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EXCLUSIVO: Gabriel Menino fala sobre temporada, futuro e pressão de ser um dos melhores do Palmeiras

10/04/2021 20h00


Ele é capaz de driblar um zagueiro, usar seu pé não dominante para desbancar o Grêmio em uma final de Copa do Brasil, como fosse molecagem. Ele é capaz de dominar de letra, com cara de nojo, provocação nos olhos e ousadia nos pés, contra o River Plate, em uma semifinal de Libertadores. Como também é capaz de gastar horas em frente ao videogame para tirar sarro dos amigos com o FIFA na televisão. Gabriel ainda é menino, mas o Menino é selecionável, titular do campeão do país e da América. Ele mal começou, mas já tem quase tudo. Inclusive humildade para contar sobre sua vida neste especial do Nosso Palestra/Lance!

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A decisão que mudou o status de um clube

Quando determinou que usaria os talentos de sua base para a temporada de 2020, nem o mais otimista torcedor acreditava que o Palmeiras poderia viver, num curto prazo, uma das maiores mudanças de filosofia na sua centenária história. Nomes como Patrick de Paula, Gabriel Menino, Veron, Wesley deixavam de ser apenas sonhos para rapidamente se transformarem não só em realidade, como também motor de um elenco extremamente vitorioso, que conquistaria a Tríplice Coroa após 27 anos.

Captado pelo clube através da rede de scout do Centro de Excelência, o polivalente Gabriel Menino chamou atenção no Guarani, foi destaque nas categorias de base e, quando promovido, ganhou a admiração da torcida e dos treinadores Vanderlei Luxemburgo, Andrey Lopes e Abel Ferreira. Com estilo de jogo único, segue a cartilha das categorias de base do Palmeiras. Fazendo de tudo, e tudo muito bem, se destacou nas mais diversas posições, se tornou o coringa da equipe e, sem medo de arriscar uma jogada mais complicada, o camisa 25 ganhou espaço e desbancou diversos medalhões ao longo de 2020.

Gabriel Menino e Thierry Henry na Flórida Cup 2020 (Foto: César Greco)

Quem é o Menino?

Nascido em Morungaba, cidade próxima de Campinas e 100km distante de São Paulo, Gabriel chegou ao Palmeiras para integrar o time sub-17, em 2017. O caminho, porém, poderia ser completamente diferente. Por seu destaque, o clube campineiro pediu valores acima dos padrões para liberá-lo. O negócio se arrastou e abriu espaço para concorrentes tentarem atravessar o papo. Por questão de dias, o jovem não vestiu as cores do Corinthians.

No Bugre desde os 13 anos, Menino demostrou muito cedo toda a polivalência do jogador que conhecemos hoje. Seus primeiros passos de atleta foram como zagueiro, mas a ideia do técnico Gustavo Nabinger de deixar o jovem mais adiantado mudou pra sempre a vida do então defensor. Testado como volante e também como meia, o treinador pensou em até mesmo utiliza-lo na ponta, porém, devido às lacunas no elenco, foi na lateral direita onde foi efetivado no sub-15.

Sonho de ser Palmeiras

Em evidência por ter grande facilidade em driblar, chutar de fora da área e enxergar o jogo, a joia foi levada para testes na Academia de Futebol, em São Paulo, e não decepcionou. Apesar de admitir ter relutado em aceitar a proposta pois acreditava que seria difícil conseguir espaço, abraçou a oferta e embarcou para um grande sonho de vestir a camisa alviverde.

- Eles me viram jogar e falaram com o pessoal do Guarani. Em um primeiro momento, achei que era melhor esperar, pois sabia que seria difícil jogar e queria pegar mais rodagem. Mas depois acertamos tudo e foi a realização de um grande sonho poder vestir essa camisa. - comentou sobre a negociação.

Em seu primeiro ano de clube, foi integrado na categoria sub-17, e foi peça chave na conquista do inédito título da Copa do Brasil, no Pacaembu, diante do Corinthians. Já como meio-campista, começou a se destacar por realizar a escassa função de box-to-box, ir de área à área, nas competições de base, sendo o atleta que percorre todo o campo, seja marcando na zona defensiva, como também pisando na área para finalizar uma jogada.

Gabriel Menino no Paulistão 2020 (Foto: César Greco)

Berço amarelinho

Pelo sub-20, decolou de vez com Wesley Carvalho e recebeu várias convocações para a Seleção Brasileira da categoria - chegou a disputar o Sul-Americano de 2019. Em seu momento mais vitorioso dentro das categorias de base do Palmeiras, levantou o Campeonato Brasileiro Sub-20, em 2018, e o bicampeonato Paulista seguido (2018 e 2019), além de conquistas de menor expressão.

- Com certeza ajuda. Não é algo essencial, pois o importante é a formação. Mas poder disputar títulos, ganhar, perder, faz com que o garoto ganhe uma maturidade e isso é refletido no profissional. - comentou quando perguntado da importância das finais nas categorias de base.

Ascensão ao mundo adulto

Um dos primeiros nomes das categorias de base observado para integrar o elenco profissional, Menino passou a ser alvo desde a chegada de Mano Menezes, em 2019. Já planejando mudar a filosofia de contratações, o meia foi citado pelo treinador em sua apresentação. Na ocasião, o ex-comandante disse que estava acompanhando de perto sua evolução, juntamente com Lucas Esteves e Ivan Ângulo.

Com pouco tempo de casa e sem deixar saudades, Mano Menezes deixou o Palmeiras antes de realizar a estreia planejada, no entanto, os olhares já eram voltados ao jovem. Com a contratação de Vanderlei Luxemburgo, especialista em utilização de garotos, a diretoria apostava todas as fichas nas categorias de base para a temporada 2020 e integrou Gabriel e mais sete atletas para trabalhar com o grupo.

Os meninos do Verdão (Foto: Cesar Greco)

Evoluiu, ritmo agressivo

Vestindo a camisa 48, e com G. Menino estampado nas costas, pisou no gramado como profissional do Palmeiras no dia 15 de janeiro, substituindo o capitão do decacampeonato brasileiro, Bruno Henrique. Empatando no tempo normal por 0 a 0 e vencendo o Atlético Nacional, da Colômbia, nos pênaltis, em partida válida pela Florida Cup, o garoto já demostrava personalidade dentro das quatro linhas. De funk nos ouvidos e sorriso nos pés, mostrou que o futuro seria diamante.

O Palmeiras demorou poucos meses para renovar e intensificar o protecionismo com sua estrela: Com nove partidas pelo profissional, o jovem teve seu vinculo estendido no dia 16 de março de 2020, o primeiro dos mais de 130 dias sem jogos que o Palmeiras enfrentaria em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

Jovem de valor

Antes válido até setembro de 2023, o acordo foi prorrogado até dezembro de 2024, com multa rescisória milionária, de 60 milhões de euros, R$ 405 milhões na cotação atual. Já em agosto, no retorno do futebol no Brasil, a diretoria se antecipou e comprou mais 10% dos direitos econômicos do atleta com o Guarani, totalizando 80%.

Campeão Paulista sob tutela de Vanderlei Luxemburgo, Gabriel vivenciou de dentro do campo as mudanças proporcionadas por uma temporada atípica. Após conquistar a vaga entre os titulares e bater o maior rival na decisão, a equipe do experiente treinador embalou uma sequência invicta no Campeonato Brasileiro e posteriormente uma queda brusca de desempenho, que culminou na demissão do comandante.

Imune à crise

Apesar da instabilidade, o já consolidado meio-campista era um dos únicos que se safavam das críticas, e foi peça fundamental para a virada de mesa com Andrey Lopes, o Cebola, que dirigiu interinamente a equipe por aproximadamente um mês. Titular nos cinco jogos com o auxiliar, atuou na lateral durante o período em que o interino ficou à beira do campo, dando estabilidade defensiva e garantindo o equilíbrio necessário no esquema do jovem treinador. Nesse período, foram quatro vitórias e duas assistências na conta de Menino.

- O ano de 2020 foi muito atípico para todos, então seria natural não conseguir uma regularidade. Não vejo essa queda brusca, pois se isso acontecesse não seria possível brigarmos por todos os títulos e ganhar a maioria deles. Mas, dentro das dificuldades, conseguimos manter um equilíbrio e os resultados vieram. - disse Gabriel sobre a irregularidade em um ano anormal.

Meninobilidade portuguesa

Já convocado por Tite para ser o lateral-direito da Seleção Brasileira, o camisa 25 ganhou um protagonismo ainda maior com a chegada de Abel Ferreira, em novembro de 2020. Conhecido por ser um treinador muito estrategista, o português passou a explorar novamente a principal característica do jogador: a polivalência e a versatilidade.

Gabriel Menino foi convocado duas vezes para a Seleção Brasileira (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Com a comissão técnica portuguesa, Menino passou a fazer tudo e mais um pouco. Sempre se adaptando ao adversário, foi efetivado no meio, no entanto, não foi impedido de realizar diversas funções ao longo das partidas. Lateral, ala, volante, armador e até a meia direita foram palcos para a promessa desfilar sua habilidade. Em um dos quatro gols feitos na temporada de 2020, diante do Delfin, se aventurou como ponta-direita e arrematou sem chances para o goleiro Banguera.

-Ele sempre me deu liberdade e disse que iria me aproveitar da maneira que melhor achasse para cada partida. Essa confiança foi importante e pude ficar muito à vontade com ele e com sua comissão técnica. [...] Gosto de atuar em todas as posições e fico à disposição para o que o Abel achar melhor. Meio-campo é minha posição de origem, onde já atuei mais vezes, mas posso jogar e fico bem à vontade também como lateral quando ele achar válido.

Noites de gala e garra

Em uma dessas estratégias, Gabriel Menino viveu sua melhor noite como profissional. Escalado para compor o meio campo com Danilo e Patrick de Paula, o trio apelidado de ''três porquinhos'' foi diretamente responsável pela goleada por 3 a 0 diante do River Plate, na Argentina, válida pela semifinal da Libertadores.

Apesar de escalado na meia cancha, Menino foi uma espécie de ''faz tudo'' em Avellaneda. Em inúmeras oportunidades, fechava pela lateral-direita uma linha de cinco defensores, empurrando Marcos Rocha para a zaga. Ousado quando se soltava no ataque, foi responsável diretamente pela expulsão do meia Jorge Carrascal, depois de dominar com categoria um lançamento e sofre um pontapé do rival.

Mais do que a estratégia tática coletiva e individual, as partidas das semifinais da Copa Libertadores renderam as mais diversas sensações a torcida do Palmeiras. Já vivendo um clima de expectativa para a conquista da tão sonhada Glória Eterna, o clube sofreu após a goleada imposta na Argentina e com sufoco conseguiu a classificação para a final, depois de ser derrotado por 2 a 0 no Allianz Parque.

- Em jogos assim não existe favoritismo, ainda mais com estádio sem torcida. Acho que conseguimos fazer um grande jogo fora de casa e em casa não fomos bem. Mas na somatória fomos melhores e mata-mata é assim, você precisa sair com a vantagem na disputa de dois resultados. - Analisou o jogador ao relembrar os decisivos encontros contra o River Plate.

Sucesso nacional

Cativante dentro de campo, o Palmeiras de Abel Ferreira colecionou momentos ao longo da temporada e emendou uma série de partidas importantes na reta final da temporada. Vencendo o América Mineiro, no dia 30 de dezembro, o elenco viveu, durante janeiro, as duras partidas diante do River Plate, o Dérbi e goleada sob o Corinthians, no Allianz Parque, e também a final da Libertadores.

Titular no meio-campo para enfrentar o Santos no Maracanã, Menino pouco pôde fazer no amarrado jogo enquanto esteve em campo. Porém, sua substituição foi uma das maiores na história do Palmeiras. Sacado aos 84 minutos de jogo, deu lugar a Breno Lopes, que 14 minutos mais tarde faria o gol do título, já nos momentos finais do jogo.

Para finalizar a vitoriosa e cansativa temporada, o time ainda disputou as finais da Copa do Brasil, diante do Grêmio. Reserva nos dois duelos, entrou em campo em ambas as partidas e foi o autor do gol que garantiu o título ao Verdão no Allianz Parque, na vitória por 2 a 0.

- Temos que estar preparados para esses momentos. Todo jogador quer estar nessas decisões e é o momento máximo do futebol. O peso é totalmente positivo, ainda mais quando a maior parte dos objetivos são atingidos. - Analisou o jogador sobre o peso emocional de disputar muitas decisões.

Menino com a taça da Libertadores no Maracanã (Foto: Cesar Greco)

Maturidade e consequência

Com maturidade de sobra e personalidade única, o jovem agradou não apenas aos torcedores do Palmeiras, mas também o treinador da Seleção Brasileira, Tite. Estando presente em duas convocatórias, a estreia oficial ainda não ocorreu, porém, o comandante não escondeu a satisfação com o jovem, comparando-o com Daniel Alves e projetando que existe um grande talento surgindo no futebol brasileiro.

Finalizando o papo com o Nosso Palestra/Lance!, Gabriel Menino projetou o futuro dele com a camisa amarinha e afirmou que as convocações são reflexo daquilo que é apresentado dentro de campo.

- Tenho pensado muito dia a dia e passo a passo. Tudo tem acontecido muito rápido na minha vida, então tenho procurado aproveitar cada momento, me dedicando ao máximo para evoluir e conquistar coisas importantes. A Seleção Brasileira vai ser reflexo do que fizer no Palmeiras, então tenho que trabalhar duro no dia a dia para, quando tiver uma convocação, poder voltar a ser chamado. - Refletiu sobre as convocações e possibilidade de ir para a Copa do Mundo no Catar, em 2022.

Gabriel Menino em seu primeiro treinamento com a Seleção principal do Brasil (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Em busca de mais

Recuperado de lesão após sofrer com uma torção no tornozelo esquerdo, Gabriel Menino embarca para Brasília visando entrar na história do Palmeiras. Isso porque, caso fature a Supercopa do Brasil, diante do Flamengo, e a Recopa Sul-Americana, contra o argentino Defensa y Justicia, o Palmeiras novamente conquistará as Cinco Coroas, feito realizado entre os anos de 1950 e 1951.

Na ocasião, foram conquistadas a Taça Cidade de São Paulo e o Campeonato Paulista em 1950, além do Torneio Rio-São Paulo, Taça Cidade de São Paulo e a Taça Rio de 1951. Em caso de vitórias na capital federal, as duas taças, somadas ao Campeonato Paulista, Libertadores e Copa do Brasil de 2020 irão repetir o feito de 60 anos atrás.

Do Funk, do sonho, do Palmeiras

Gabriel Menino é a pura molecagem, mas a consciente. A que chega ao vestiário de um final com 'juliet' no rosto, uma caixa de som maior que ele, um funk da moda, coreografias na ponta dos pés e que vai ao campo e decide a parada. Que tira onda com o sucesso entre as garotas, mas que entende que sua glória é no gramado. Que se entende como estrela, mas sabe que o brilho deriva do trabalho. Gabriel é mais adulto do que a idade prevê, que a imagem sugere e que os olhos alheios enxergam. Ele não liga pro entorno.

Nasceu pra vencer. Sempre sendo um menino.

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