! Estádio do Inter que serviu à Copa, agoniza - 15/06/2006 - Pelé.Net - Revista
UOL EsporteUOL Esporte
UOL BUSCA


  15/06/2006 - 14h21
Estádio do Inter que serviu à Copa, agoniza

Nico Noronha, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - O estádio dos Eucaliptos, pertencente ao Sport Club Internacional, único local do Rio Grande do Sul que teve o privilégio de ser palco de jogos da Copa do Mundo, é um monumento praticamente abandonado no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Distante cerca de 500 metros do imponente Beira-Rio, ele parece ser um avô desse, carcomido pelo tempo, feio, próximo da morte.

Ao longo dos tempos, os dirigentes que se sucederam no comando do clube após a desativação do Eucaliptos não souberam o que fazer com o patrimônio, localizado em zona nobre da capital gaúcha. Foram períodos de abandono total, uma ou outra tentativa de alugar o espaço, todas sem sucesso. Virou pista de kart numa determinada época, uruguaios alugaram as dependências para instalar um restaurante especializado em "parrilladas", e por vezes foi alugado para a realização de festivais de boxe e taekwondo.

Hoje o que resta é a esperança de que algum investidor resolva apostar no local, demolir a história e construir, quem sabe, mais um shopping center ou outro arranha-céu, como tantos que a região vê surgir na região.

O atual presidente colorado, Fernando Carvalho, já declarou à imprensa gaúcha que "seria um bom negócio para o clube, fazer uma permuta por alguém que nos possibilitasse construir num outro local um Centro de Treinamentos". Mas as propostas que chegaram à mesa da vice-presidência de patrimônio do Inter estiveram longe de sensibilizar a diretoria e gerar a troca.

E por enquanto o enorme espaço, localizado entre as ruas Silveiro, Dona Augusta, Barão do Cerro Largo e Barão do Guaíba, mantém-se vivo, mas praticamente improdutivo. Uma empresa subdividiu o gramado - tamanho oficial Fifa - em campos menores, para futebol sete, e fora isso apenas uma lavagem de carros funciona sob as arquibancadas onde no ano de 1950 a nata da sociedade porto-alegrense assistiu os jogos entre a Iugoslávia e o México, num dia 28 de junho; e Suíça e México, em 2 de julho.

A informação que vem do Beira-Rio é que, apesar desses aluguéis, o prejuízo mensal para a manutenção do velho estádio é de R$ 30 mil. Além disso o clube sofreu pressão e discutiu muito em meio ao seu Conselho Deliberativo, propostas da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, que desejava assumir todo o espaço hoje ocupado pelo Eucaliptos, cedendo em troca, definitivamente para o clube, uma área localizada entre o seu atual estádio e o Rio Guaíba, onde o Inter teria construído irregularmente o seu "Parque Gigante". Trata-se de um belo complexo, com piscinas, churrasqueiras, salão de festas e uma vista esplendorosa.

Mas o Inter bateu pé e não aceitou aquele "toma lá, dá cá" proposto pelo município, considerando-o desvantajoso. Em compensação, os dirigentes da cidade, com embasamento legal, chegaram a promover retaliações. Há cerca de três anos, o clube teria tentado sublocar um espaço no seu enorme parque para uma empresa que desejava construir um heliponto. A Prefeitura negou.

Mas nesta quarta-feira, entrevistada pelo Pelé.Net, Catarina Gomes, chefe de gabinete da Procuradoria de Porto Alegre revelou que a área acabou toda regularizada em nome do Inter, "ainda na gestão anterior", e que no momento "não há nenhum processo em andamento", visando qualquer permuta entre alguma área do município e a que está ocupada pelo velho campo de jogo dos colorados.

Estádio funcionou por exatos 38 anos
Após começar suas atividades em um terreno baldio na Rua Arlindo, em 1909, ano de sua fundação, o recém fundado Internacional ocupou o Campo da Várzea em 1910, em conjunto com o Colégio Militar. Mas divergências com os alunos determinaram a saída dos colorados, que passaram a alugar, em 1912, a Chácara dos Eucaliptos.

Foi o primeiro local de jogos exclusivos do Sport Club Internacional. Era um campo que tinha uma cerca de tábuas, e o acesso se deva por um portão de madeira firmado em colunas de alvenaria, parapeitos, vestiários com cobertura de zinco e chuveiros, e arquibancadas de madeira, construídas nas próprias árvores de eucaliptos, que firmavam a sua estrutura. Mas em 1928 o dono da chácara decidiu vender o terreno por 40 mil contos de réis e o clube, apesar da preferência que lhe foi dada, sem dinheiro não o comprou e teve de buscar outra morada.

No ano seguinte o engenheiro Ildo Meneghetti, eleito presidente, encontrou uma área disponível na Rua Silveiro, na época um local distante do centro, praticamente no limite sul da cidade de Porto Alegre e tratou, através da venda de ações, de reunir dinheiro suficiente para que o clube adquirisse o seu primeiro patrimônio.

E foi assim que, em março de 1931, com um Gre-Nal vencido pelos vermelhos por 3x0, três gols de Javel, que o estádio dos Eucaliptos foi inaugurado. Inicialmente com capacidade para 10 mil torcedores, mas devido à escolha para ser um dos locais onde seriam disputados jogos da Copa do Mundo de 1950, ganhou uma arquibancada de cimento, financiada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), e passou a comportar 15 mil assistentes.

A última partida disputada nos Eucaliptos ocorreu em março de 1969. O Inter enfrentou o time mais antigo do futebol brasileiro, o Rio Grande e venceu por 4x1. Tesourinha, um dos maiores ídolos da história do clube, craque do "Rolo Compressor", time inesquecível dos anos 40 e início dos 50, voltou a calçar as chuteiras naquela partida e atuou durante alguns poucos minutos.

Ao final, os colorados invadiram o campo de jogo, arrancaram as redes e até alguns pedaços do gramado, como lembrança. No mês seguinte seria inaugurado o Beira-Rio, uma nova fase tinha início para o clube e sua numerosa torcida. O Eucaliptos, por sua vez, foi sendo a cada dia mais abandonado, até chegar aos tristes dias de hoje. Um esqueleto de concreto, sem pintura, sem cuidados, à espera da demolição.

Os dois jogos de Copa do Mundo
No dia 28 de junho de 1950, Iugoslávia e México adentraram ao gramado do Eucaliptos, com sua imponente e novíssima arquibancada de cimento, estreando na Copa do Mundo. As duas seleções integravam o grupo 1, o mesmo do Brasil e da Suíça.

O estádio estava lotado, 15 mil pessoas, e viu a equipe iugoslava atropelar o México por 4x1, sendo que no primeiro tempo a vantagem já era de 2x0. Cajkovski fez dois gols, Bobek outro e Tomasevic o último. Para o México, descontou Casarin.

No dia 2 de julho foi a vez da Suíça bater o time mexicano. Diante de um público bem menor, 6 mil torcedores, fez 2x1, com gols de Bader e Fatton, descontando Velásquez.

O orgulho de ter sido sede de jogos de um Mundial de Futebol se mantém ate hoje e o clube já projeta momentos parecidos para o futuro. Um dos mais antigos funcionários do clube, Carlos Duran, 70 anos, 55 deles trabalhando pelo Inter, revela seu sonho: "Na próxima Copa do Mundo a ser realizada no Brasil, certamente o Beira-Rio será uma das sedes. Assim, teremos um Mundial em cada estádio, uma no antigo, outra no novo".


ÚLTIMAS NOTÍCIAS
03/09/2007
Mais Notícias