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Copa 90

Lazaroni, Maradona e uma seleção (talvez) injustiçada


Copa 90: Dupla Bebeto e Romário seria trio em esquema frustrado de Lazaroni

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

02/12/2021 04h00

Sebastião Lazaroni ganhou fama de retranqueiro por apostar em dois atacantes, e não três, na seleção brasileira de 1989 e 1990. Só que nada é tão preto no branco como conta, em lamúrias, a maior parte dos torcedores que vivenciaram o período.

O segundo episódio do documentário Copa 90, produzido por MOV e UOL Esporte, traz detalhes do que aconteceu em uma das seleções mais criticadas de todos os tempos. Lazaroni, Romário, Silas e os zagueiros Mauro Galvão e Ricardo Rocha relembram a bagunçada estrutura que segurava o time.

O esquema 3-5-2, explorado pelos times europeus e pelas principais seleções pelo mundo, foi adotado pelo técnico, mas não funcionou. Lazaroni explica no documentário que o trio de atacantes seria formado por Bebeto, Romário e Careca —e o primeiro teste desse formato aconteceu na primeira partida do Brasil pelas Eliminatórias da Copa.

"O Brasil saiu jogando com três atacantes, Bebeto, Romário e Careca. Mas o primeiro tempo não foi agradável, não houve entrosamento de imediato", relembra Lazaroni. O jornalista Luciano Borges continua: "Os três não se entendiam. Lazaroni foi para o vestiário, no intervalo, dizendo que eles precisavam se entender, que não era possível não dar liga. O Careca, então, reclamou que os dois não tocavam a bola para ele. No segundo tempo, o negócio continuou sem andar. Depois de alguns minutos, Lazaroni coloca o Silas na meia e tira o Careca. Aí Bebeto e Romário desataram a fazer gols, fizeram três gols e o Brasil ganhou por 4 a 0".

Borges comenta que, ao fim daquele dia, encontrou Careca no corredor do hotel em que a seleção estava hospedada e os dois falaram sobre a mudança de última hora feita pelo técnico. O atacante não gostou nem um pouco:

"Com esses filhos da p*ta, eu não jogo mais."

O ditado boleiro diz que não se mexe em time que está ganhando. As dificuldades do 3-5-2 também apareciam na zaga, uma vez que Mauro Galvão e Ricardo Rocha estavam habituados a marcar em zona, e também não se adaptaram às mudanças na defesa.

À época, era esse o esquema tático da moda na Europa, e Lazaroni se tornou um dos técnicos mais criticados da história da seleção brasileira por não ter conseguido executá-lo. As críticas em cima dele, como mostra o segundo episódio do documentário, eram diversas.

Na Copa América de 1989, o Brasil quebrou um jejum de 39 anos sem vencer o torneio —e foi a criticada seleção que conquistou o feito. Ainda assim, ao jogar na Arena Fonte Nova, na Bahia, o grupo foi vaiado —e um torcedor acertou um ovo em Renato Gaúcho enquanto ele entrava em campo.

O motivo? A ausência de Charles, craque do Bahia, na seleção. Lazaroni já havia convocado o centroavante, mas com os cortes necessários para o campeonato — o treinador só pôde levar 18 jogadores, e não 22 — o ídolo ficou de fora. Os torcedores baianos ficaram furiosos. Durante a partida em Salvador, também contra a Venezuela, teve até bandeira brasileira queimada.

Sobre um gramado tenebroso, o time de Lazaroni venceu a Venezuela por 3 a 1. O sucesso nos jogos seguintes fez com que o elenco mais subjugado da história quebrasse o tal jejum de quase quatro décadas. Não foi suficiente para que as críticas amenizassem. O Brasil não venceu a Copa do Mundo, e era o que importava. Ainda é.