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Campeão com a Portuguesa, goleiro quis deixar futebol após câncer do filho

Thomazella, com o filho Gustavo e a esposa Natália - Arquivo pessoal/Crys Fukuyama
Thomazella, com o filho Gustavo e a esposa Natália Imagem: Arquivo pessoal/Crys Fukuyama

Ana Flávia Oliveira

Do UOL, em São Paulo

20/04/2022 04h00

Eleito melhor goleiro do Paulista A2, Carlos Thomazella ajudou a Portuguesa e conquistar o título da competição, no último domingo (17), e retornar à elite do futebol estadual depois de sete anos. Mas a história poderia ter sido bem diferente. Em novembro de 2021, o filho de Thomazella, Gustavo, então com três anos, foi diagnosticado com linfoma de Burkitt, um tipo raro de câncer no intestino, e o goleiro pensou em pausar a carreira para se dedicar aos cuidados com a saúde do filho. Mas, depois de conversar com a esposa, médicos e diretoria do clube, optou por seguir no futebol. A decisão, por mais difícil que tenha sido, rendeu frutos.

Thomazella e a esposa Natália notaram que algo não estava indo bem com o filho em novembro do ano passado. "Ele já vinha reclamando de cólica um mês antes. A gente fez todos os exames, inclusive de imagens, mas nada foi detectado. Ele estava com suspeita de intolerância a lactose ou verme. O pediatra começou a fazer o acompanhamento necessário, com as medicações. Depois que começou o tratamento, o meu filho não reclamou mais de dor. Mas, no dia 8 de novembro, um domingo, ele começou a sentir fortes dores abdominais, e eu percebi uma bolinha na barriga dele. Achei estranho, e a gente correu para o pediatra", contou o goleiro ao UOL.

Goleiro Thomazella e o filho Gustavo, que luta contra um câncer raro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Goleiro Thomazella e o filho Gustavo, que luta contra um câncer raro
Imagem: Arquivo pessoal

Nos exames, os médicos diagnosticaram uma invaginação intestinal (obstrução na qual uma parte do intestino se dobra e entra nele mesmo), e o garoto foi submetido a uma cirurgia de emergência. O câncer, diz Thomazella, só foi descoberto na mesa cirúrgica.

"Quando o médico o abriu para fazer a cirurgia, viu que tinha um tumor que já estava do tamanho de um pêssego", diz o goleiro. O jogador explicou que a biopsia constatou que o tumor era maligno, e o menino precisaria ser submetido a tratamento quimioterápico, que tem duração inicial de 26 semanas.

Depois da cirurgia, Gustavo ficou 22 dias internado —12 deles na UTI—, e nesse período foi submetido a altas doses de quimioterapia.

"Para nós, foi um choque, um baque, porque a gente não esperava. A gente foi [ao hospital] para fazer uma cirurgia e já foi em estado de um choque por ser em uma criança de 3 anos, um filho. A gente nunca tinha escutado falar sobre essa invaginação intestinal, então, era tudo muito novo para nós. Quando recebemos a notícia de que era um tumor, parece que a gente perdeu o chão... Ficamos muito abalados, sem saber o que fazer. É inevitável, o primeiro pensamento que vem na cabeça é sempre o pior", detalhou Thomazella.

Pausa na carreira

Quando o filho foi operado, Thomazella estava de férias e pôde acompanhar toda a internação de Gustavo. Com a reapresentação à Portuguesa marcada para 6 de dezembro, ele cogitou pausar a carreira para se dedicar inteiramente à saúde do filho.

"Eu tive uma conversa muito séria com minha esposa. No princípio, eu estava pensando em dar uma pausa na carreira para ficar ao lado deles [esposa e filho], para ajudar de melhor forma possível", contou o goleiro. "Mas a gente conversando nesse tempo de férias, conseguiu ver a evolução do Gustavo. Os médicos e enfermeiros falaram que a evolução dele estava muito boa, que nunca tinham visto uma criança tão forte quanto ele, que o quadro dele era o melhor possível. Então tudo isso foi fazendo com que eu mudasse um pouco de opinião", disse

Thomazella explicou que o fato de ele jogar em clube de São Paulo, mesma cidade onde o filho ficou internado, a esposa ter decidido parar de trabalhar e a compreensão do clube o deixaram tranquilo para se dedicar ao futebol.

"Conversei com o pessoal do clube, eles foram bem flexíveis. 'Thomazella, se você precisar faltar em algum treino para ir para o hospital com seu filho, não tem problema nenhum. Só avisar a gente antes.' Então tudo isso fez com que eu me sentisse mais seguro a voltar, tivesse a cabeça um pouco mais tranquila e voltasse para o futebol."

Ao optar por não pausar a carreira, Thomazella, que foi titular em 20 dos 21 jogos da Portuguesa no Paulista A2, foi recompensado com o título e com o prêmio de melhor goleiro da competição, com apenas sete gols sofridos.

Thomazella ganhou o prêmio de melhor goleiro do Paulista A2 - Rodrigo Corsi/FPF - Rodrigo Corsi/FPF
Thomazella ganhou o prêmio de melhor goleiro do Paulista A2
Imagem: Rodrigo Corsi/FPF

Carinho da torcida

Thomazella decidiu falar publicamente sobre o drama dentro de casa quase três meses depois da cirurgia do filho, no início de fevereiro, após a vitória de 1 a 0 sobre a Lemense, na quarta rodada da competição. Ao se abrir sobre seus problemas, foi rapidamente abraçado pela torcida da Portuguesa, que levou até faixas ao estádio, desejando "força" ao goleiro e à família dele.

"A torcida me abraçou de uma forma inexplicável. Depois desse dia que eu divulguei, fomos jogar com o São Caetano, em casa, e já tinha faixas no estádio, mandando força para mim, para o meu filho Gustavo, e eles gritando o nome dele. Para mim, aquilo ali foi uma surpresa muito grande. O carinho com que eles abraçaram a causa, as correntes de orações e as inúmeras mensagens que eu estava recebendo de torcedores... A gente criou um vínculo muito bacana dentro de campo e fora também com essa situação do meu filho. É um carinho imenso que tenho com essa torcida, que só tem nos apoiado, dado força para mim e para minha família."

Sonho realizado

Gustavo, filho do goleiro Carlos Thomazella, no estádio do Canindé - Arquivo pessoal/Crys Fukuyama - Arquivo pessoal/Crys Fukuyama
Gustavo, filho do goleiro Carlos Thomazella, no estádio do Canindé
Imagem: Arquivo pessoal/Crys Fukuyama

Entrar com Gustavo no colo e apresentá-lo à torcida na vitória de 2 a 0 sobre o São Bento, que deu o título da Série A2 do Paulista à Portuguesa, foi a realização de um sonho. Em entrevista após o jogo da quarta rodada da competição, Thomazella disse que sonhou com a situação que viveu no último domingo.

Ao UOL, ele tentou descrever o que sentiu no último fim de semana. "Foi um misto de sensações. É difícil dizer em palavras. A ficha ainda não caiu. Você tem um acesso e ser coroado com o título com essa camisa da Portuguesa tradicional, tão pesada, dentro do futebol é demais. Tem uma grande importância, e eu vivendo um sonho. Ainda nesta competição, eu acabei revelando que eu tive um sonho de entrar com meu filho e poder dar esse troféu na final e ver aquilo se tornando palpável, sendo realizado, foi um misto de sensações que é impossível descrever".

Mas, para entrar em campo com Gustavo, que completou 4 anos em janeiro, Thomazella precisou de uma autorização especial dos médicos, já que o garoto ainda está em tratamento contra o câncer e tem a imunidade baixa. "É obvio que se os médicos falassem que ele não poderia ir, eu jamais iria questionar. Mas a gente teve o aval dos médicos. Mas sempre tomando cuidado de ficar de máscara o tempo todo e tentar ficar um pouco isolado".

Não pense que foi fácil, porém, segurar o menino, que ficou empolgado ao ver a torcida cantando seu nome e a festa pelo título. "Foi um momento muito marcante. Todo mundo começou a gritar o nome dele. Ele olhou com uma cara assim, de quem não estava acreditando. 'Nossa é para mim que eles estão gritando?!' Ele ficou muito feliz, muito feliz. Ainda hoje [segunda-feira] à tarde, eu estava brincando com ele, e ele começou a repetir a música que o pessoal estava cantando", disse se referindo ao refrão "Ão, ão, ão Gustavinho é Leão".

A previsão é que a primeira fase do tratamento do garoto, em que as sessões de quimioterapia são semanais, termine no meio deste ano. Depois, as aplicações do medicamento passam a ser mais espaçadas até não serem mais necessárias. Mas, a depender da empolgação de Gustavinho, da atenção dos pais e do carinho dos torcedores da Portuguesa, o câncer já foi derrotado na família Thomazella.

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