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Pergunta pro Jokura

Quais foram os resultados mais polêmicos em provas olímpicas?

Jonne Roriz / COB
Imagem: Jonne Roriz / COB
Tiago Jokura

Tiago Jokura é jornalista e, portanto, curioso profissional. Passou os últimos 15 anos respondendo as dúvidas mais complexas e inusitadas dos leitores na mídia impressa, na tentativa infinita de explicar como o mundo funciona com clareza e bom humor. Agora, continua essa saga aqui no UOL.

29/07/2021 04h00

Quais foram os resultados mais polêmicos em provas olímpicas?
Pergunta de Jairo Alves, de Baía Formosa (RN)

A história é muito antiga, caro formosense. Para ser exato, 117 anos antes da recente polêmica envolvendo as notas da semifinal do surfe masculino que eliminaram o brasileiro Gabriel Medina.

Mas antes vamos falar do resultado mais controverso da história olímpica: a final do basquete masculino em Munique 1972, entre União Soviética (URSS) e Estados Unidos. Os americanos haviam vencido, até então, todas as sete medalhas do ouro disputadas, com 63 vitórias e nenhuma derrota olímpica.

A União Soviética ficou à frente do placar durante todo o jogo, mas os EUA viraram para 49x50 faltando três segundos. Na volta ao jogo, os americanos barraram os soviéticos e chegaram a comemorar o oitavo ouro. Aí veio a primeira intervenção: o técnico soviético disse que pediu tempo faltando um segundo para a partida terminar. A bola entrou em jogo de novo, os soviéticos mais uma vez não marcaram e os EUA repetiram a comemoração.

Mas um dirigente da FIBA desceu até a quadra e fez o relógio voltar aos três segundos, alegando que o técnico da URSS teria pedido o tempo com esse tempo restante. Na terceira tentativa, os soviéticos finalmente marcaram: 51x50. O árbitro brasileiro Renato Rhigetto não assinou a súmula do jogo, os EUA apelaram do resultado, mas três dos cinco juízes (de países do bloco socialista, liderados pela URSS) mantiveram o resultado. Os americanos jamais foram receber as medalhas de prata. O vídeo a seguir resume a marmelada:

Agora, voltemos ao resultado polêmico mais antigo dos jogos, ocorrido na 4ª edição, em Londres 1908. Nos 400 m rasos, o americano John Carpenter foi desclassificado por bloquear o britânico Wyndham Halswelle. Só que a manobra de Carpenter era válida pelas regras americanas e ilegal pelas regras britânicas, sob a qual a prova ocorreu. Os organizadores marcaram outra corrida, mas, em protesto, os outros dois americanos não participaram. Assim, só sobrou Halswelle na prova e o britânico foi campeão sem competir - este foi o primeiro e único W.O. da história olímpica.

De lá para cá, muitos outros resultados contestados ou suspeitos deram o que falar - vou listá-los dos mais recentes aos mais antigos:

Rio 2016

- Um novo sistema de contagem de pontos foi implementado no boxe: em vez de contar pontos para cada golpe acertado no rival, o vencedor de cada round levava 10 pontos e o perdedor uma pontuação menor, baseada em vários critérios. A subjetividade da nova pontuação levou ao questionamento de duas vitórias russas: a de Evgeny Tishchenko sobre o cazaque Vasily Levit na final do peso pesado e a de Vladimir Nikitin contra o irlandês Michael Conlan nas quartas do peso galo. A Associação Internacional de Boxe (AIBA) afastou vários juízes e árbitros depois das reclamações, mas mantiveram os resultados;

- Na disputa pelo bronze na luta, categoria até 65 kg, o mongol Ganzorigiin Mandakhnaran vencia o uzbeque Ikhtiyor Navruzov por 7x6. Com a luta prestes a terminar, começou a comemorar e foi punido com um ponto a favor do rival. Como o desempate favorecia quem pontuava por último, o uzbeque venceu. A comissão técnica da Mongólia ficou tão indignada que jogou até sapato na mesa dos juízes - o que rendeu outra punição e o placar final de 7x8.

Londres 2012

- Na semifinal do futebol feminino entre Canadá e Estados Unidos, a goleira canadense foi punida por segurar a bola por mais de seis segundos com um tiro livre indireto dentro da área - infração raramente marcada. Na cobrança da falta, a bola bateu no braço de uma defensora canadense. O pênalti convertido pelas americanas empatou a partida em 3x3. As americanas ganharam na prorrogação e partiram para o ouro, sob muito protesto das rivais;

- Mais uma do peso galo no boxe: o japonês Satoshi Shimizu fez o lutador Magomed Abdulhamidov, do Azerbaijão, beijar a lona seis vezes no 3º round. O árbitro não abriu contagem nenhuma vez - alegando que o azerbaijano apenas escorregou - e ainda ajudou o boxeador cambaleante a ajeitar a proteção de cabeça. O placar de 22x17 para Abdulhamidov foi contestado, em vão, pela confederação japonesa.

- Na semifinal da esgrima com espada, um erro na cronometragem estendeu a luta e permitiu que a alemã Britta Heidemann tivesse tempo para marcar o ponto que definiu a disputa contra a sul-coreana Shin A-lam. A derrotada apelou do resultado, mas não adiantou. Mais tarde, a organização ofereceu uma medalha de consolação, que Shin recusou;

- Na ginástica artística masculina por equipes, o Japão contestou as notas dadas para Kohei Uchimura - que, com perdão do gracejo, caiu do cavalo com alças - e saltou da quarta posição para a prata. Como resultado, a Ucrânia perdeu o bronze. Houve vaias da torcida, que não entendeu o motivo da mudança, mas as equipes não protestaram.

Beijing 2008

- O gol que classificou a Noruega para a disputa do ouro no handebol feminino deixou as rivais da Coreia do Sul indignadas. É que a bola só teria cruzado a linha do gol depois do cronômetro zerar - o que, de acordo com as regras, poderia anular o ponto. As coreanas apelaram pedindo uma disputa de prorrogação mas o pedido foi negado pela Federação Internacional de Handebol.

Atenas 2004

- O árbitro húngaro Joszef Hidasi foi suspenso por dois anos ao cometer seis erros crassos em favor da Itália na disputa do ouro contra a China no florete por equipes. O placar 45x42 teria sido bem diferente sem os "erros";

- Na ginástica artística masculina, os juízes erraram - e tiveram que corrigir após protesto - uma nota do sul coreano Tae-Young nas barras paralelas por não identificar um elemento da rotina. Nas barras fixas, a lambança foi ainda maior: os juízes deram uma nota considerada baixa para o russo Alexei Nemov, campeão olímpico em Sidney 2000. A torcida protestou tanto que paralisou a competição por quase 15 minutos. A pressão fez efeito e a nota de Nemov subiu - mas não o suficiente para lhe garantir um melhor resultado. Os erros foram tão bizarros que levaram a uma revisão do Código de Pontos do esporte.

Barcelona 1992

- Na final dos 10 mil metros, o marroquino Khalid Skah disputava o ouro com o queniano Richard Chelimo. Ao passarem por Hammou Boutayeb, também marroquino, o retardatário apertou o ritmo e ficou junto com os líderes, atrapalhando Chelimo e despertando vaias das arquibancadas. Skah foi desclassificado, mas depois de um apelo dos marrorquinos, manteve sua medalha de ouro.

Seul 1988

- O americano Roy Jones Jr. deu 86 socos contra 32 do atleta da casa Park Si-Hun, na final do peso super-médio. Até o sul-coreano pediu desculpas a Jones após o 3x2 que os juízes deram a seu favor. Após investigações que só foram concluídas em 1997, o Cômitê Olímpico Internacional (COI) concluiu que três dos juízes foram comprados.

Berlim 1936

- No sprint final do ciclismo, o alemão Toni Merkens fez uma manobra que poderia desqualificá-lo diante do holandês Arie van Vliet. Em vez disso, pagou uma multa e ficou com o ouro.

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