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Palmeiras Fascista? Mestre pela USP derruba mito e escreve livro sobre tema

Palmeiras joga pela primeira vez com seu novo nome, na Arrancada Heroica, em 1942 - Reprodução
Palmeiras joga pela primeira vez com seu novo nome, na Arrancada Heroica, em 1942 Imagem: Reprodução

Diego Iwata Lima

Do UOL, em São Paulo

19/01/2022 08h27

Foi ainda em 2017 que o historiador Micael Zaramella, 30, participou do processo de seleção para o mestrado em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Já naquela época, havia nele uma inquietação sobre como o público em geral enxergava a torcida do Palmeiras no que diz respeito ao seu ideário político.

Como se previsse o que viria no ano seguinte, Zaramella, próximo a coletivos palmeirenses de esquerda como Palmeiras Sinistro, Palmeiras Antifascista, Porcomunas e Ocupa Palestra, entre outros, entendia haver uma falaciosa associação do Palmeiras com o fascismo.

Falácia que ganhou contornos sólidos e renascidos a partir de 2018, quando Felipe Melo declarou apoio ao então candidato Jair Bolsonaro, associado a ideias difusas de fascismo. E que chegou ao ápice no jogo de entrega da taça do Campeonato Brasileiro daquele ano, do qual o já então presidente eleito participou, durante o cerimonial de premiação.

"Todo aquele contexto político foi aquecendo uma discussão entre os torcedores", disse Micael, ao UOL Esporte. "E o que acontecia no presente, de certo modo ajudava a entender o que havia acontecido lá atrás", completou.

Inicialmente, Micael queria identificar manifestações de militância política dentro do Palestra Italia, nome do Palmeiras antes de 1942, quando o clube foi obrigado a se rebatizar em razão da Segunda Guerra Mundial. Mas à medida que a pesquisa avançou, o historiador encontrou seu tema mais centrado na disputa sem vencedores que existia dentro do clube entre fascistas e antifascistas.

"Ao longo do tempo, houve diretorias mais ou menos fascistas ou antifascistas. Mas o que fica claro nas pesquisas é que diferentemente de outras entidades fundadas por italianos no País, como o jornal 'Fanfulla', que trouxe o anúncio com a convocação para a fundação do clube em 1914, o Palestra Itália/ Palmeiras jamais se oficializou como sendo de um lado ou de outro", explica o autor.

E assim nasceu a dissertação "O Palestra Itália em Disputa: Fascismo, Antifascismo e Futebol em São Paulo (1923-1945)". A dissertação de 199 páginas foi não só aprovada pela banca no segundo semestre do ano passado, bem como vai se tornar um livro que deve ser publicado ainda em 2022.

Nem para um lado, nem para o outro

m - Getty Images - Getty Images
Hitler e Mussolini fazendo saudação nazi-fascista, em foto de 1938; para pesquisador do fascismo, o maior perigo atual é 'a democracia que se suicida'
Imagem: Getty Images

O período pesquisado por Zaramela compreende os 23 anos entre a fundação do Fascio di São Paulo, uma organização criada por imigrantes para difusão da doutrina fascista italiana, e o fim da Segunda Guerra. E, ao avaliar o período, o pesquisador chegou à conclusão que o Palestra Italia, posteriormente Palmeiras, era tão fascista quanto antifascistas. Em outras palavras, o clube jamais oficializou-se como expoente de qualquer dos lados, mas teve elementos de ambos.

"O antifascismo do Palestra apareceu quando eu comecei a manusear jornais antifascistas de italianos em São Paulo na década de 1920 e 1930, no qual o Palestra aparecia citado. Mas o clube também aparecia em jornais assumidamente fascistas da época, como o 'Mosconi', por exemplo, que era editado por Vincenzo Ragognetti, um dos fundadores do Palestra", conta Micael.

Na visão do historiador, o fato de o Palmeiras ter sido fundado por italianos já o colocava sob "suspeita" de fascismo. "É importante lembrar que [Benito] Mussolini fez enormes esforços na sua política externa para que o fascismo se tornasse um sinônimo de italianidade no mundo todo. Era uma política de Estado", explica.

Desse modo, até por pertencimento e em busca de proteção e senso de coletividade em uma terra desconhecida, muitos italianos se declaravam fascistas sem que isso tivesse necessariamente uma questão ideológica envolvida.

"Esse fascismo era um fascismo difuso, sem muita unidade de pensamento", explica Micael. "Tinha muito mais a ver com ser italiano do que com concordar com a ideologia. A prova disso é que os documentos da época mostram que havia fascistas em outros clubes. Como no Corinthians, que também contava com muitos italianos como sócios", diz o historiador.

"É importante lembrar que os italianos sofriam um preconceito da sociedade naquela época, de modo que se agrupar em entidades italianas era um modo de dar uma resposta aos brasileiros. E isso certamente exacerbou esse processo de disseminação desse fascismo", diz Micael.

"No Palestra, os dois grupos, fascistas e antifascistas, se encontravam e disputavam território. Houve, por exemplo, protestos em jornais para que um quadro com a foto de Mussolini ficasse exposto na sede social do clube. E isso fez com o que os antifascistas protestassem de modo contrário. E tal exposição nunca aconteceu", exemplifica Zaramella.

Palestra acima de tudo

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Time do Palestra Itália, campeão paulista de 1933
Imagem: Arquivo/Agência Estado

Contudo, e isso algo muito tocante ao palmeirense que tem contato com a obra, o senso de palestrinidade sempre se sobrepôs às disputas ideológicas no seio do clube.

"Eram pessoas que poderiam divergir ideologicamente, mas que tinham em comum o sentimento pelo Palestra. Então, havia a divergência, mas havia também o encontro para jantar ou para torcer pelo time de futebol, por exemplo", conta o autor.

Há, por exemplo, uma passagem do fascista Ragognetti, que se insurgiu contra um cônsul da Itália. Em visita a São Paulo, ele fez com que um Palestra x Corinthians tivesse de ser adiado.

"O Ragognetti escreveu um editorial indignado com o fato de que aquela visita oficial de um 'graúdo' do governo fascista da Itália impediria o Dérbi de acontecer", conta.

Em 1942, o Palestra se torna Palmeiras

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Torcida do Palmeiras lota as ruas nos arredores do Allianz Parque para ver a final da Libertadores 2021
Imagem: EFE/Sebastiao Moreira

A detalhada e cuidadosa pesquisa se encerra justamente no ano seguinte à troca de nome do Palestra para Palmeiras, no episódio que ficou conhecido como Arrancada Heroica, em 20 de setembro de 1942.

"Porque ali, qualquer elemento mais forte de fascismo começou a se esvair", diz Micael. "O Palmeiras começou a se distanciar um pouco de sua italianidade para se tornar cada vez mais brasileiro", diz o autor. "E isso fez com que os palmeirenses começam a ganhar os contornos que têm hoje", diz.

Por fim, a obra de Micael Zaramella deixa claro que existiram sim simpatizantes fascistas no Palestra Italia desde sua ata de fundação. Mas que também sempre houve quem se opusesse a esse movimento.

"Do mesmo modo que sim, em 2018, houve uma associação muito forte do Palmeiras com o Bolsonaro, até por tudo que aconteceu. E do mesmo modo, o Palmeiras não é um clube bolsonarista, pois sempre houve quem combatesse esse movimento", diz Micael.

"O Palmeiras é de todos e todas. Houve esse episódio do Bolsonaro, mas o Palmeiras não é só daquelas pessoas que aplaudiram o presidente. O clube é de italianos, mas é de indígenas, por exemplo, como a gente viu na campanha de lançamento da camisa do clube em 2020", diz ele.

"O Palmeiras pertence aos elementos das diversas etnias e pensamentos que compõem a população brasileira. Tentar reduzir um clube de 18 milhões de torcedores a um tipo só de pensamento é desonesto. Como também é desonesto afirmar que o Palestra era fascista", conclui Zaramella.