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A trajetória do 'Superman': por que Valentim é tão querido no Palmeiras

 Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação
Imagem: Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação

25/10/2017 08h00

Para a torcida, ele é o "Superman da Pompeia". Os jogadores gostam de chamá-lo de "Alberto Série A", em referência aos oito anos jogando na elite italiana. Técnicos com quem já trabalhou valorizam seu interesse por aprender sobre futebol, sua lealdade e seu estilo "mineiro, mas com sangue quente".

A verdade é que Alberto Valentim conquistou vários admiradores antes mesmo de assumir o lugar de Cuca, somar nove pontos em sequência e reacender a esperança de título no Palmeiras. O LANCE! ouviu alguns personagens dessa trajetória para entender por que o atual técnico do Verdão é tão querido - e, também por isso, tornou-se o favorito a dirigir a equipe em 2018.

Nível Série A

Uma fila de jogadores se forma na entrada da área após o treino. Egídio cruza da esquerda, Valentim cruza da direita. A cena era corriqueira na Academia de Futebol antes da saída de Cuca. O então auxiliar fazia apostas com o lateral-esquerdo, e cada bola que os atacantes colocavam na rede valia um ponto. Foi aí que os atletas começaram a chamá-lo de "Série A".

"Ele brinca que o cruzamento dele é cruzamento de Série A italiana", explica Egídio.

"Tudo é "Série A" (risos). É uma brincadeira dos jogadores, porque o Alberto jogou bastante tempo lá. É um sinônimo de qualidade. E ele também brinca, quer tudo no nível Série A, qualidade lá em cima. É assim nas peladas também. O único que não gostou da chegada do Alberto foi o Cesar Greco (fotógrafo), que era lateral-direito nas brincadeiras da comissão - conta Fernando Miranda, ex-preparador de goleiros do Palmeiras e auxiliar de Valentim no Red Bull, no Paulistão deste ano.

Parecia só brincadeira, mas a atividade fazia com que os homens de frente aprimorassem as finalizações quase diariamente. E ainda mostrava duas coisas: o ótimo clima entre jogadores e Valentim, na condição de auxiliar-técnico, e o quanto eles valorizam os quase nove anos que o ex-lateral passou no futebol italiano, jogando por Udinese e Siena entre 1999 e 2008 - no Brasil, defendeu clubes como Guarani, São Paulo, Flamengo e Atlético-PR.

A gente sabe que ele jogou bastante tempo na Itália e absorveu bastante coisa. Ele gosta de focar bastante na parte defensiva, passa bastante coisa que aprendeu lá. Eu tinha um pouco de dificuldade na marcação e ele me passou alguns atalhos. Na questão ofensiva ele também me ajudou, mostrou como chegar no ataque sem gastar muita energia. É um cara experiente na minha posição - elogia o lateral-direito Lucas Taylor, hoje emprestado ao Paysandu, que trabalhou com Valentim no Palmeiras (como auxiliar) e no Red Bull (como técnico).

As referências italianas

Alberto Valentim diz que tenta misturar duas escolas de futebol em suas equipes: a brasileira, com talento e improviso na hora de atacar, e a italiana, com extrema organização na hora de defender. Quando parou de jogar e decidiu ser treinador, ele foi à Itália para observar de perto os métodos de Luis Henrique (na Roma), Antonio Conte (na Juventus) e Francesco Guidolin (na Udinese).

Entre a saída do Red Bull e o retorno ao Palmeiras, no primeiro semestre deste ano, teve mais um período de aprendizado. Foi primeiro à Roma, onde fez estágio com Luciano Spalletti, técnico que o comandou na Udinese e uma de suas principais referências. Além de acompanhar a rotina do clube, Valentim sentou-se com o amigo para assistir a vídeos de jogos do Red Bull e avaliar pontos positivos e negativos. Chegava pela manhã, às 10h, e saía às 19h. Também ficou alguns dias na Udinese acompanhando Luigi Delneri antes de ser convidado por Cuca para reassumir seu posto na comissão técnica fixa palmeirense.

"A escola europeia está muito viva na vida dele. É um cara que se mostra muito interessado, dedicado. Sei que ele esteve com o Spalletti recentemente, um cara que o recebe em casa. Ele investe no conhecimento. Se nós conversamos e menciono um livro para ele, quando vamos conversar de novo ele já comprou", elogia Ricardo Drubscky, hoje diretor do América-MG, que era técnico do Atlético-PR na primeira experiência de Alberto Valentim como auxiliar, em 2012.

Conquistando os chefes

Ricardo Drubscky, Vagner Mancini, Gilson Kleina, Ricardo Gareca, Dorival Júnior, Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira e Cuca. Alberto Valentim integrou a comissão de todos esses treinadores, sendo os dois primeiros no Atlético-PR e os demais no Palmeiras, desde 2014. Precisou adaptar-se a cada um deles. Cuca, por exemplo, trabalha há anos com Cuquinha e Eudes Pedro, auxiliares que carrega para todos os clubes, mas encantou-se com o trabalho de Valentim a ponto de sugerir o seu retorno ao clube após a experiência no Red Bull.

Embora tenham algumas diferenças na maneira de pensar o futebol, os dois faziam trabalho bem harmônico. Valentim aplicava os treinos nos dias pós-jogo e tinha liberdade para opinar. O auxiliar sempre deixou claro o desejo de se fixar como treinador, mas nunca se colocou como ameaça para quem esteve no cargo. Cuca gostaria de prepará-lo para sucedê-lo.

"O Alberto é um cara fácil de lidar, competente e trabalhador. Tínhamos um dia a dia muito saudável, sempre falávamos de futebol, de tendências táticas e de modernidade", elogia Vagner Mancini.

"O Alberto foi um camarada muito fiel comigo. Ele me protegia muito de confronto com jogador. Dizia: "pode deixar que eu resolvo isso, você não precisa entrar nessa". A gente percebia que era sincero. Eu, ele e o Omar Feitosa formamos um trio que se deu muito bem, até porque o Omar tem esse mesmo perfil, essa iniciativa de cuidar do ambiente. No trabalho em grupo, se você não gerir bem, não adianta ser tecnicamente muito bom", emenda Ricardo Drubscky

A convivência com Omar Feitosa foi fundamental para as portas do Palmeiras se abrirem. O preparador físico, que na época era gerente de futebol, foi quem o contratou no início de 2014 para a comissão técnica do Verdão.

Conquistando os jogadores

O início na Academia de Futebol não foi fácil para Alberto Valentim. O fato de ter sido contratado por Omar fez com que alguns jogadores o enxergassem como um "homem da diretoria" em meio à comissão técnica e tivessem receio de se abrir com ele. Como se sabe, o cenário hoje é muito diferente. Não é à toa que líderes como Dudu, Dracena e Moisés já defenderam publicamente a sua efetivação.

"O Alberto ficou próximo dos jogadores, e temos de ver essa proximidade como algo positivo, não pejorativo. Não é amizade, é uma aproximação de respeito. Ela acontece porque o Alberto comanda em uma via de mão dupla: ele gosta de passar as coisas que conhece, que já viveu, mas ele também ouve. A gente se sente valorizado quando é ouvido, isso aproxima as pessoas. É um cara que jogou, tem experiência internacional, e sabe se posicionar em relação ao atleta e ao ser humano. É um cara de idade próxima à dos jogadores também, e isso vai aproximando. Tenho certeza que os jogadores querem o Alberto por esse contexto todo", opina Fernando Miranda.

Quando eu estava no Red Bull e soube que o Palmeiras queria me reintegrar depois do Paulista, o Alberto foi uma das primeiras pessoas com quem eu comentei. Ele dá essa liberdade de chegar e conversar, trata todo mundo igual. Isso faz os jogadores gostarem dele, tanto que estão pedindo a permanência dele - completa Taylor.

A experiência como treinador

Alberto Valentim deixou o Palmeiras no fim do ano passado, assim que o clube escolheu Eduardo Baptista para substituir Cuca. Ele já se sentia preparado para ser técnico e aceitou o convite para dirigir o Red Bull no Paulistão. Em sua primeira experiência no comando de uma equipe - sem contar os períodos como interino no Palestra Itália -, não conseguiu avançar aos mata-matas.

"Foi uma pena, a campanha não traduziu o que o time jogou. Nós fizemos boas apresentações, jogamos de igual para igual com os grandes, mas não tivemos resultados. Ficou um pouco de frustração, mas o trabalho deixou um saldo positivo. A gente chegou em meio a uma troca de presidente, eles já tinham a maioria dos jogadores, mas participar da montagem do elenco, montar uma programação para a temporada, idealizar modelo de jogo, colocar em prática, fazer gestão de vestiário... Foram experiências que, com certeza, deixaram o Alberto mais preparado e mais cascudo", diz Fernando Miranda, que está estudando para ser treinador após auxiliar o amigo no Red Bull.

"Ele fez um trabalho bom. O treino dele é curto, dura no máximo uma hora, mas é intenso, não deixa ficar parado. Ele explicava o por quê de cada trabalho, o motivo de estar treinando daquele jeito. Quando o adversário era mais fechado, treinava de um jeito. Quando era mais aberto, treinava de outro. Ele estuda bastante o adversário também", relata Lucas Taylor.

Mineiro de sangue quente

Natural de Oliveira (MG), Alberto Valentim tem características de um bom mineiro. Tranquilo e até certo ponto tímido com quem não tem intimidade.

"Ele faz jus às características do mineiro, fica na dele, não é muito de ficar se expondo, mas está sempre bem-humorado. A distração dele é fazer exercício, todo dia corre os 10km dele, é super de boa. Dificilmente você o vê estressado", diz Fernando Miranda

Mas o sangue também ferve. Ricardo Drubscky lembrou de um episódio:

Apesar de ser um mineirinho do interior, ele tem sangue latino, ele ferve, tem espírito bastante aguerrido mesmo. Uma vez jogamos no campo do Vitória, estávamos ganhando de 2 a 0 com um jogador a menos e teve um jogador que cometeu uma atitude meio irresponsável, foi negligente em uma jogada. O Alberto deu um grito para o cara fazer direito, e aí um outro jogador pediu calma para ele. Ele falou: "Estou calmo. Você vai ver quando eu ficar nervoso". Gostei de ouvir aquilo, mostrou que ele estava inserido no contexto, querendo ajudar. Sei discernir bem quando há interferência e quando há parceria.

Toda essa trajetória deu a Alberto Valentim a chance de dirigir o Palmeiras em 14 jogos, com nove vitórias, um empate e quatro derrotas - contanto a passagem atual e as vezes em que foi interino. Se depender dele, dos jogadores, da torcida e de conselheiros próximos ao presidente Maurício Galiotte, essa história ainda terá muitas páginas escritas.

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