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Atleta de Peso

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Influenciador agradece à covid-19 por ter emagrecido. Isso é saúde?

Dietas restritivas, elas sim, são romantizadas nas redes sociais - Getty Images/iStockphoto
Dietas restritivas, elas sim, são romantizadas nas redes sociais Imagem: Getty Images/iStockphoto
Ellen Valias

Ellen valias é mulher preta e gorda, fundadora do Rachão Basquete Feminino e graduanda em Educação Física.

24/07/2021 04h48

A romantização da magreza está liberadíssima nas redes sociais, e ninguém questiona, nem mesmo quando a magreza deixa a saúde de lado.
Essa semana, vi um vídeo de um influenciador que pegou coronavírus e ficou muito mal. Nas imagens, ele dizia que, apesar do estado de saúde, estava bastante feliz por ter emagrecido. Esse cara tem 1 milhão de seguidores. O tamanho da irresponsabilidade é imensurável. E, é claro: isso ninguém questiona.

É inacreditável uma pessoa pensar assim a respeito de uma pandemia que já matou mais de 500 mil pessoas. Eu sempre me pergunto: de qual saúde estão falando?

É só navegar um pouco pelas redes sociais que não vai ser difícil encontrar conteúdo de influenciadores incentivando a magreza a qualquer custo —e ganhando muito dinheiro em cima disso. Divulga-se cirurgias de lipoaspiração, dietas restritivas, remédios e chás que prometem milagres.

Isso acontece porque o corpo magro tem validação para fazer o que quiser na sociedade. Esse ciclo de emagrecimento a qualquer custo, que é muito violento, funciona muito bem para quem vive dele: produz pessoas eternamente insatisfeitas e em busca de milagres -e é disso que a indústria é feita. Do lucro em cima do sofrimento.

A divulgação sempre começa com histórias de dietas de sucesso, tratam esporte e atividade física como punição. Coaches e personal trainers ridicularizam o corpo gordo com o intuito de vender um padrão que não é real. As pessoas que consomem esse tipo de conteúdo se sentem eternamente frustradas e acreditam que não são capazes porque não tem força de vontade o suficiente.

Elas fazem de tudo, gastam o que podem e o que não podem para alcançar o tal corpo perfeito. Não importa se, para isso, precisem adoecer. Muitos adoecem. O que importa é a imagem do corpo magro.

O que mais me choca é que isso não é questionado, mas impulsionado. Agora, se uma pessoa gorda abre a boca para falar sobre qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma: pare de romantizar a obesidade.

Cada um deve fazer o que quiser com o próprio corpo, mas não antes de refletir sobre esse imaginário inalcançável a que somos submetidos; que diz que controlamos nosso peso, mas, se isso fosse verdade, não existiria dietas que não funcionam. Nada é tão simples.

Enquanto, na sociedade, ser magro for considerado sinônimo de sucesso, beleza, saúde e status, as pessoas continuarão frustradas. Não conseguiremos falar de forma honesta sobre perda e ganho de peso se isso não mudar.

Então, encerro esse texto com um convite: reflita sobre que tipo de conteúdo você tem consumido nas redes sociais. Se as pessoas que você segue fazem você se sentir bem ou se fazem com que se sinta frustrado; se agregam à sua vida ou se adoecem sua vivência no mundo.
Cuidar da saúde mental na internet é imprescindível. Siga quem te incentiva a ser feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL