PUBLICIDADE
Topo

MMA


MMA

Acusado de agredir lutadora do UFC continua dando aulas para mulheres

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

14/01/2021 12h43

Investigado após denúncias de agressão a uma ex-lutadora do UFC, o professor Herman Gutierres passou a dar aulas de defesa pessoal para mulheres em Sorocaba, no interior de São Paulo. Em 2017, o faixa-preta de jiu-jítsu foi gravado dizendo frases como "Eu vou arrebentar sua cara" a uma aluna, a lutadora Ericka Almeida, que depois o denunciou.

De acordo com Ericka e sua irmã, o professor agrediu as duas durante anos. A atleta chegou a gravar um vídeo em que aparece com o rosto ensanguentado após uma dessas ocasiões. Em 2019, a lutadora escreveu um relato das agressões na série "Vozes no Tatame", do UOL Esporte. Um ano e meio após o caso vir à tona, o Ministério Público de São Paulo ainda não formalizou denúncia contra o professor, que segue dando aulas em Sorocaba, inclusive para mulheres.

Gutierres - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Herman Gutierres, professor de jiu-jitsu, acusado de agredir a aluna
Imagem: Arquivo pessoal

O UOL Esporte apurou que provas fundamentais para a investigação, como as gravações feitas por Ericka e transmitidas em uma reportagem da Globo, foram minimizadas no processo, apesar da Polícia Civil ter tido acesso a elas.

"Eu sabia que ele ser preso seria muito difícil, mas eu tinha esperança que tivesse alguma condenação", afirma Ericka Almeida, que hoje vive no Paraná, onde dá aulas de jiu-jitsu. "Mas não acontecer nada é muito revoltante, angustiante. A minha parte eu fiz, denunciei, colhi provas, mostrei tudo, me esforcei muito. Fica um sentimento de mãos atadas. Não quero ficar famosa, não vou ganhar dinheiro, só quero justiça. Ele fez isso a vida inteira, não foi só comigo e não vai parar, não vai mudar."

Em suas redes sociais Herman Gutierres, tem publicado fotos em treinamentos de luta pela cidade. Em algumas, de setembro de 2020, ele aparece participando de um treino de defesa pessoal específico para mulheres, promovido pela Guarda Civil de Sorocaba. Os treinos seguiram pelo menos até novembro.

Herman - Reprodução - Reprodução
Herman Gutierres dá aula de defesa pessoa para mulheres
Imagem: Reprodução

Procurado, o professor de jiu-jitsu afirmou não poder dar entrevista por orientação de seu advogado. Ele encaminhou, porém, uma série de postagens de Ericka da época em que ambos treinavam juntos, agradecendo por suas instruções. Sobre as aulas de defesa pessoal para mulheres, o treinador afirma que não foram ministradas por ele.

A reportagem confirmou com pessoas ligadas à prefeitura e à Guarda Civil de Sorocaba a existência do curso e a participação do professor. A gestão anterior da prefeitura, que terminou em dezembro de 2020, não atendeu aos pedidos de comentário.

Polícia leva sete meses para pedir provas transmitidas na Globo

Ericka começou a treinar jiu-jitsu na academia de Herman em Sorocaba e logo se tornou a sua principal atleta. Mesmo o treinador sendo casado, os dois também mantiveram um relacionamento amoroso, enquanto a lutadora competia nos torneios de MMA, conforme relato dela à polícia, ao UOL Esporte e a uma reportagem do Fantástico, da Globo.

Em julho de 2019, o Ministério Público pediu, e a Justiça determinou à polícia requisitar a reportagem, considerada uma prova fundamental contra o treinador, já que trazia gravações em que ele ameaça a vítima. Apesar do prazo de 60 dias para o cumprimento da decisão, a polícia de Sorocaba levou sete meses para enviar um ofício à Globo. A emissora respondeu na semana seguinte e enviou DVDs e um link para o material.

Mesmo assim, o conteúdo das gravações ali mostradas não aparece nas manifestações da polícia e do Ministério Público, que se concentraram no depoimento de testemunhas de acusação e defesa.

"A reportagem citada é elemento de grande importância na comprovação dos ilícitos praticados pelo investigado", escreveram os advogados de Ericka, Luiz Barbosa e Hugo Barbosa, em manifestação nos autos. "Não poderia a autoridade policial se furtar a atender ao requerido pelo Ministério Público e corroborado pelo Juízo. Bem claro, no entanto, que a condução dos inquéritos foi realizada de forma parcial, ilícita e em claro benefício ao investigado."

Existem dois inquéritos abertos pela Delegacia da Mulher de Soracaba contra o treinador. Um apura as denúncias feitas por Ericka e outro as denúncias de Ellen Almeida, sua irmã, que também era treinada por Herman e também mantinha um relacionamento com ele. Nesse inquérito, consta como prova um diário no qual Ellen relata algumas das supostas agressões.

Mesmo diante desses elementos, Herman Gutierres não foi indiciado pela polícia ou denunciado pelo Ministério Público, que em novembro pediu mais 60 dias para apurar o caso.

Os advogados das irmãs também encaminharam à Justiça extratos de contas correntes no nome das duas, as quais o investigado usaria para pagar contas pessoais, como o colégio onde sua filha estudava. "Os extratos bancários anexados demonstram de forma cabal a movimentação irregular das contas bancárias", escreveram os advogados. Segundo eles, houve movimentação de mais de R$ 1,8 milhão nas contas.

Procurado, o Ministério Público de São Paulo informou que o promotor Marcelo Moriscot, do Juizado Especial Criminal e Violência Doméstica Contra Mulher, responsável pelo caso, estava de férias e não poderia atender a um pedido de entrevista. Seu substituto também preferiu não comentar.

A delegada Adriana Sousa Pinto, que atuou no inquérito, preferiu não dar entrevistas.

MMA