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Discípulo de Ceni, ex-Atlético-GO lamenta sumiço dos goleiros artilheiros

Goleiro Márcio, do Atlético-GO, comemora após marcar na vitória sobre o Coritiba, em 2011 - Renato Conde/O Popular/AE
Goleiro Márcio, do Atlético-GO, comemora após marcar na vitória sobre o Coritiba, em 2011 Imagem: Renato Conde/O Popular/AE

Augusto Zaupa e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

03/07/2022 04h00

Classificação e Jogos

Aposentado há sete anos, Rogério Ceni carrega até hoje a fama e o título de goleiro com mais gols na história do futebol mundial (131). A habilidade do hoje técnico do São Paulo para cobrar faltas e pênaltis inspirou outros camisas 1 do futebol brasileiro. Um deles foi Márcio, que defendeu o Atlético-GO por quase dez temporadas. Hoje (3), inclusive, o Dragão recebe o São Paulo de Ceni, às 16h (de Brasília), no estádio Antônio Accioly, pela 15ª rodada do Brasileirão.

"O Rogério é um cara que sempre me inspirou, não só pelas cobranças de falta, mas isso ajudou, claro. Antes de eu chegar no Bahia [no início dos anos 2000], eu acompanhei o Expressinho do São Paulo, que o Rogério fazia parte [time praticamente composto por juniores do Tricolor nos anos 90]. O Zetti também foi um dos meus ídolos, inclusive, no início da minha carreira, eu jogava de calça por causa do Zetti. Acompanhei toda essa evolução do São Paulo", disse Márcio ao UOL Esporte.

Assim como o ídolo Ceni, Márcio também fez a sua história no futebol pelos gols anotados em cobranças de falta e de pênalti. Ele balançou as redes 43 vezes e é superado apenas pelo atual treinador são-paulino. Conhecedor e defensor da causa, ele lamenta que atualmente seja difícil ver mais goleiros buscando se aprimorar nestes fundamentos.

"Acredito que nenhum treinador vai querer incentivar um goleiro a bater falta, porque o treinador acha pode prejudicar o time, que corre o risco. Então, tem que partir do atleta, do goleiro, de mostrar disposição. Aí sim o treinador pode facilitar, ajudar, pode permitir, mas dizer que um treinador vai cobrar o seu goleiro a fazer gol isso aí é improvável", comentou Márcio, que chegou a ser proibido de correr até a área adversária na busca pelo um gol.

"Já teve um treinador que me impediu. Só que eu continuei treinando, eu não parei de treinar. Ele me proibiu de bater no jogo, respeitei. Mas treinar ele não podia me impedir. Ele viu no treinamento, que não dava para me impedir, até porque eu já tinha feito alguns gols e não era mais novidade, era uma coisa que fazia parte até do planejamento", recordou. "Foi o Mauro Fernandes, que era conhecido como o Luxemburgo do Nordeste. No início, ele estava reticente, mas depois não teve jeito não. Ele viu que a coisa estava acontecendo e ele deixou", acrescentou.

Dos 43 gols na carreira, 18 foram de falta. Aposentado há três anos, Márcio lamentou a ausência de exímios cobradores de faltas no futebol brasileiro atualmente e apontou que as comissões técnicas não impõem um trabalho especifico para isso ao longo dos treinamentos.

O goleiro Márcio vê cobrança de falta de Neymar passar rente à trave do Atlético-GO no jogo contra o Santos - Ricardo Nogueira/Folhapress - Ricardo Nogueira/Folhapress
Márcio vê cobrança de falta de Neymar passar rente à trave do Atlético-GO no jogo contra o Santos, em 2011
Imagem: Ricardo Nogueira/Folhapress

"Os treinadores deixaram um pouco de lado, pela exigência física. Querendo ou não, o jogador treina muito e depois vai descansar. Mas falta define jogo. Na véspera do jogo, o cara vai lá e bate cinco faltas de um lado e cinco do outro, por isso que não sai gol. Eu treinava em média, no início, 100 faltas por dia. Depois eu fui diminuindo, me qualificando, porque realmente cansa. Você repetir toda a hora pode até ocasionar uma lesão. Os treinadores não se atentam para esse fato, de um dia só de cobrança de falta. Mas também precisa da iniciativa do atleta."

Expressinho despertou o amor pelo Tricolor

Expressinho do São Paulo, campeão da Copa Conmebol de 1994 - Arquivo histórico do São Paulo FC - Arquivo histórico do São Paulo FC
Expressinho do São Paulo, campeão da Copa Conmebol de 1994
Imagem: Arquivo histórico do São Paulo FC

Atualmente com 41 anos e atuando como agente de jogadores, Márcio é natural de Aracaju. E foi em uma viagem do Tricolor ao Sergipe que iniciou o amor pelo clube do Morumbi que ele carrega até hoje.

"Na minha infância, o São Paulo foi jogar contra o Sergipe pela Copa do Brasil [pela primeira fase, em 1993]. Na época, o São Paulo tinha o Pavão na lateral direita, Catê, Pereira... Era aquele time do Expressinho. Isso foi marcante para mim. Ver o São Paulo jogando em Sergipe foi uma coisa surreal. A partir daí eu comecei a acompanhar o São Paulo. Tenho um conterrâneo que jogou um bom tempo no São Paulo, que foi o Dinho, ex-volante [campeão da Libertadores e mundial com o Tricolor em 1992 e 1993]. O São Paulo é um time que eu sempre tive no coração."

Outros trechos da entrevista com Márcio:

Duelo desta noite em Goiânia

"O Atlético-GO se consolidou, como a gente fala no meio do futebol, como um time chato, sempre vende caro suas derrotas e conquista suas vitórias com mérito. Aproveitando o momento que o São Paulo vem de instabilidade, penso que é um jogo que o Atlético tem boas chances de ter um resultado bom, uma vitória. É um time cascudo, é um time de jogadores operários do meio do futebol, porém tem um conjunto muito forte e uma parte física muito equilibrada. O Atlético é muito equilibrado fisicamente. Agora, favorito contra o São Paulo? Não, não dá para o Atlético ser favorito, a história não permite isso. Mas o momento do Atlético é bom, tecnicamente falando.

Fazer um gol em Ceni ficou apenas no sonho

Marcio e Rogerio Ceni se cumprimentam em jogo de 2010 - Ueslei Marcelino/Folhapress - Ueslei Marcelino/Folhapress
Marcio e Rogerio Ceni se cumprimentam em jogo entre São Paulo e Atlético-GO, em 2010
Imagem: Ueslei Marcelino/Folhapress

"Eu não fiz gol nele, respeitei o patrão (risos). Mas ele chegou a fazer um gol em mim de pênalti, se não me engano foi Brasileiro de 2010 [empate em 1 a 1, no Serra Dourada]. Mas eu [quase] tive uma oportunidade contra o São Paulo, em uma cobrança de pênalti, mas eu acabei substituído por uma lesão. Fui substituído e dois minutos depois teve um pênalti a favor da gente [Atlético-GO]. Era a oportunidade de fazer um gol no meu ídolo, mas não tive o prazer de realizar isso, ele deu sorte (risos).

Disputa com ícones gringos por ranking

"O Chilavert tem 67 gols e está em segundo [na lista de goleiros com mais gols na história]. O primeiro é o Rogério Ceni, disparado 131 gols. Em terceiro existe essa dúvida, tem o Higuita. A questão é que o Higuita e o Jorge Campos jogaram na linha, eram jogadores de linha nos times deles também. Então, muitos gols deles foram computados por serem jogadores de linha. Está lá né, vai fazer o que? Segue o jogo (risos)."

Ser goleiro ajuda nas faltas, mas atrapalha nos pênaltis

"É engraçado, nas cobranças de pênaltis me atrapalhava, porque eu pensava: 'ah, ele (goleiro) deve estar pensando dessa forma'. Aí me dava uma confusão e as vezes eu tinha que esquecer que era goleiro na hora de bater o pênalti, tinha que pensar como se fosse jogador de linha. Vou ser sincero, teve momento que eu fui bater o pênalti, mas eu não queria. Eu era o batedor e naquele momento eu não poderia pipocar. Já na falta é legal, ajudava. Eu olhava a posição que ele estava, o jeito, que ele poderia sair um pouco antes e eu colocar no canto dele..."

Gol mais importante

"São três gols, eles são diferentes. O primeiro gol de falta contra o Vila Nova-GO, em 2007, é muito importante porque foi o primeiro gol, num clássico. Ele não foi bonito plasticamente, mas tem um espaço guardado com carinho. Outro que foi muito marcante, foi legal e achei até bonito, foi contra o Grêmio, pela Copa do Brasil [segunda fase, em 2008], lá no antigo Olímpico. Foi bem marcante porque foi a eliminação do Grêmio. O que achei mais bonito foi contra o América-MG, pelo Campeonato Brasileiro de 2011. Todos foram pelo Dragão."

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