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"Ronaldo" do MMA vive dilema ético como manager de Spider e comentarista na TV

Jorge Guimarães, o Joinha, ao lado de Anderson Silva - Reprodução/Facebook
Jorge Guimarães, o Joinha, ao lado de Anderson Silva Imagem: Reprodução/Facebook

José Ricardo Leite e Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

19/04/2013 12h00

Se o fato de Ronaldo comentar jogos de futebol que tenham atletas agenciados por sua empresa de marketing gerou questionamentos quanto à ética, o mesmo não ocorre no mundo do MMA,  em que isso acontece há vários anos de maneira quase despercebida.

O “Ronaldo das artes marciais mistas” é Jorge Guimarães, conhecido como Joinha, uma das mais antigas personalidades envolvidas no esporte. Foi um praticante de jiu-jitsu no fim da década de 70 e mudou para os Estados Unidos junto com representantes da família Gracie. Acompanhou a o surgimento do UFC, em 1993, e passou a atuar como um cartola dos competidores.

É hoje considerado o maior empresário brasileiro e gerencia a carreira de nomes como Anderson Silva, Rodrigo Minotauro, Rogério Minotouro, José Aldo e Lyoto Machida, entre vários outros nomes do país.

Ao mesmo tempo em que passou a se aventurar na condução da carreira de atletas, Joinha ganhou espaço na TV em meados da década de 90 com programas de vale-tudo no Sportv, como o “Passando a guarda”.

E exerce há muito tempo a função de comentarista da emissora e do canal Combate de muitas das transmissões do UFC, várias delas envolvendo atletas agenciados.

A figura de Joinha como comentarista e apresentador é tão marcante que muitos dos novos fãs de MMA não sabem que ele também exerce a função de manager. “Eu também não faço a menor questão de dizer. Mas isso às vezes vem à  tona”, falou ao UOL Esporte.

Joinha admite que a situação é delicada. Mas afirma que se policia para ser imparcial nas transmissões e justifica sua conduta ética com o argumento de que sabe que será questionado pelo fato e pode ser o único prejudicado com uma eventual parcialidade.

“É muito difícil, principalmente quando se tem um lutador do gabarito como o Anderson, por exemplo, que é carro chefe e puxa todo pelotão. Mas eu sou sempre imparcial. Eu me propus a comentar, então a imparcialidade vai ser total. Vou dar minha opinião e tenho que ter sempre cuidado com isso. É uma situação chata, mas já que vou fazer, tem que ser corretamente. É meu nome que está em jogo.”

O empresário conta caso em que já opinou contrariamente a seu lutador durante a transmissão e usa a “saia justa” criada como exemplo de sua imparcialidade durante uma luta.

“Tento ser tão imparcial que existe caso de comentário que fiz que já chateou atleta meu. Uma vez eu comentei luta do Diego Nunes contra o Manny Gamburyan e tentei ser o mais imparcial, como sempre. Eu achei que o Gamburyan levou certa vantagem. E quando eu estava comentando, afirmei que achei que ele tinha sido o vencedor. E deram a vitória pro Diego Nunes. Depois ele veio falar comigo. Sou empresário, mas achei ali na hora que ele tinha perdido.”

Joinha, no entanto, admite que o tema é indelicado e que prefere até não participar de um combate com um de seus clientes para evitar questionamentos. “Eu prefiro não comentar se tem lutador meu. Mas nunca vou ser antiético. Pela minha conduta e o que penso, não iria me perdoar [caso não criticasse um lutador agenciado].”


Perfil do empresário no MMA

Assim como no futebol, os lutadores de MMA têm empresários para gerenciarem suas carreiras. Estão sempre ao lado no momento de entrevistas, pesagens e na assinatura de contratos com organizações ou patrocinadores.
        
As funções podem ser várias. Depende de como cada lutador quer que seja conduzido. Mas não só dele é que saem as decisões. Depende também do empresário. No que ele acha que tem que influenciar na carreira do atleta.

“Quando pegamos um atleta pra gerenciar, eles estão entregando as carreiras nas nossas mãos. É um esporte complexo e que envolve uma série de variáveis. A grande razão de existir um empresário é que sejam considerados os interesses do lutador e não do promoter”, resume Alex Davis, empresário de Rousimar Toquinho, Fábio Maldonado, Edson Barboza, Antônio Pezão e Luiz Banha, entre outros.

“A função do manager é a função de um tutor. É o cara que olha pelo lutador e vê o que é melhor pra ele. Manager é fundamental pra dar apoio moral e trazer patrocinadores.”, resumiu Wallid Ismail, ex-lutador empresários de Erick Silva, Paulo Thiago e dos irmãos Marajó.

Veja abaixo a opinião de alguns dos principais managers dos lutadores brasileiros e como gostam de conduzir a carreira de seus atletas.

JOINHA DIZ QUE MANAGER TEM QUE FORMAR BOM ENTORNO

  • Qual é a função de um bom manager?
    “Tem que ser um cara conhecedor do esporte e respeitado pelos promotores do evento. É essencial na função de manager ter credibilidade junto à organização. E um olhar clínico para formar sua carteira de clientes. Saber também formar um entorno com ótimo advogado, para ler contratos, e uma boa assessoria de imprensa.”
    Gosta de opinar em treinos e lutas?
    “Treinamento deixo totalmente pro treinador e pro lutador. É importante o lutador estar confortável com o treinador. Se ele precisa de um sparing, alguém específico, providencio. Mas só vou atrás se ele quiser. Participo pouco, mas não opino. Ninguém força ninguém a lutar com alguém. Eles entendem perfeitamente [se a luta é boa ou não]. Você não precisa machucar o seu lutador. Vai lá e conversa e eles entendem."

ALEX DAVIS GOSTA DE OPINAR NOS COMBATES

  • Qual é a função de um bom manager?
    “O lutador tem uma inteligência específica. Eram eles que defendiam a gente dos tigres, são pessoas que por terem esse inteligência específica,  não são tão bons pra ler contrato, por exemplo. Têm foco muito curto. Ele não consegue discernir as vantagens e desvantagens, muito pior com contrato americano em uma organização internacional. Eu acabo sendo mais amigo porque me custa caro emocionalmente. Eu sou realista e duro. Nunca minto e escondo o sol com a peneira. Tem muita coisa que os caras não querem falar. Tenho que dizer o que estou pensando. Se não falar, vou furar meu próprio pneu. Tenho que falar.
    Gosta de palpitar no treinamento e escolha de adversário?
    “Tenho uma maior compreensão do que a parte atlética de outros managers. Eu acabo sugerindo. Não me meto muito na parte de treinamento. Isso deixo pros treinadores. Tem uma grande razão pra existir o manager. Se um cara chegar perto do lutador e perguntar se ele quer enfrentar King Kong. Se o cara fala não, aí ele rebate: ´ está com medo?´. O lutador vai falar que não. E vai falar que luta. E nossa razão de existir é que sejam considerados interesses do que é bom para o lutador.”

WALLID DIZ QUE NÃO ESCOLHE LUTA PARA SEU AGENCIADO

  • Como define a principal função?
    “A principal coisa é o lutador ser bom. A principal é o lutador ser bom. Essa é a principal característica, se o lutador for ruim, não adianta. O cara ser bom. Acho que tem manager que fala que faz e acontece e eu morro de rir. O manager é fundamental pra dar apoio moral e trazer patrocinadores. O atleta não pode ser fabricado e ter luta fraca pra se chegar no UFC.
    Palpita em lutas e treinos?
    “Não procuro interferir no lado de treinamento. Eu dou opção e indico os melhores treinadores. Procuro manter ele sempre com o treinador que quer. Eu não me meto muito na parte do treino. O principal erro na função é o manager que escolhe luta. Esses caras que gostam de escolher moleza...não pode. Eu só dou dicas, mais nada. A palavra final é sempre dos lutadores”

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