fica sozinha. Aí, você poderia crescer com essa maior interação na rua, sem preocupação. Mas ainda é para o futuro.

A certeza é que vou apresentar os esportes para você, seguindo a linha dos meus pais. Porque nem é só questão de saúde. É de socialização, de aprender o respeito pelo seu companheiro... E deixar que você escolha, como a minha família fez comigo, que você tome a sua decisão. Eu estarei sempre apoiando.

Olha, quando comecei a ginástica, por indicação de um professor da escola, nem era esporte conhecido, mas meus pais me incentivaram. Minha avó Neide, a sua bisavó, mãe da minha mãe, era quem me levava. Foi um esporte que eu gostei de cara. Não me lembro do teste, do primeiro dia, mas sim da sensação que tive, de que o ginásio de ginástica era um parquinho de diversão! Tinha barra para subir, solo para correr, colchões para se jogar... Achei bem divertido e foi isso que me atraiu na ginástica: poder brincar, mesmo tendo esse compromisso de cumprir a tarefa do treino.

Sabe, filho, sou bem certinho nessa parte de organização... Tive até um trauma no meu primeiro dia de aula, no Jardinzinho, porque estava desenhando, já quase acabando, e a professora pediu para eu pintar um pouquinho mais. Saiu todo mundo para o recreio, para o lanche, e aquilo me deixou angustiado. Fiquei bem chateado e disse para a minha mãe que não queria mais ir para a "colinha". Era bem criança, mesmo e disse que só iria para a escola de novo se fosse na mesma do meu irmão. Ela concordou. Era em prédios diferentes, mas ia e voltava com ele. E tinha caixa de areia para brincar, parquinho... Todas as crianças tratadas igualmente. E aí peguei de novo a vontade de ir para a escola.

Desde criança gosto muito de cumprir horários e sou bem organizado. Até poderia deixar uma coisinha aqui outra ali, mas vou lá e faço. Acho que puxei da minha mãe, a sua avó Roseane. Vem de família, vem de casa. Essa parte de observar os pais e saber que você tem aquela tarefa de deixar as coisas organizadas... Isso vou passar para você: usar um brinquedo e guardar, em vez de deixar tudo espalhado. Tanto para preservar o brinquedo, para não quebrar, porque a gente pode pisar em cima, como também pela segurança.

Vou ensinar você a dar importância às coisas. Qual a dificuldade de dobrar uma camisa e colocar no armário, de dar valor ao que se tem? A gente vai tentar, né? Nunca se sabe, não tem manual para pais! Mas vamos tentar ensinar tudo de melhor para você.

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Também consigo ser muito concentrado e esse é um dos pontos fortes na ginástica. Duas gravações me arrepiam, para falar a verdade: uma, a do Jean-Claude van Damme, com os pés nos retrovisores de dois caminhões que vão dando ré, se abrindo. Ele, o ator, totalmente equilibrado, vai abrindo as pernas em um espacate... Eu vou mostrar para você. A outra é a minha gravação da propaganda da Adidas ao ar livre, no alto do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, que foi fantástica.

No meu vídeo - engraçado -, eu estava tão focado no que tinha de fazer, na minha série, que foi só quando estava na última subida, descansando, que escutei um produtor me perguntando: "E aí, como é a paisagem, como você está se sentindo?". Eu pensei: "Cara, nem prestei atenção! Mas agora, nesta última tomada, vou prestar. Nem que a minha rotina saia um pouco pior... Estou aqui, em cima do Pão de Açúcar, em uma estrutura que montaram de 3m60 de altura, mais as argolas, de 2m60... Eu estou no topo e não vou ver nada?! Nesta última eu vou prestar atenção, sim, à paisagem. Aí consegui: fiz o Cristo e senti o vento batendo, bem forte. Fiquei vendo tudo aquilo, do alto do Pão de Açúcar... Foi incrível, Liam.

Consigo mesmo ter muita concentração, mas aquele não era o momento, como é nas minhas provas. Por exemplo, naquela da medalha de ouro da Olimpíada de Londres 2012. A Deve ter durado 1min10 no máximo. Fiz uma prova e minha vida mudou. Então, às vezes você não precisa de dias, horas, meses... Lógico, teve todo o trabalho de treinar dia a dia, mas chegando na Olimpíada é o momento que vale. E em 1min10 eu mudei minha vida.

Por isso, Liam, a gente tem de guardar bem esses lances na memória, valorizar. Quando vejo alguma foto, ou mesmo só parado, pensando, consigo me lembrar de alguns flashes e isso me traz uma sensação muito boa. Motiva. Então, vou falar para você: viva muito e relembre suas conquistas, os momentos bons que trazem alegria para a nossa vida. Aquele ouro nas argolas foi a maior conquista da minha carreira e marcou a história da ginástica.

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E daqui a um tempo, quando você estiver com uns dez anos?... Eu me vejo treinando mais um pouco, não vou parar nesta Olimpíada. Depois... Não sei se serei um treinador ou não. Mas fazendo alguma coisa dentro do esporte, com certeza. É a minha vida, o que sei fazer de melhor. E estarei diante de um quadro com minhas medalhas, com você, falando dessas conquistas, como foram, o que significaram.

São tantas, que de algumas não me lembro mais a história. Mas das principais, que marcaram minha carreira e ficam na memória, vou explicar que não vieram de graça, que a gente trabalhou muito, abdicou de muita coisa para ter a recompensa, o reconhecimento, que tudo isso é incrível. Mas que você é a maior conquista.

(Arthur Nabarrete Zanetti, 31 anos, ginasta. Especialista em argolas: ouro olímpico no aparelho em Londres 2012, prata no Rio 2016; campeão mundial em Antuérpia (Bélgica) 2013, prata em Tóquio 2011, Nanning (China) 2014 e Doha (Catar) 2018; classificado para a Olimpíada de Tóquio 2020, transferida para julho/agosto de 2021)

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