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Como o Dream Team do Barcelona construiu a dinastia em solo nacional que mudou história do clube

26/09/2020 08h00

Primeiro de setembro de 1990. Começava mais uma edição do Campeonato Espanhol. Nos cinco anos anteriores, não teve para ninguém: o Real Madrid abocanhou, de forma consecutiva, cinco troféus. Recheado de jogadores da base, o Real se exibiu nos gramados hispânicos com um futebol leve, atraente e ofensivo, no qual ficou conhecido como "La Quinta Del Buitre", em referência ao "líder" do grupo, Emílio Butragueño.

Ao norte, Espanyol e Barcelona abriam a temporada 1990/91 com o dérbi da Catalunha. Deu Barça, com gol de Hristo Stoichkov, maior reforço culé no verão europeu. Um pequeno passo para o contra-ataque barcelonista à hegemonia madridista. Iniciava a arrancada culé que culminaria em um histórico tetracampeonato nacional e o primeiro título da Liga dos Campeões.

Se, atualmente, o clima é de incerteza para um Barcelona que corre atrás do eterno rival, há 30 anos a expectativa era no mínimo de esperança. Por um lado, embora o fim da campanha 1989/90 tenha sentenciado o pentacampeonato de La Liga do Real Madrid, na Copa do Rei a história foi diferente.

Contudo, a final entre os antagônicos foi, também, uma prova de recuperação para Johan Cruyff. Campeão espanhol como jogador em 1974, o holandês retornou como treinador em 1988 para tentar recolocar o filho pródigo da Catalunha nos trilhos de novo. No entanto, os dois primeiros anos foram delicados e só um título na competição copeira evitaria a demissão.

A decisão em Valencia, no Mestalla, é considerada por muitos como uma espécie de "passagem de bastão". Com a espinha-dorsal do time que viria a dominar a Espanha nos anos seguintes, o emergente Barcelona venceu por 2 a 0, para a fúria do técnico galês John Toshack, do Real Madrid, que não resistiu e foi desligado do cargo. No âmbito moral, anímico e místico, o Superclássico ganhava um novo e crucial capítulo.

- O legado de Cruyff é essencial para a história do Barcelona. O holandês fomentou uma filosofia e criou possibilidades para o desenvolvimento de um DNA de futebol que seguirá no Camp Nou. O clube, inclusive, colheu frutos em importantes conquistas recentes. A partir das ideias de Cruyff, o Barça passou a ser reconhecido pelo futebol ofensivo, criativo e vistoso. Moldar todos esses elementos, portanto, coloca o holandês como um notável. Não consigo dissociar a imagem blaugrana a de Johan. Ele é a história culé. Lionel Messi, sem dúvidas, é o melhor jogador que já vestiu as cores do Barcelona. Cruyff é a mente. A visão. Sem ele, nada seria possível - afirma Aigor Ojêda, editor do LANCE!.

Em tempos onde a mercantilização no futebol não era tão feroz, antes da Lei Bosman e com restrição na inscrição de jogadores estrangeiros nas competições, o Barcelona necessitaria de mais astúcia na hora de escolher jogadores no mercado. Sobretudo porque, para Cruyff, o clube teria que selecionar de forma específica os atletas que encaixariam na sua proposta de jogo. Ou seja, era uma demanda que rogava maior atenção. Foi dessa forma que o pequeno José Mari Bakero, de 1,70, que fez história na Real Sociedad bi-campeã espanhola em 1981 e 1982, acertou em 1988 com o Barça, onde viria a ser fundamental.

A cada ano, um pilar chegava à Catalunha. Dos mais conhecidos, em 1989 foram as vezes de Michael Laudrup e Ronald Koeman; em 1990, Hristo Stoichkov; em 1993, Romário. Se os nomes eram escolhidos meticulosamente por Cruyff e a comissão técnica, visão diferente compartilhava a diretoria, do presidente Josep Lluís Núñez, até hoje o que mais ficou à frente do cargo (de 1978 a 2000). Persona non grata no Camp Nou, Núñez não repartia da melhor relação com Cruyff.

- O Nuñez ficou 30 anos como presidente do Barcelona e sempre foi mais adepto de ideias futebolísticas diferentes do Cruyff. O Cruyff não foi contratado porque o Nuñez acreditava que ele ganharia a Champions League e seria a salvação. Não. A pressão dos sócios que era muito grande. Os sócios e a torcida no geral defendiam a contratação do Cruyff pela inspiração no jeito de jogar que deu frutos ao Ajax e porque acreditavam que o holandês, já tendo sido jogador do Barça, seria uma luz no fim de túnel para o clube ganhar notoriedade em meio a uma rivalidade onde o Real Madrid não parava de ganhar títulos - explica Gabriela Tomaseto, responsável pelo 'Canal Barça', perfil feito por e para torcedores do clube no Brasil.

Para alcançar as glórias foram precisos mudanças estruturais. Sob a baliza de Cruyff e do auxiliar-técnico Carles Rexach, as divisões de base, hoje famosamente conhecida como "La Masía", nome dado às instalações de treinamento e à academia que abrigava as promessas até 2011, teriam importância indeclinável. De acordo com o livro "Barça: a construção e a trajetória do melhor FC Barcelona de todos os tempos", escrito por Graham Hunter e publicado no Brasil pela editora Grande Área, Cruyff enxergou a necessidade dos treinadores da base jogarem no mesmo esquema tático (4-3-3) com o mesmo estilo de jogo para facilitar a transição à equipe profissional.

Outras ortodoxias dos princípios do holandês envolviam a obrigação das melhores promessas sempre estarem treinando com jogadores mais velhos e a "promoção acelerada", que o fornecimento de um jovem ao plantel principal. Para Rexach, "eles estavam decididos a instaurar o futebol que nos inspiravam, o de Rinus Michels", creditado como inventor do "Futebol Total", famoso pela Holanda de 1974 e o Ajax campeão europeu.

- Antes do Cruyff assumir o Barcelona como treinador, já havia uma semente implantada no clube por nomes como Vic Buckingham, Rinus Michels e Laureano Ruiz. Esses caras têm um nome muito forte na história do Barcelona. Por que eles não são tão falados? Porque eles não tiveram pro futebol o tamanho de um Cruyff. Mas pensando no estilo barcelonista (ou o estilo cruyffista), eles foram muito importantes. Acontece que essa filosofia só começa a ganhar voz quando o Barça ganha sua primeira Liga dos Campeões, em 92, com o Dream Team do Cruyff. Antes disso era só uma "ideia" que ficou "vaga" no ar - diz Gabriela.

Dado os primeiros passos, era hora de transformar a teoria na prática. Mas não foi algo fácil. O Barcelona era como um urso em hibernação, cujo estado letárgico já durava anos suficientes para colocá-lo em descrédito. Para se traçar um paralelo comparativo, do bi-campeonato de 1958/59 e 1959/60 até o título supracitado da Copa do Rei em 1990, os Blaugranas venceram apenas duas La Liga (em 1973/74 e 1984/85). No período, o Real levantou a taça 18 vezes, o Atlético de Madrid mais quatro, enquanto Real Sociedad e Athletic Bilbao duas vezes cada, e o Valencia uma única vez.

Dos quatro títulos seguidos na década de 90, três saíram no sopro do apito. E, nos três, o Barcelona chegou à última rodada dependendo de um tropeço do rival direto. E, nos três, os rivais colaboraram. A exceção foi o primeiro ano. Com o time categoricamente ajeitado, o arranque no primeiro turno serviu para criar uma gordura diante de um segundo turno mais instável. Resultado: triunfo com três rodadas de antecedência. Ironia do destino, no dia da confirmação do troféu, o Barcelona foi goleado pelo Cádiz por 4 a 0, mas uma derrota do Atlético de Madrid para a Real Sociedad finalizou matematicamente o campeonato.

Se contou com uma ajuda à moda basca para voltar a ser campeão, o que dizer do quão solícito foi o Tenerife, pequeno clube representante da maior das sete ilhas das Canárias? Nos dois títulos seguintes, o Real Madrid chegou à jornada final precisando de uma vitória simples, mas, em ambas ocasiões, foi retumbantemente surpreendido pelos insulares, que venceram em 1992 por 2 a 0 e em 1993 por 3 a 2.

Semelhanças foram encontradas no roteiro da temporada 1993/1994. No melhor ano da carreira de Romário, o Barça encarou o último jogo tendo que fazer a lição de casa e secar um rival direto, no caso o Deportivo La Coruña, que liderava com 55 pontos, contra 53 dos culés. E o raio caiu no mesmo lugar pela terceira vez. Em casa, o Depor não passou de um empate com o Valencia por 0 a 0, desperdiçando um pênalti aos 45 minutos, enquanto que no Camp Nou o Barcelona derrotou o Sevilla por 5 a 2 e fechou o quarto título.

- São quatro grandes momentos do Barcelona em sua história: quando surge; depois com o Kubala, que é responsável pela mudança de estádio para o Camp Nou; e aí vem o Cruyff, que é um grande marco, porque os outros dois momentos são ligados a ele. Ele traz uma mudança gigantesca no clube, quanto à filosofia, categorias de base e modelo de jogo. Anos depois, vem o Ronaldinho, já com o Laporta, com toda uma ideia que tem o Cruyff como presidente honorário, como um conselheiro importante do clube. O Messi chega porque a filosofia do Cruyff está lá. É bem provável que, se não tivesse, o Messi não seria contratado. Ou o Guardiola não seria um jogador do Barcelona, por não ter sido tão forte fisicamente. O Messi é o maior jogador, mas o Cruyff é mais importante num contexto geral. Então é possível falar que Johan é o maior nome da história do Barcelona - salienta o jornalista Gabriel Corrêa, da Rádio Bandeirantes e do site "Footure".

Mais do que a dinastia nacional e a conquista do primeiro título europeu, em 1991/92, quando derrotou a Sampdoria em Wembley por 1 a 0, é inevitável não falar de legado deixado por Cruyff e seu entorno. Desde então, com a ressalva do inglês Bobby Robson em 1997, todos os treinadores campeões com o Barcelona foram holandeses (Louis Van Gaal e Frank Rijkaard) ou espanhóis que atuaram com Johan (Pep Guardiola, Luis Enrique e Ernesto Valverde).

Agora, trinta anos depois do início da longa caminhada que resultou em um dos períodos mais vitoriosos do futebol espanhol, o Barça, novamente com um holandês no comando técnico, espera curar as cicatrizes abertas pela desastrosa temporada 2019/2020. O pontapé inicial será neste domingo, às 16h, contra o Villarreal.

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