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Futebol brasileiro chega a 2022 com troca de guarda consolidada na elite

Jeremias Wernek e Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

03/01/2022 04h00

A era dos grandes clubes ficou para trás? É uma pergunta difícil de ser respondida no Brasil. Mas, um movimento dos últimos anos indica uma passagem bastão entre os mais tradicionais e novos postulantes às glórias.

Na última edição do Brasileirão, por exemplo, equipes como Fortaleza, Red Bull Bragantino e América-MG conquistaram vaga na Libertadores. Bahia, Grêmio e Sport, com títulos importantes no currículo, foram rebaixados. Equipes como Vasco e Cruzeiro não conseguiram voltar à elite.

Levando em conta o extinto Clube dos 13 —que chegou a ter 20 membros—, 2022 será o segundo ano consecutivo em que quase a metade desse grupo está fora da Série A. E esse é um movimento que foi se consolidando gradativamente na última década, para apresentar hoje uma nova realidade que vamos tentar entender.

Clube dos 13 x Série A - Arte UOL - Arte UOL
Membros do extinto Clube dos 13 ausentes na Série A
Imagem: Arte UOL

Gestão é a chave

O UOL Esporte buscou opiniões de especialistas. Para Fernando Ferreira, analista de marketing esportivo da Pluri Consultoria, o cenário pode se explicar mais pela gestão dos clubes do que por qualquer outro processo:

Essas duas temporadas recentes mostram, de forma bem visível, um processo longo de ataque ao protagonismo. Os 12 clubes mais famosos do país vão seguir famosos, mas no final o que conta é a capacidade de competir em campo a longo prazo. E esse ponto é o que mostra claramente a mudança. Você pega, de maneira geral, a força se abrindo. Se expandindo."

"Os clubes emergentes estão ocupando espaço intermediário. Ainda não atacam o topo da pirâmide, mas tem o caso do Red Bull Bragantino. Me parece que ele vai atacar o topo da pirâmide em algum momento a curto prazo. Os outros, tenho dúvida se vão se sustentar por muito tempo. O modelo associativo tem o vírus inoculado: alternância grande de poder. Essa alternância traz problemas enormes. Ceará e Fortaleza estão bem, mas os gestores podem não estar mais lá daqui dois ou três anos. A indefinição do futuro é o maior risco. Não dá para dizer quem vai ser o novo protagonista ali na frente", completou Ferreira.

A formação de clubes-empresa com a SAF (Sociedade Anônima do Futebol) começa a criar um novo entendimento no mercado também. É uma transição que pode exercer influência importante nesse ecossistema.

"Os clubes emergentes estão com gestão aprimorada. Eles têm processos, sistemas de gestão. Criaram processos de avaliação de jogador e de trabalho. Melhoraram estrutura. O Fortaleza tem orçamento inferior a R$ 150 milhões e bate de frente com grandes orçamentos. Clubes tradicionais, com receitas enormes, investem em nomes consagrados e em declínio técnico. São várias coisas", afirmou o ex-presidente do Inter e ex-vice-presidente do Clube dos 13, Fernando Carvalho.

"A SAF vai dar sequência maior ainda, vai consolidar a ideia de gestão. E vão sofrer menos pressão, pois serão profissionais. O América-MG é um exemplo de gestão que vem dando certo", completou.

Ronaldo no Cruzeiro - Divulgação XP - Divulgação XP
Compra do Cruzeiro por Ronaldo chamou atenção para a criação das SAFs
Imagem: Divulgação XP

A lista de rebaixados vai aumentar...

Para Carvalho, caso a gestão dos clubes não mude, tornando os processos profissionais, com dirigentes remunerados e especialistas em suas áreas, a queda de clubes grandes deve seguir acontecendo.

"Se a gestão de alguns clubes continuar do mesmo jeito, acho que veremos mais clubes grandes caírem. Clubes que estão sem dinheiro, com dificuldades financeiras, precisam agir de acordo com o cenário. Acenar para o torcedor, consumidor, essa realidade. O protagonismo no departamento de futebol deve ser cada vez mais do profissional, do executivo. Do dirigente qualificado para a função", explicou.

Ferreira concorda que os clubes devem se profissionalizar, mas também atacar suas dívidas e entender a possibilidade de parcerias para o futuro.

"O Bragantino tem gestão estável. Tudo que a parceira se mete, faz bem. Eles vão ter perenidade. Tem investimento, receitas. Eles não têm torcida? Pois é, mas bem-vindo ao novo mundo. Podem ter fã e, não, torcida. É um processo longo. O hiper-endividamento dos clubes brasileiros é uma trajetória de décadas", contou.

O que foi o Clube dos 13

  • Fundadores: Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Palmeiras, Inter, São Paulo, Santos, Vasco;
  • Entraram em 1997: Sport, Coritiba e Goiás;
  • Entraram em 1999: Athletico Paranaense, Guarani, Vitória e Portuguesa;

Oficialmente chamado de União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro, o Clube dos 13 foi fundado em 1987 e tinha sede em Porto Alegre. Inicialmente, era uma organização que cuidaria dos interesses comerciais e políticos dos clubes de futebol. Sua formação original tinha os 13 primeiros colocados no ranking da CBF. Posteriormente outros clubes foram agregados, chegando a 20 representantes quando se encerrou, em 2011.

Resumidamente, o Clube dos 13 negociava os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro, e ainda era responsável por dialogar com a CBF sobre formato de disputa e calendário da competição.

Sua figura mais marcante foi o presidente Fábio André Koff, que regia a entidade. Ex-presidente do Grêmio, que morreu em 2018, manteve o comando da União de 1995 até o rompimento.

O Clube dos 13 ruiu em 2011, num momento de desgaste entre os associados —leia-se rivais—, sucedido por uma articulação que envolveu o comando da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). O Corinthians foi o primeiro a sair, e a partir daí as cartas foram caindo numa implosão. Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Santos, Vitória, Sport, Bahia, Goiás, Bahia, Coritiba e Cruzeiro, um por um, se desfiliaram.

"Não vejo reflexo do fim do Clube dos 13 no cenário atual. O Clube dos 13 era uma proteção, digamos assim. Mesmo o clube rebaixado tinha cota igual, basicamente", disse Carvalho.

"O Clube dos 13 não tinha mais motivo para existir naquele momento. É triste que o C13 tenha sido implodido e não reformulado. Ele foi absolutamente revolucionário quando surgiu, mas depois virou um 'cartório'. Não acontecia nada ali. Mas o fim do Clube dos 13 foi o fim de uma entidade pronta, onde os clubes poderiam discutir e transformar a entidade em algo para discutir interesses comuns. Quem manda no futebol é a Fifa e toda cadeia de comando, com CBF, federações... E quem disputa são os clubes, sem eles não há campeonato. É justo e legítimo que eles se articulem em conjunto e exijam direitos", opinou Ferreira.

E a Lei do Mandante?

Em setembro de 2021, o Projeto de Lei 2.336/21, também conhecido como Lei do Mandante, foi sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro. A partir dele, os clubes mandantes dos jogos podem negociar livremente a transmissão das partidas, mesmo que o visitante tenha contrato com outra empresa de comunicação. Antes, os jogos só eram transmitidos caso ambos os clubes possuíssem contrato com a mesma empresa.

A alteração não irá romper com contratos já firmados. Portanto, a maioria dos clubes da Série A não será afetada pela nova realidade de negociação de direitos de TV imediatamente. Mas, a longo prazo, o cenário é negativo, na avaliação de Fernando Ferreira.

"A Lei do Mandante é o agente da destruição e não agente transformador do futebol brasileiro. Nós estamos sentindo os efeitos nocivos da Lei do Mandante", disse. "Todo mundo entrou em uma retórica do Flamengo, que a Lei do Mandante existe em todo lugar do mundo... Por que esse negócio é um enorme risco? O futebol brasileiro tem uma característica básica: não temos liga, associação. Lá fora, tem negociação em bloco. Tenho muito receio do que a Lei do Mandante pode acarretar. Se os clubes negociarem em bloco, vão ganhar dinheiro. Se for individual, vai ser o jogo de quem estiver do outro lado da mesa", previu.

Para Carvalho, mais uma vez se fará necessária a profissionalização nos clubes. Caberá às diretorias darem atenção ao novo ambiente e contratarem profissionais especializados para o tema dos direitos de TV.

"Esse mercado [TV] sempre foi negociado sem ter noção do valor. Quem vendia, vendia sem saber o valor. Quem comprava, sabia o que estava comprando. Agora, este mercado de streaming e TV fechada? A TV aberta vai praticamente terminar. O cardápio vai tomar conta. Detecto uma oportunidade grande aí. Se os clubes tiverem pessoas especialistas, com pesquisa e experiência no segmento, há oportunidade de receita grande", finalizou.