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Emoção na voz delas! Narradoras são destaques na TV e ocupam cada vez mais espaço na telinha

08/03/2021 14h00


No jornalismo esportivo a função de narrador sempre foi majoritariamente exercida por homens, desde o início das transmissões por rádio, até o surgimento da TV. As coisas nas telinhas começaram a mudar em 1997, quando Luciana Mariano, atualmente nos canais Disney, teve a primeira oportunidade na função, após passar em um concurso da Band.

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Luciana é uma das entrevistadas do LANCE! nesse especial do FORA DE CAMPO para o Dia Internacional da Mulher, ao lado da também narradora da Disney, Natália Lara, que participou do concurso 'Narra quem Sabe', do 'Fox Sports', em 2018, assim como Isabelly Morais, narradora da 'Band'. Convidamos a quarta representante dessa lista seleta, Renata Silveira, do Esporte da 'Globo', por meio da assessoria do canal, mas não tivemos retorno da emissora até o fechamento deste conteúdo.

Natália Lara foi contratada para ser narradora dos canais Disney na última semana e já estreou no sábado fazendo uma dobradinha com Luciana Mariano, que narrou pela primeira vez em 1997 e voltou às funções na 'ESPN' em 2018, após 21 anos afastada. Ela afirma que deixou de 'receber oportunidades' por causa do preconceito. Natália e Luciana são representantes do Grupo Disney.

Na Band, a mineira Isabelly Morais comanda principalmente jogos dos torneios de futebol feminino como as sérias A1 e A2 do Brasileirão. Ela começou como narradora na Rádio Inconfidência, de Minas, e narrou a Copa do Mundo de 2018 no 'Fox Sports'. Na Globo, Renata Silveira, que participou dos concursos "Garota da Voz" da 'Rádio Globo', e 'Narra quem Sabe', do 'Fox Sports' é a aposta da emissora. A profissional estreia nesta quarta-feira, em jogo da Copa do Brasil, com transmissão do 'SporTV'.

O LANCE! conversou com as representantes dos canais 'Fox Sports' e 'ESPN', que pertencem ao Grupo Disney, e da 'Band'. No bate-papo, as narradoras falaram sobre os sonhos profissionais e a realização do espaço ocupado na TV. Também comentaram sobre o preconceito e o machismo que ainda existe por elas serem narradoras. Por último, mandaram um recado para mulheres que assim como elas buscam ocupar esse espaço.

LANCE! - Sempre sonhou em ser narradora? Teve alguma referência? Como é ter esse espaço na TV?

Luciana Mariano - Nunca pensei em ser narradora e não tive nenhuma referência porque antes de mim nenhuma mulher tinha narrado na televisão. Então nunca tinha ouvido e nem visto uma mulher narrando futebol na televisão. Então passei a gostar da ideia a partir do momento que soube que era possível, porque antes eu nem sabia que existia essa possibilidade. Eu comecei a narrar em 1997 e fiquei 21 anos sem nenhuma oportunidade de narrar, quando eu voltei (em 2018), era como se eu tivesse começasse do zero. Naquela época diziam: 'Ah, deu errado, mulher não vai dar certo nunca para narrar futebol. Então essa oportunidade que os canais do grupo Disney me deram é a confirmação de que eu não estava errada, aquela época mesmo sem entender que o que eu buscava era a igualdade e inclusão... Eu não sabia que tinha esses nomes, mas eu sabia que eu queria poder fazer aquilo e não permitiam que eu fizesse. Eu só não entendia que não tinham permitido que eu fizesse por eu ser mulher. Hoje eu sei disso, então é uma oportunidade maravilhosa de uma companhia que compartilha dos mesmo princípios que eu e acho que por isso que funciona.

Natália Lara - Ser narradora foi algo que eu nunca tinha planejado. Sempre gostei muito de esportes, e, quando criança, um dos meus sonhos era ser jogadora de futebol. Tinha muita curiosidade de como os narradores sabiam identificar todos os jogadores, e isso sempre me fascinou. Mas como só via homens na função, inconscientemente nunca pensei em fazer o mesmo.
Como sempre gostei de falar, de comunicar e me expressar, descobri que meu caminho estava na locução. E a locução me levou até a narração esportiva. E uma vez que comecei, revisitei aqueles sonhos e paixões, e decidi que era isso que queria fazer pra vida. Minhas referências sempre foram masculinas. O primeiro deles foi Galvão Bueno, porque cresci o assistindo narrar. Além dele, na TV: Everaldo Marques, Rogério Vaughan e Gustavo Villani. No rádio: Eder Luiz e Osmar Santos. Me lembro vividamente a primeira vez que pisei nos prédios da ESPN e no Fox Sports, pra uma gravação de podcast e pro Narra Quem Sabe respectivamente. O quanto eu sonhava e me imaginava fazendo parte da equipe. E chegar aqui hoje na posição de narradora dos canais, é algo que eu sempre tive muita fé de que iria acontecer. Esse espaço representa, não somente uma conquista minha individual gigantesca e uma realização, como também uma conquista coletiva das mulheres. Nós estamos abrindo as portas, nos fazendo presentes nas maiores emissoras do país, e consolidando nossas vozes.

Isabelly Morais - É curioso isso, pois sempre tive vontade de ser jornalista esportivo. Sempre acompanhei esporte e sempre gostei do jornalismo. Era minha vontade e isso foi se concretizando. A narração foi uma das descobertas dentro desse meu sonho de ser jornalista esportivo. Meu primeiro contato foi na Rádio Inconfidência, em Belo Horizonte. Eu pedi estágio para o diretor de esportes de lá e ele me perguntou se eu topava ser narradora. Falei que toparia. De fato a narração foi muito especial pra mim porque em Minas nenhuma mulher tinha narrado no Rádio. E depois vieram tudo se desenrolando. Vieram as oportunidades na TV, no streaming e agora na Band. Como referência eu tive muitas referências principalmente no rádio como o Pequetito. E eu falo com minhas parceiras de caminhada como a Nati, Renata Silveira, Manu Avena. Falo com elas do momento super especial pra gente. Falo que temos que aproveitar a oportunidades e todas que caem pra gente a gente tem abraçado muito e todas fortalecendo esse momento de narração de mulheres. É um momento especial e de descobertas para todas nós, então quando vem grandes oportunidades temos que trabalhar para que outras possam vir, sabe? E é isso que a gente tem feito.

LANCE! - Tem quem ainda "olhe torto" para uma mulher narradora. O que você acha disso? Como conquistar esse público?

Luciana Mariano - Tem muita gente que olha torto para uma mulher narradora. Tem gente que não entende mesmo, não é por maldade. Só não entende. Tem gente que olha torto no sentido de não ter a mente aberta para experimentar algo novo e pensar: 'vamos ver, pode ser bom'. Porque para eles isso (uma mulher narradora) não é algo normal. Por que o normal até agora são os homens narrarem. Então a gente tem, querendo ou não, essa informação dentro da gente de ligar a televisão e ter uma voz masculina narrando um jogo de futebol. Então não é do dia pra noite que isso vai acontecer. A gente ouve muito desaforo, principalmente pelas redes sociais. Mas as mesmas redes sociais trás as boas novas, que é uma galera que entende que o mundo muda e que sim, a gente deve ter oportunidade. (...) Até 2018, eu posso dizer com certeza que não tinha acontecido, ao menos no Brasil, mais do que 100 transmissões com narração feminina. Para conquistar esse público acredito que seja uma questão de tempo. Então acredito que seja oportunidade e tempo e daqui a pouco vai ser algo tão natural que eu espero estar aqui pra ver, que vamos olhar pra trás e pensar: 'Como assim as pessoas tinha problema em uma mulher narrar futebol'. Eu pelo menos espero que isso aconteça.

Natália Lara - Eu aprendi com esses anos de carreira que é preciso saber filtrar olhares tortos e comentários maldosos. Se eles não têm a agregar algo de construtivo, eu descarto. Nem sempre é fácil, mas é necessário. Vejo que ainda existem muitas pessoas que não conhecem o trabalho das mulheres na
narração esportiva. E por isso ainda julgam com um pré-conceito de como elas acham que é. Vivemos muitos anos onde apenas homens ocupavam essa função, e as mulheres que passaram por ela, tiveram muita dificuldade e relutância de se firmarem. Mas elas deram um primeiro passo importantíssimo pra que pudéssemos chegar nesse momento que estamos. Conquistamos esse público com muito estudo, trabalho e dedicação. Chegar pras transmissões
muito bem preparadas e com muita informação é a base de tudo. Sempre me preocupo muito de ser respeitosa e tratar os times e torcidas com imparcialidade, mas levando a paixão que eles têm na minha voz. Acredito que isso faz a diferença pra um bom resultado.

Isabelly Morais - A narração masculina é muito natural para gente. O que temos batalhado muito é para naturalizar a narração de mulheres. A gente ganha muito quando uma pessoa está assistindo uma partida e esquece que tem uma mulher narrado. É o jogo que está rolando, poderia ser uma mulher ou um homem... É o jogo que importa. Por que muitas vezes uma galera vão com 10 pedras nas mãos e começam a atacar só porque é uma mulher narrando. Porque não é cômodo para a pessoa e a pessoa não respeita e não quer que isso aconteça. Mas é preciso ter muito respeito e entender que essa é a nossa caminhada, que estamos aprendendo também. Se tem cara ai que acha difícil ouvir mulher narrando imagina para a gente, que narra com tanta desconfiança de pessoas que já chegam com pedras nas mãos sem ouvir nosso trabalho, nossa narração. Eu só respondo as pessoas narrando. Eu costumo brincar que pra cada critica maldosa eu respondo narrando um gol. Para cada critica maldosa a gente tem que responder narrando. E a melhor resposta pra quem não acredita no meu trabalho é estar trabalhando.

LANCE! - O que dizer para uma mulher que sonha em conquistar esse espaço? Qual a sua mensagem para as leitoras do L! no Dia Internacional da Mulher?

Luciana Mariano - Para as mulheres que curtem futebol, persistam. Eu ganhei um livro da Sissi (ex-jogadora da Seleção Brasileira). Esse livro é distribuído nas escolas para as crianças nos Estados Unidos. Esse livro chama-se 'Ela persistiu'. O livro conta a história dela, uma menina pobre da periferia da Bahia, sem muitas alternativas, mas com muitos sonhos. Assim como aconteceu com a Marta e com todas as precursoras. Persista. Não desista. Você não é inadequada. Você não é esquisita por querer algo que é difícil. Não é difícil por que a gente quis que fosse, mas sim porque estamos vindo dessa cultura patriarcal e machista. Você não tá sozinho e sim, os sonhos podem se transformar em realidade. E que nós, mulheres, no Dia Internacional da Mulher, que a gente possa olhar umas para as outras com sororidade e que possamos entender que essa suposta disputa que existe entre mulheres foi só mais um legado dessa sombra machista. Não é nosso. A gente uma ajudar a outra para que a gente jamais fique sozinha.

Natália Lara - Digo pra você mulher que sonha em conquistar esse espaço, e pra todas as leitoras do Lance, que vocês acreditem nos seus sonhos. Que os transformem em metas e objetivos. E não deixem nunca alguém dizer que você não é capaz. O caminho muitas vezes não é fácil, mas é importante todo dia ter a calma, a paciência, a resiliência e o filtro. Estudar muito, pois a cobrança em cima de nós é sempre muito maior. Ouvir e querer sempre evoluir. Com amor, humildade e dedicação. Estamos cada dia mais chegando, e vamos deixar esse legado pras gerações novas que virão.

Isabelly Morais - A mensagem que eu deixo é que a gente tem que batalhar muito pelo que a gente acredita. Eu não sonhava ser narradora, eu me descobrir durante a caminha dentro do jornalismo e da comunicação. Eu sinto que a narração mostrou como minha voz pode ser potente e como para nós, mulheres narradoras, ocupar os espaços que a gente tem ocupado já é uma baitas mensagem. Que as mulheres podem experimentar de tudo e que se elas se sentem confortáveis em uma determinada função, se elas sonham ou querem fazer algo elas devem acreditar muito naquilo. E muitas pessoas podem não acreditar em mim, mas eu não posso deixar de acreditar em mim. E eu nunca deixe. Ouvi muitas vezes que a narração 'não é coisa de mulher', que é 'fina, aguda demais'... Que 'tira o charme da transmissão'... Já ouvi que eu estava desafiando a tradição da rádio que eu trabalhava... Enfim, tudo isso. E se tiver que desafiar tradições, alterar protocolos para mostrar que as mulheres são capazes de tudo, a gente vai fazer. E se tiver que desafiar todo mundo para mostrar que eu, enquanto mulher, posso narrar um jogo de futebol eu vou desafiar. Que a gente possa desafiar tudo que ousar determinar até onde a gente pode ir, pois só a gente mesma pode determinar até onde a gente pode e deve ir. Nossa caminhada é comandada por nós mesmas.

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