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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Profissionais de educação física não sabem acolher pessoas gordas

Ellen Valias é a nova colunista do UOL Esporte - Arquivo Pessoal
Ellen Valias é a nova colunista do UOL Esporte Imagem: Arquivo Pessoal
Ellen Valias

Ellen valias é mulher preta e gorda, fundadora do Rachão Basquete Feminino e graduanda em Educação Física.

19/07/2021 04h00

Meu nome é Ellen Valias, tenho 40 anos, sou preta, gorda e faço faculdade de educação física. Luto pelo acesso de pessoas gordas a atividades físicas e esportes sem que sejam ridicularizadas e humilhadas. É direito nosso movimentar nosso corpo gordo sem que o objetivo seja o emagrecimento.

Um dos motivos que me levaram a cursar educação física foi entender o motivo pelo qual a maioria dos profissionais da área não sabe acolher pessoas gordas. Ao se formarem, eles deixam a universidade como robôs que só sabem determinar o emagrecimento à pessoa gorda que quer se exercitar. E entendi.

É urgente ter, na grade do curso, uma matéria sobre corpos diversos. Descobri, com a faculdade, que profissionais de educação física não sabem o que é gordofobia e, por isso, reproduzem atitudes gordofóbicas com (poucos) alunos que ainda resistem para ocupar esses ambientes. Os alunos ouvem dos professores que o exercício é uma forma de emagrecimento, e nada mais.

Na aula teórica de ética, que faz parte da grade curricular, é ensinado que o profissional de saúde deve acolher e fornecer acesso à saúde para qualquer pessoa. A prática é bem diferente. Quando publicamos a reportagem "O esporte exclui corpos gordos. Eles resistem para estar ali", recebi diversas mensagens agressivas de colegas da educação física que só comprovam o quão longe estamos de uma sociedade inclusiva no esporte.

Eles alegam saúde, e eu sempre questiono: de qual saúde estão falando e qual saúde importa? A resposta é fácil e está escancarada: o que importa é fazer de tudo para emagrecer, mesmo que esse tudo adoeça as pessoas que, até então, estavam saudáveis mesmo gordas. Nunca foi sobre saúde, sempre foi sobre imagem.

A falta de acolhimento afasta as pessoas gordas das atividades físicas e dos esportes, é claro. Ninguém fica onde o próprio corpo é julgado e ridicularizado. Nas academias, a primeira coisa a que uma pessoa gorda tem acesso quando faz a matrícula é um leque de opções para emagrecimento. Isso precisa parar. Exercício físico melhora a nossa saúde física e mental, e se o problema fosse, de fato, saúde, todos estariam lutando com a gente pelo acesso das pessoas gordas à saúde.

A verdade é que o corpo magro tem validação social para fazer o que quiser nessa sociedade.

Chega de bumbum na nuca, de projeto verão, barriga negativa e barriga chapada. Não são honestos esses movimentos. Que cada um entenda o próprio corpo e o respeite.

Pessoas gordas não estão se exercitando em academias, parques públicos, quadras esportivas não porque são preguiçosas e relaxadas, mas, sim, pela ausência de um ambiente seguro.

Se você é um profissional de educação física, provavelmente já deu aula em escolas e presenciou alguma criança gorda ser ridicularizada na sua aula. Provavelmente, ainda, você não fez nada. É na aula de educação física que a criança gorda começa a receber a mensagem que o corpo dela não é capaz; e é ali que começa sua falta de acolhimento com corpos gordos até a vida adulta.

Então, pense: você fornece acesso à saúde ou nega? Quantas pessoas gordas você já afastou das atividades físicas? Reflita.

Por isso, levo essa minha frase por onde eu passar: é direito nosso movimentar nosso corpo gordo e isso não tem nada a ver com emagrecimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL