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'Cicatrizado', Marlone desabafa e não esquece sonho de ser ídolo no Timão

Marlone ganhou espaço no Corinthians e tem se destacado - Mauro Horita/AGIF
Marlone ganhou espaço no Corinthians e tem se destacado Imagem: Mauro Horita/AGIF

21/11/2016 06h30

Marlone tem apenas 24 anos, mas parece até mais velho. Não fisicamente, mas no comportamento: fala pausada, gestos tranquilos, discurso articulado e consciência de que as coisas da vida vêm e vão. As boas e as ruins também. Contratado pelo Corinthians no início de 2016, o camisa 8 tem a sensação de que já está no clube há muito mais tempo. Pelo menos foi isso que disse em entrevista ao LANCE! antes do jogo desta segunda-feira, às 20h, contra o Internacional, quando retorna (mais uma vez) ao time.

- Passei por muita coisa aqui no Corinthians, lesão, volta, período parado, sem jogar, depois minha sequência como titular, sendo decisivo, fazendo bons jogos... A sensação é de que estou muito bem ambientado - diz o meio-campista.

Apesar dos bons números quando foi titular, Marlone perdeu espaço com Oswaldo de Oliveira. O treinador cita razões físicas para explicar a barração. Nesta segunda, no entanto, ele não conta com Rodriguinho, Giovanni Augusto e Lucca e teve poucas opções além do camisa 8, que vai jogar aberto pela esquerda. O banco não foi exatamente uma novidade para Marlone no Timão.

- Eu já estou muito cicatrizado. Já passei por muita coisa na minha vida. Sempre levo uma frase comigo: "Coisas boas duram um tempo". Em cada momento de dificuldade aqui no Corinthians, tentei criar oportunidade na dificuldade. Claro que teve momentos em que eu fiquei triste, desanimado, sou ser humano, mas não vivi triste e desanimado, eram momentos. Mas quando eu entrava em campo pedia a Deus para renovar minhas forças e estar em cima - reflete.

Se coisas boas duram um tempo, Marlone espera que a noite desta segunda-feira seja uma sequência de sua volta ao time titular. Motivado ele vai estar.

CONFIRA A ENTREVISTA EXCLUSIVA DE MARLONE AO LANCE!:

Você diz que tem sensação de estar há muito tempo no Corinthians. O que já sentiu do clube neste período?

O conjunto todo. Começa pela estrutura, as pessoas que trabalham aqui, a grandeza do clube, a marca que é o Corinthians. E a pressão também. Quando o time está bem é lá em cima e quando está mal é pressão o tempo todo. Isso aí também marca muito o que é o Corinthians. E a torcida, que apoia a todos os momentos, em cada canto do Brasil é estádio lotado. O que representa o Corinthians para mim é essa grandeza.

E essa torcida que você mencionou te abraçou desde o começo e sempre pede por você. Por que acha que isso aconteceu?

Eu acho que é porque as pessoas acompanham futebol. A torcida do Corinthians é diferente das outras, porque sabe ver jogo e acompanha as notícias do treino. E eu sempre fiz gol em treino, em amistoso e jogo-treino ia bem, então essa cobrança veio por não entender como eu fazia tudo isso no treino e não jogava. Recebo isso de uma forma bem tranquila, é reconhecimento do meu trabalho. Foi até impactante esse carinho da torcida, porque geralmente pedem para jogar quem tem história no clube e eu não tenho isso ainda. Mesmo assim gritaram meu nome nos jogos e isso gera uma responsabilidade de entrar e compreender. Então recebi como apoio, reconhecimento, sem pressão de querer mostrar, mostrar. As coisas fluíram naturalmente e agora está dando resultado.

Você acha que agora as coisas estão andando, mas nem sempre foi assim, né? Como foi aquele período em que passavam técnicos e você nunca jogava?

Poxa, fiz vários planos antes de vir para cá. Vim de um campeonato maravilhoso no Sport aí cheguei aqui e me lesiono. Por mais que você não queira vêm muitos sentimentos ruins na cabeça, de planejar tanta coisa boa e acontecer tudo ao contrário. Mas teve que acontecer assim para dar certo. Voltei, voltei bem contra o Cobresal na Libertadores. Há males que servem para o bem, eu soube aproveitar isso de uma forma bem tranquila.

Depois Fluminense, onde você não teve espaço, e o Sport... Por que as coisas deram tão certo em Pernambuco?

Tem lugares em que você vai para deixar um legado. Muitos atletas não vão entender a profundidade disso, mas fui para Fluminense e Cruzeiro e deixei alguma coisa de bom, de uma conduta, de respeito. Mas infelizmente as coisas não fluíram. Eu estava querendo jogar no Fluminense, mas não jogava. Aí teve um jogo contra o Sport no Maracanã e o Wendel, com quem joguei no Vasco, veio atrás de mim falando para eu ir ajudar eles lá. Aí passei o número do meu empresário, conversamos e fui. Saí de uma revelação para não jogar, é natural pensar se vou, se não vou. Aí que teve a oportunidade no Sport de entrar para a história do clube, que teve a melhor campanha na história dos pontos corridos. Para mim foi muito bom, tenho um carinho muito grande. Minha filha nasceu lá, isso marcou muito. Algumas coisas vão acontecer na nossa vida e a gente não vai entender. Tive que ir pro Sport, lá no Nordeste, onde a visibilidade é menor que aqui, e chamei atenção. Tem um tempo para tudo.

E por que aceitou o desafio de jogar no Corinthians em 2016?

Era um sonho. Desde pequeno sonho em jogar nesse clube. Já era para ter vindo outras duas vezes: em 2013, quando me destaquei no Vasco, e no meio do ano que eu estava no Cruzeiro, o Mano se interessou comigo, entrou em contato com meus procuradores, mas não teve acordo. Foi a terceira vez e vim por causa de um desejo meu.

Então você era corintiano de infância? Ou estou errado?

Era sim. Gostava muito do Corinthians. Lembro do Gil, do Ricardinho, do Rincón, Vampeta, Marcelinho, via bastante jogos. Depois fui para o Vasco, criou um carinho, mas meu primeiro clube foi o Corinthians.

E hoje sua motivação é fazer história como fizeram esses caras que você citou?

Sem dúvida. É o que eu almejo, marcar a história num grande clube para ser lembrado, falar para os meus filhos, guardar fotos, recordações, capas de jornal. Eu pretendo fazer uma história bonita aqui dentro.

Depois do Cobresal você acreditava em mais chances, não?

Sim, cara. Não de uma forma arrogante, mas criou um sentimento de que eu entraria aos poucos, pegaria meu espaço e confiança. Teve esse sentimento, sim. Achei que as coisas fossem embalar. Mas futebol é resumido assim: tudo tem um tempo certo. Eu esperei, aprendi muito nesses momentos sem jogar, sempre pedindo orientação para crescer e as coisas foram dando certo.

Você falou mais cedo que já é cicatrizado. Queria que explicasse melhor. O que te cicatrizou?

As provações, as lutas, todos nós temos lutas diárias. Às vezes você é forte numa coisa e eu sou fraco e às vezes eu sou forte em outra e você é fraco. Minha história começou com a minha separação do meu irmão gêmeo, então é uma luta desde sempre. Minha mãe teve a mim e meu irmão com 13 anos, meu pai era casado com minha tia, que era mais velha. Ele engravidou minha tia e minha mãe, que era uma criança. Nós quase morremos. E aí eu fui para outra família e meu irmão ficou com meus avós biológicos. Essa luta começou já assim, desde pequeno. Eu querendo meu irmão perto de mim, porque os dois sabiam que o outro existia. Meus pais nunca esconderam a história, mas eu não acreditava, não tinha foto, não tinha prova.

E no futebol?

Passei por muitas coisas que me fizeram mais forte, coisas que me lapidaram. Tive dificuldades em termos de não jogar, de viver longe de casa. Na época em que estava no Vasco ia em casa uma vez em casa. Já fiquei sozinho em Carnaval em São Januário. Já adoeci na concentração sozinho. Eram muitos momentos em que eu queria meu pai e minha mãe perto e não tinha. Isso tudo foi me fazendo ficar maduro, fazendo tirar coisas boas do que é ruim. Tirar coisas boas dos lugares bons é fácil. Mas olhar com positividade um ambiente negativo é que faz diferença. Sempre tive isso comigo.

Voltando um pouco no tempo, como você foi parar no Vasco?

Fiz uma peneira com um olheiro chamado Ecyr Rosa, que não está mais com a gente, em Imperatriz, no Maranhão, que fica a 60km da minha cidade. Fiz essa peneira, passei e tive que vir ao Rio para fazer outro teste. Vim e fiquei direto. Cheguei ao Vasco com 12 para 13 anos e fiquei até 22. Vim morar sozinho. Meu pai ficou nos dias de testes, mas passei e ele voltou. Só ia para casa de ano em ano. Teve até dois Natais que não tive como ir para casa, porque emendava Copa São Paulo. Eu passava o Natal sozinho, depois que fui conhecer uma galera do Rio e ia para casa de amigos, Luan do Vasco, Cícero. Para não ficar sozinho no clube. Era realmente complicado. E piorava porque os juniores ficavam separados do resto e eu sempre ficava só. Vários quartos e eu sozinho, porque todo mundo tinha folga e ia para casa. Não tinha outra solução.

Depois de tanto aperto no Vasco, quem te deu a primeira oportunidade?

O primeiro foi o Dorival Júnior, em 2009. Eu estava no segundo ano de juvenil e os juniores estavam viajando, então chamaram alguns mais novos, dois meias, um lateral e um atacante. Eu subi e fui muito bem no treino, depois fiz um amistoso contra a seleção da Nicarágua formando meio-campo com o Philipe Coutinho, que já estava até vendido para a Itália. Naquele momento ninguém tinha falado de contrato profissional comigo, o Dorival que botou pressão. Foi ali que fizeram meu contrato. Foi bom, eu estava precisando de uma ajuda (risos). Era só ajuda de custo. Mas logo depois o Dorival saiu e voltou em 2013. Foi só com ele que eu tive sequência como titular. Com o Marcelo Oliveira eu não era titular, só com o Dorival fui ser. Curioso que ele lembrou de mim. Também, um galego velho desse aqui o cara acaba lembrando (risos).

Foi daí que você virou uma revelação do futebol brasileiro, né?

Nós caímos, mas foi um ano bom na minha carreira. Logo depois fui para o Cruzeiro, depois de ser uma das revelações. Nessa época o Cruzeiro contratou só eu, Marcelo Moreno e o Samudio, só contratações pontuais, para encaixar. Mas as coisas não fluíram. Mas foi bom também, fui campeão brasileiro, tenho amigos lá até hoje e isso conta também. Agora estou colhendo tudo o que vivi e tem coisas melhores pela frente.

E com tantos planos você chega ao Corinthians logo num ano turbulento como esse...

Mas por tudo o que aconteceu a gente não pode pegar como ano fracassado, porque teve muita mudança. Mudança causa essas situações. Mas vejo como um ano positivo, estamos brigando pela classificação à Libertadores, não está longe, dá para buscar. Vejo como um ano positivo. Claro que é um time que vem de ser campeão brasileiro, com elenco e tudo do jeito que foi gera uma pressão a mais. O torcedor tem todo o direito de cobrar, porque o Corinthians vive de brigar por coisas grandes e está sempre no topo. Esse ano não está sendo assim, mas é ter calma, faltam poucos jogos para finalizar o ano e estamos focados em alcançar essa classificação. Tem um futuro brilhante pela frente.

Ia ser uma frustração não se classificar para a Libertadores?

A gente não tem que pensar nisso, porque a Libertadores é nosso alvo. Com o tamanho do Corinthians e a história que ele tem é frustrante ficar fora da Libertadores, claro. Mas nós vamos fazer de tudo para buscar nossa meta. Temos potencial e vamos em busca disso.