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Por que Grêmio e São Paulo puxaram fila da ineficiência no Brasileirão 2021

Torcedores do Grêmio lamentam rebaixamento para a Série B do Brasileirão - ESTADÃO CONTEÚDO
Torcedores do Grêmio lamentam rebaixamento para a Série B do Brasileirão Imagem: ESTADÃO CONTEÚDO

Igor Siqueira

Do UOL, no Rio de Janeiro

11/05/2022 04h00

Classificação e Jogos

Futebol não é ciência exata, mas a lógica de que o dinheiro impulsiona bons resultados é verdadeira — na maioria das vezes. Quando há exceções, elas logo saltam aos olhos. Aconteceu na temporada 2021 do Brasileirão. Com os balanços financeiros publicados e a comparação entre o resultado de campo e as receitas, fica clara a ineficiência de alguns clubes, como Grêmio e São Paulo. No caso dos gaúchos, o preço foi alto, já que o time terminou rebaixado.

A partir das demonstrações financeiras, a consultoria Ernst & Young (EY) colocou em paralelo o ranking de arrecadação e a posição final na Série A. O Grêmio foi o ponto mais fora da curva — negativamente. Como dono da quinta maior receita (R$ 498 milhões), terminou a competição em 17º. Ou seja, 12 posições abaixo daquela na qual apareceria se o critério fosse meramente econômico. No caso do São Paulo, que teve a sexta maior receita total (R$ 476 milhões), o 13º significou estar sete posições abaixo nesse cruzamento de arrecadação x desempenho esportivo.

Fizemos um plantel qualificado e aconteceu. Não tem comparativo aquilo. Estávamos lá, assíduos, permanentes, dando respaldo, mas a bola queimava. Não deu liga".

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio

Mesmo admitindo o ingrediente previsibilidade no futebol, especialistas em gestão esportiva consideram como padrão aceitável uma variação máxima de três posições (para mais ou menos) entre o ranking de receitas e a classificação do campeonato. Receitas maiores normalmente formam times mais fortes. Isso se mostrou verdadeiro no topo da tabela, com Atlético-MG, Flamengo e Palmeiras se revezando nos últimos anos como campeões. Mas essa equação no Brasil não está tão consolidada no meio do pelotão.

"No mercado brasileiro, há clubes com passivos e custos que, por mais que a receita seja maior, não dá para acompanhar a operação. Outro ponto que é diferente no Brasil em relação a outros mercados na Europa é que a fotografia dos clubes que estão no segundo escalão de receitas mostra uma diferença relativamente pequena entre eles. Ou seja, é um mercado muito mais competitivo", pontua Pedro Daniel, diretor executivo da área de esportes da EY Brasil.

Mundialmente, a lei do mais rico fica explícita, por exemplo, no Campeonato Espanhol (com Real Madrid e Barcelona) e, sobretudo, na Alemanha, onde o Bayern de Munique faturou a Bundesliga pela décima vez consecutiva. No Brasil, não há um domínio tão amplo assim, embora a tese de que a Série A tenha dez candidatos ao título se mostre uma furada a cada temporada.

E os emergentes

Ao mesmo tempo, os resultados apontam que tem gente "invadindo" esse segundo escalão brasileiro, citado por Pedro Daniel. Se Grêmio e São Paulo foram ineficientes diante das receitas que tinham em mãos, Fortaleza e América-MG foram na contramão. Com orçamentos menores, ficaram em ótimas posições na tabela e atingiram a Libertadores — cenário que traz receitas com as quais eles não contavam antes, o que ajuda na manutenção nessa prateleira por mais tempo.

O time cearense, por exemplo, teve a 13ª maior receita da elite em 2021 (R$ 175 milhões), mas ficou em quarto, nove posições acima da "lógica". Os mineiros, por sua vez, ficaram em oitavo, mesmo com a 16ª maior receita (R$ 102 milhões).

Por que deu errado

A surpresa positiva teve a ver com bons trabalhos dos técnicos e um elenco que se adaptou e rendeu em campo. Mas entre os ineficientes, qual foi o problema?

"Começamos bem o ano, ganhamos o Gaúcho. Até disputamos a final da Copa do Brasil antes. Mas o Renato saiu após a saída da Libertadores. No início do Brasileirão, com o Tiago Nunes, tivemos um surto de covid e, em oito rodadas, ganhamos apenas dois pontos. Com treinador novo, falta de confiança, muitos jogadores diferentes no time... Isso impactou na campanha e vieram as consequências disso. O pessoal não respondeu mais. A bola passou a queimar. Fizemos uma campanha extremamente irregular que resultou na queda", explicou Romildo Bolzan, presidente do Grêmio.

O relato do dirigente gaúcho sublinha o elemento imponderável que há no futebol, mesmo em um clube saneado e sem atrasos salariais. Agora, na Série B, será preciso reorganização para superar a perda de arrecadação estimada em R$ 80 milhões, pela redução de receita nos direitos de transmissão. Mesmo assim, de novo, o Grêmio se vê entre as receitas mais altas de uma competição e precisa confirmar essa vantagem em campo.

"O Grêmio cumpriu com todo mundo. Foram situações emocionais e de campo. No momento bom, às vezes você investe mal e se dá bem. No momento ruim, às vezes você investe bem e se dá mal. A lógica do futebol passa pelo ambiente também. No nosso caso, quem entrou já entrou na instabilidade. Acontece. E aconteceu tudo isso em uma competição, que foi o Brasileiro", completou Romildo.

O São Paulo chegou a ser campeão estadual, mas terminou Brasileirão 2021 com a sua pior campanha — em número de pontos — na história dos pontos corridos. Em um ano no qual saiu do comando técnico de Hernán Crespo e foi para Rogério Ceni, o tricolor teve o terceiro pior ataque. Com 31 gols, só fez mais do que dois dos rebaixados, Sport (24) e Chapecoense (27).

"No início do ano, pagamos de um curtíssimo prazo R$ 82 milhões de dívidas, algumas pesadas, junto à Fifa, que poderiam trazer consequências trágicas. Fomos campeões paulistas, saímos da fila. Fomos muito mal no Brasileiro e intervimos com uma nova comissão técnica", disse o presidente Júlio Casares, em um vídeo publicado em 31 de dezembro, no qual fez um balanço do primeiro da sua gestão.

Mesmo assim, a temporada 2021 marcou o crescimento da dívida líquida do clube: pulou de R$ 575 milhões para R$ 642 milhões, segundo o critério usado pela EY. Mais do que isso, a operação foi deficitária: o São Paulo fechou o ano com um déficit de R$ 106 milhões, o maior entre os principais clubes do país.

Em um clube que gasta mais do que arrecada, a operação não se sustenta. Pagamentos atrasam e jogadores vão embora, como foi o caso de Daniel Alves. Isso ajuda a explicar como as receitas, por si só, não são sinônimo de sucesso e contas saneadas. O UOL tentou contato com o diretor de futebol do São Paulo, Carlos Belmonte, mas não obteve sucesso.

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