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Luiz Gomes: 'Tite ultrapassou os limites do bom senso'

22/09/2019 08h05

Há um mês, quando foi anunciada a convocação para os amistosos contra Colômbia e Peru, essa coluna tratou do agravamento da crise que existe na relação entre o torcedor e a Seleção Brasileira, por conta dos constantes desfalques provocados nos times pelos jogos em Data Fifa, com os campeonatos nacionais, Libertadores e a Sul-Americana rolando por aqui.

Eis que o problema se repete e, agora, em dose tripla: convocações do time principal para enfrentar Nigéria e Senegal, do sub-17 que vai disputar o mundial da categoria, a partir do mês que vem, e da seleção pré-olímpica que faz dois amistosos preparatórios para as eliminatórias de Tóquio-2020. O resultado é que nada menos do que 17 jogadores de 12 times ficarão de fora de uma ou duas rodadas do Brasileirão. Talles Magno, do Vasco, e Reinier, do Flamengo, ainda mais, pois estão inscritos do mundial sub-17.

Mais uma vez, as reações foram de irritação, com uma enxurrada de protestos nas redes sociais e pesadas críticas da mídia esportiva. E tudo faz sentido.

Tite, embora considere o contrário, ultrapassou os limites do bom senso, levando de arrastão Guilherme Dalla e André Jardine, os técnicos das seleções sub-17 e olímpica, respectivamente. Dessa vez, o técnico não teve sequer o pudor de tentar manter o equilíbrio das coisas, tirando apenas um jogador de cada time, como vinha sendo feito. Ao chamar os gremistas Matheus Henrique e Everton Cebolinha e os rubro-negros Rodrigo Caio e Gabigol, artilheiro do Brasileirão, atingiu fortemente a estrutura dos dois times, num momento crucial da temporada.

Lembre-se que poucos dias depois dos insignificantes amistosos contra os africanos em Cingapura, Grêmio e Flamengo disputam o segundo jogo da semifinal brasileira da Libertadores. E terão alguns de seus principais jogadores desgastados por uma viagem longa e cansativa, desde o outro lado do planeta. Um verdadeiro crime de lesa-pátria. Pelo menos da pátria de chuteiras, como dizia o saudoso Nélson Rodrigues.

Tudo isso é um show se horrores.

É um horror a justificativa que Tite faz, um desrespeito aos clubes. Quando ele diz que a Seleção Brasileira tem de entregar desempenho e resultado, parece muito mais preocupado com seu próprio futuro do que com o futebol nacional. De quebra, menospreza o Brasileirão, a mais importante competição do país, ao cunhar uma frase que não combina com sua inteligência, ignorando, inclusive, a participação de Grêmio e Flamengo na Libertadores: "O calendário é muito mais decisivo numa competição de Copa do Brasil do que numa competição de pontos corridos".

É um horror, igualmente, a justificativa simplista de Juninho Paulista, o coordenador de seleções da CBF que chega a ser patético ao apelar pela paciência dos clubes e do torcedor até o final desse ano, garantindo que a partir da temporada 2020, com a promessa do presidente Rogério Caboclo, as coisas vão mudar e as Data Fifa passarão a ser respeitadas. Não consegue, explicar, apenas, como vai fazer isso, já que o planejamento da própria CBF prevê a continuação dos torneios nacionais mesmo durante a Copa América em junho e julho, na Argentina e Colômbia, e a Olimpíada de Tóquio, em julho e agosto, competições em que o Brasil pretende estar com sua força máxima.

Mas, tão horrorosa quanto tudo isso, é a passividade dos clubes. Na origem, a cartolagem dirigente, amadora e submissa às imposições da CBF, é a grande responsável por essa situação degradante para o futebol tupiniquim. São cúmplices, sim, não por ação, mas por absoluta omissão, pela condescendência, a desunião e a política de abaixar a cabeça que mantiveram nas últimas décadas curvando-se aos desmandos da dinastia Teixeira-Marin-Del Nero.

Colhem, agora, com tem sido sempre, os efeitos do adesismo covarde.

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