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No UFC desde sua 2º edição, Big John é um dos nomes mais respeitados da arbitragem

No UFC desde sua 2º edição, Big John é um dos nomes mais respeitados da arbitragem

05/09/2011 - 07h00

Lenda do MMA, árbitro lembra bizarrices no octógono e luta polêmica com Aldo

Maurício Dehò
Em São Paulo

John McCarthy, mais conhecido simplesmente como Big John, é uma lenda do MMA, mesmo sem nunca ter precisado aplicar um soco no octógono. Isso porque ele é o árbitro mais famoso da modalidade, acompanhando-a desde seus primórdios, na fundação do UFC, em 1993. O ex-policial teve papel ativo na evolução do vale-tudo para as artes marciais mistas e, além de ver de perto algumas das maiores lutas da história, já pôde presenciar também bizarrices inacreditáveis.

“Muita coisa acontece dentro da jaula. Entre alguns casos já teve quem arrotasse na cara do adversário e até soltasse um pum no ringue”, relembrou o criador do bordão “Let’s Get It On”, em entrevista ao UOL Esporte, citando também momentos mais polêmicos, como a luta de estreia do brasileiro José Aldo no UFC.

Na ocasião, o rival Mark Hominick ficou com um enorme inchaço na testa e, mesmo com o público impressionado, o árbitro não interrompeu o combate. Isso só foi permitido pelas medidas que o próprio árbitro tomou anos antes, no desenvolvimento das regras da modalidade.

Big John chegou a ameaçar o fundador do UFC Rorion Gracie de deixar o evento e, com isso, gerou um precedente importante para elevar o MMA. “No UFC 3, ele me deu o poder de parar a luta quando um lutador não tivesse capacidade de se defender. Isso levou o esporte a um nível maior de segurança e permitiu chegar onde estamos hoje”, disse. Confira abaixo a entrevista:

Sangue, suor e... 'porrada'
Sangue, suor e... 'porrada'

UOL Esporte: John, antes de se tornar árbitro, quais são suas primeiras recordações do mundo das lutas?
Big John: As minhas primeiras memórias quando se fala em lutas me levam ao boxe. Meu pai me levava ao Olympic Auditorium (Los Angeles) e nós assistíamos a gente como Sugar Ray Ramos e Danny Lopez. Foi com essa imagem do que era luta que eu cresci, até conhecer Rorion Gracie. Eu fiz wrestling, mas com ele é que realmente conheci um estilo livre, de luta de rua, que é o que iria fundar o MMA. Eu o conheci na polícia de Los Angeles, quando ele participou de um comitê que ajudava a instruir a academia em que eu trabalhava. Nós nos demos bem e comecei a fazer jiu-jítsu com ele, apesar de nunca ter virado lutador.

"Let's get it on!": Big John ficou famoso pelo bordão usado para iniciar as lutas

  • McCarthy pode ser considerado um astro e já fez até ponta no seriado "Friends". Um dos motivos do estrelato é seu bordão. Antes dos combates, ele olha para cada lutar e pergunta, "você está pronto?". Então, gesticula com a mão e dá seu grito característico permitindo o início: "Let's get it on!" (algo como, "vamos começar isso").

    "Um dos donos do evento veio me explicar na minha estreia, no UFC 2, que queria que eu começasse os combates com um gesto de mão e uma frase", conta ele. Eu disse 'sem problemas, se é o que vocês querem, eu faço'. Eu não tinha ideia, só sabia que haveria um cara de um lado da jaula e o outro do outro, e que eles iam se socar à beça. Então sugeri perguntar se eles estavam prontos e dizer 'let's get it on'. Era o que eles queriam e que acabou se tornando conhecido."

    Apesar da fama, ele admite que os pedidos dos fãs são um pouco insistentes demais para que ele reproduza o bordão. "As pessoassempre vêm me pedir para repetir, mas eu sempre falo: 'Mesmo?'. Falar por falar faz com que eu me sinta bobo, então eu deixo para lá. Mas, se as pessoas gostam e ligam isso ao mundo do MMA, fico feliz."

Como foi sua entrada no UFC? A princípio, Rorion preferiu não colocar você, que entrou só na segunda edição.
No primeiro UFC, Rorion trouxe dois caras do Brasil e depois do que aconteceu logo na primeira luta (Gerard Gordeau x Teila Tuli) surgiu o convite para eu me tornar árbitro. Naquele combate, o árbitro não tinha poder de parar uma luta, o corner podia jogar a toalha ou o lutador bater. Mas, quando Gerard chutou o rosto do rival, o árbitro interrompeu. Não era para acontecer e, após esta primeira edição, Rorion viu que eu seguiria o que ele queria e me chamou.

A falta de regras dificultava o trabalho ou o tornava mais fácil?
Não havia muitas regras que o árbitro tinha de prestar atenção. Eram duas: sem dedadas no olho e sem mordidas (risos). O engraçado é que as primeiras lutas foram fáceis para mim. Pensei 'isso vai ser fácil'. Mas aí começaram alguns problemas. Em muitas ocasiões os caras do corner eram estúpidos e não jogavam a toalha, mesmo eu pedindo. Então, fui até o Rorion e expliquei: "Não vou fazer isso de novo. Alguém vai sair daqui seriamente machucado, porque muitos não sabem se defender como seu irmão (Royce) e eu não posso parar a luta". Então, no UFC 3 houve esta mudança e isso levou o esporte a um nível maior de segurança.

Seu histórico como policial e o seu tamanho (1,94 m) contribuíram no seu trabalho?
Acho que em alguns pontos meu histórico na polícia me ajudou. Principalmente em ser imparcial. Algo que aprendi é, qualquer que seja a situação, você faz seu trabalho, trabalha com as regras e pronto. Isso facilita na hora de tomar decisões e de não hesitar. Quanto ao tamanho, com lutadores mais pesados ajudou, porque você tem a capacidade de intervir. Mas há os dois lados. Já houve quem não me quisesse arbitrando, dizendo: "eu não quero que os meus lutadores pareçam pequenos" (risos). Mas não importa o tamanho do árbitro, e sim como ele faz seu trabalho. É a mente.

Uma das lutas mais interessantes em que você trabalhou e que tem relação com os brasileiros foi no UFC 129, em abril, na disputa de título de José Aldo contra Mark Hominick, em que o canadense ficou com um grande inchaço na testa. Como foi aquela situação?
Tive sorte de ser colocado para arbitrar a luta entre José Aldo e Mark Hominick, em Toronto. Foi uma luta que queria muito fazer, prometia ser um grande duelo e foi o que aconteceu. Deixe-me explicar: uma coisa que faço é conversar muito com os médicos que ficam ao lado do ringue. E houve uma luta famosa entre Hasim Rahman e Evander Holyfield em que isso aconteceu. Rahman teve um grande hematoma, como o de Hominick, e a luta foi parada. Então, perguntei para um médico sobre isso. Ele me explicou que aquilo não é um grande problema.

JOHN ELEGE ANDERSON Nº1 E CORNETA CHAEL SONNEN

Não tenho favoritos, mas adoro Anderson Silva. Ele tem inteligência e garra para vencer. Chael Sonnen falou muito após a derrota, mas eu só pude rir. Anderson aguentou por cinco rounds tudo o que Chael podia fazer, mas Chael não suportou os 15 segundos em que Anderson o dominou. Questionar sua garra me deixa louco. Como Dana diz, ele deve ser o melhor da história.

Mas como foi analisar a situação no calor do momento?
Quando aconteceu na luta entre Aldo e Hominick, eu não me preocupei seriamente. Eu sabia o que estava acontecendo, porque estava acontecendo e o que eu tinha de fazer. Alguma veia ou artéria se rompeu e o sangue provocou aquele inchaço. É claro que fizemos tudo para garantir a integridade do lutador e trouxemos o médico para examinar se havia algo mais.

Hominick estava lutando em casa, pelo cinturão. Isso não afetou sua decisão?
O ferimento é que define se a luta segue ou não. Se um lutador está em casa, isso é ótimo para ele, mas eu não tenho essa preocupação. Meu trabalho é dar segurança aos lutadores. Em um certo momento o público só conseguia olhar para aquela grande bola em sua cabeça. Mas não é uma lesão tão grave. Se fosse dentro do crânio, teríamos um grande problema, e aí interromperíamos, mas não era o caso.

Você chegou a se aposentar, mas retornou ao papel de árbitro. Apesar de não ter trabalhado no UFC Rio, você gostaria de vir ao Brasil em uma próxima oportunidade?
Eu estou de volta desde o fim de 2008, trabalhando quase todo fim de semana. Mas eu não trabalho para o UFC, e sim para as Comissões Atléticas, que definem para onde vou [N.R.: no caso do Brasil, foi o próprio UFC quem escolheu os árbitros, pela falta de uma comissão atlética no modelo dos EUA]. Eu adoraria voltar ao Brasil depois de ter participado da primeira edição, em 1998. Se não me escolheram desta vez ou não, foi uma opção deles que acontece normalmente. Mas se eu fosse escolhido ficaria satisfeito. Eu adoraria estar no próximo evento no Brasil.

  • Com a experiência de arbitrar lutas como Royce Gracie x Dan Severn, Vitor Belfort x Wanderlei Silva e Chuck Liddell x Randy Couture, Big John tem muito a contar. Por isso, ele lançou no último dia 1 um livro sobre sua carreira, nomeado como seu bordão: "Let's get it on."

Qual foi a luta que você considera mais complicada para você arbitrar em sua carreira?
Já estive em centenas de lutas, mas nunca tive enormes dificuldades. Há sempre caras que tentam burlar as regras e outros que seguem tudo à linha. É uma questão de você controlar. Eu sempre tive mais trabalho com os lutadores de menor expressão, que muitas vezes cometem erros bobos e não lutam de forma inteligente, quebrando as regras mesmo sem ter a intenção de fazer isso.

Você já passou por situações cômicas enquanto estava fazendo seu trabalho?
Muitas. Muita coisa acontece quando os lutadores estão dentro do octógono e algumas vezes é quando eles estão ocupados um com o outro, ou no chão. Às vezes eles chegam a conversar, dizem coisas engraçadas. Entre alguns casos já teve quem arrotasse na cara do adversário ou soltasse um pum no ringue. O rival riu: 'pô, cara! Você tinha que fazer isso?'. (risos) Esse tipo de coisa acontece o tempo todo, faz parte do mundo das lutas.

Mas nunca pagou um mico na hora de entrar no octógono, ou durante a movimentação na luta?
Não, não. Pelo menos eu realmente nunca caí no ringue (risos). Já vi todos os outros pagarem esse mico, mas eu me safei. Pelo menos até hoje.

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