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Como uma batida de limão salvou Pelé de vexame em dueto com Elis Regina

Elis Regina e Pelé gravaram duas músicas para o compacto "Tabelinha" - reprodução/Tabelinha
Elis Regina e Pelé gravaram duas músicas para o compacto "Tabelinha" Imagem: reprodução/Tabelinha

Daniel Servidio

Do UOL, em São Paulo

19/01/2022 04h00

O dia 31 de agosto de 1969 é histórico para o futebol brasileiro. Naquele domingo, no Maracanã, quase 200 mil pessoas (183.341 pagantes) viram a classificação do Brasil para a Copa do Mundo de 1970. A seleção brasileira, comandada por João Saldanha, venceu o Paraguai por 1 a 0, com gol de Pelé, aos 23 minutos do segundo tempo, e garantiu a vaga para a competição que daria o tricampeonato mundial ao Brasil.

Enquanto os jogadores e a torcida comemoravam a vitória, aliviados após um jogo mais difícil do que o esperado, Pelé, ansioso, queria ir embora do estádio. "Assim que o juiz apitou o fim do jogo, Pelé saiu correndo para os vestiários, sem esperar para cumprimentar os jogadores adversários. Quando viu que não ia conseguir sair depressa do campo, conversou rapidamente com Brito, que lhe tirou a camisa e desceu com ela para os vestiários. Pelé estava com raiva, não queria dá-la aos paraguaios", descreveu o Estadão de 2 de setembro de 1969.

O motivo para a pressa do Rei, porém, não era só futebol: ele tinha um compromisso com Elis Regina —que morreu há exatos 40 anos, em 19 de janeiro de 1982. No mesmo dia em que fez o gol da classificação do Brasil ao Mundial do México, Pelé cantou com Elis no compacto "Tabelinha", de duas músicas, ambas compostas por ele: "Perdão, não tem" e "Vexamão".

Junção de dois ídolos

A ligação do Rei do Futebol com a música é forte. Ele apareceu várias vezes tocando violão e gostava de compor. Foi em uma excursão do Santos pela Europa, ainda em 1969, que ele escreveu uma das faixas gravadas com Elis Regina.

Quando você chegou, foi recebida de braços abertos
Jurava me dar amor, ser boazinha e não falar em ir embora.
Agora, depois de tanto tempo, quer partir, sem dizer qual a razão.
Não vá, meu bem, porque, depois, perdão, não tem

Trecho de "Perdão, não tem"

A ideia de juntar Pelé e Elis foi de Roberto Menescal, um dos fundadores da bossa nova. Na época, ele era diretor artístico da PolyGram. Em um encontro entre o Rei e Elis, ele contou que compunha e que queria lhe mostrar algumas músicas. A cantora o convidou para sua casa —segundo Menescal, o convite foi despretensioso.

"Ela falou: 'Ah, vai me mostrar, um dia você me mostra...'. Era um daqueles convites que não é nem para ir. Mas Pelé disse que iria mesmo. Foi uma coisa casual", contou Menescal, ao UOL. Quando os dois finalmente combinaram a data, Elis ligou a Menescal e pediu que ele estivesse junto para escutar as músicas.

"O Pelé chegou muito simpático, se via que era muito fã da Elis, e a Elis também era muito fã dele. Foi um encontro muito bacana. Ele mostrou as canções. Não eram aquela coisa... não eram super músicas", falou Menescal. "Era uma coisa simples, mas bonitinha. Ele estava tocando violão, muito inibido".

Roberto Menescal, então, propôs: "Por que a gente não grava uma coisa de vocês dois cantando?" A ideia, inicialmente, foi recusada. "Eu não sou cantor", justificou Pelé. Depois de alguns argumentos, Menescal convenceu os dois. Ao sugerir a data, porém, ouviu do camisa 10: "Pô, mas nesse dia tem jogo do Brasil".

Roberto Menescal - Quinho Mibach/Divulgação - Quinho Mibach/Divulgação
Roberto Menescal
Imagem: Quinho Mibach/Divulgação

"Te busco no Maracanã"

Empolgado com a possibilidade de juntar Pelé e Elis em um compacto no primeiro trabalho pela PolyGram, Menescal combinou de buscar Pelé no Maracanã, palco do jogo, e levá-lo a Ipanema, no apartamento de um amigo, onde fariam a gravação tranquilos, sem a badalação de um estúdio normal.

O diretor, sob influência de Pelé, pôde assistir à partida de dentro do gramado, para que saíssem o mais rápido possível, assim que o juiz apitasse. "Quando o Brasil ganhou, os jogadores fizeram uma volta pelo campo, com a torcida aplaudindo. Eu, com pressa para pegar Pelé, corri junto com eles".

Ao encontrar com o herói da vitória, porém, veio a surpresa: de tanto gritar na partida contra os paraguaios, Pelé estava sem voz. "Não dá, eu não consigo nem falar", disse Pelé. "A gente dá um jeito", retrucou Menescal, enquanto o levava para o carro, depois de apenas um banho rápido.

Enquanto isso, no apartamento onde aconteceria a gravação, um rádio ligado no jogo da seleção e um clima de apreensão tomavam conta do ambiente. O produtor musical João Marcello Bôscoli, filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli, ouviu histórias sobre o susto que foi ver o astro do futebol chegar para gravar.

"Havia uma dúvida se ele iria ou não. Diziam: 'Ah, hoje é jogo da seleção. Não vai vir, é o Pelé, na última hora vai dizer que não pode, vai remarcar'. Tinha alguém ouvindo o jogo pelo rádio e disse: 'O homem vem, saiu rápido'. E ele chegou", disse João Marcello ao UOL.

Tomando limão, o Rei virou criança

Pelé chegou ao apartamento ainda sem voz. A solução foi dar uma espécie de batida de limão ao jogador. "Ele dizia que não sabia como ia fazer. Demos o limão, e, depois de algum tempo, a voz abriu. Não ficou muito boa, mas quebrou o galho. Depois, no estúdio, limpei algumas frequências e melhorou bastante", relembrou Menescal.

Além da falta de voz, Pelé precisou enfrentar o nervosismo de cantar diante de uma das maiores vozes que o país já ouviu. "Ele parecia uma criança. O grande Pelé, grande ídolo, ficou frágil. Ele estava muito nervoso. O ídolo virou uma criança nervosa".

Enquanto Pelé cantava desafinado e sem jeito, Elis Regina era só risada de toda a situação. "Ela teve dificuldade para gravar, porque não conseguia parar de rir. Era uma grande farra, uma grande brincadeira. Não era algo como um projeto musical", falou João Marcello. "Tem relatos de que ela também estava emocionada por estar com Pelé".

O clima descontraído que Elis Regina levou ao estúdio improvisado é retratado no compacto. Para "driblar" as risadas da cantora, Menescal teve a ideia de gravar as brincadeiras de Elis e deixá-las nas músicas. Em "Perdão, não tem", que fala sobre amor, é possível ouvir a Pimentinha dizer a Pelé que ele "fez a música enquanto estava com dor de cotovelo".

"O que está impresso na gravação foi mesmo o que rolou no dia. Tem aquele jeito meio maroto do Pelé, meio tímido, e levemente desafinado", falou João Marcello Bôscoli. "Eu deixei o clima todo. Não era gravação daquelas músicas, era o encontro dos dois, dois craques. Deixa tudo, deixa falando, deixa brincando", completou Menescal.

A faixa "Vexamão" é mais descontraída. Na letra, também escrita por Pelé, ele tira sarro de si mesmo como cantor e dos puxa-sacos que o elogiavam. É possível ouvir Elis Regina rir e se divertir durante quase toda a faixa.

Eu, todo desajeitado, cantando tudo errado, sem saber como parar.
Foi um tremendo de um vexame
Mas o engraçado é que eu cantava errado e os puxa achavam bom"

Trecho de "Vexamão"

"Pelé estava mais nervoso com a gravação do que com o jogo. Foi bacana. É um encontro que não se pode deixar de registrar, coisas da vida. Foi bom", resumiu Roberto Menescal. O compacto foi lançado pouco antes da Copa do Mundo de 1970. Além do Brasil, o "Tabelinha" foi lançado no México, onde, segundo Menescal, fez certo sucesso e vendeu bem.

A promessa de Elis ao Rei

João Marcelo Bôscoli - Divulgação - Divulgação
João Marcelo Bôscoli: Elis prometeu a Carlos Alberto e a Pelé que nome do filho seria uma homenagem. Depois, esqueceu
Imagem: Divulgação

João Marcello Bôscoli conviveu com a mãe, Elis Regina, durante 11 anos, seis meses e 19 dias. Ao UOL, o produtor musical, que em 2019 lançou um livro de memórias sobre a relação com a cantora, contou que Elis, pouco antes da Copa de 70, fez uma promessa ao Rei: se o Brasil fosse campeão, João Marcello se chamaria Edson.

O problema é que a cantora fez uma promessa parecida a Carlos Alberto Torres, capitão da seleção, que era amigo de Ronaldo Bôscoli, pai de João: se o Brasil fosse campeão e o Capita fizesse o último gol da Copa, João Marcello se chamaria Carlos Alberto.

Em junho de 1970, o Brasil foi campeão mundial, e na final, na vitória sobre a Itália por 4 a 1, o último gol foi marcado por Carlos Alberto Torres, com passe de Pelé. Tudo se concretizou, menos as promessas.

João Marcello nasceu quatro dias antes da decisão da Copa do Mundo. Algum tempo depois da conquista, Carlos Alberto Torres foi visitar a criança, levando um lustre mexicano de presente. Coube a Ronaldo Bôscoli explicar ao amigo que Elis se esqueceu da promessa.

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