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Quem é o técnico alemão que fez história no ES e busca seguir no Brasil

Técnico Andre Visser, que comandou o Rio Branco-ES - Reprodução/Instagram
Técnico Andre Visser, que comandou o Rio Branco-ES Imagem: Reprodução/Instagram

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

01/12/2021 04h00

No último sábado (27), o português Abel Ferreira conquistou a Libertadores pelo Palmeiras. Mas não é apenas na elite que europeus atingem objetivos relevantes nos clubes brasileiros. Andre Visser é prova disso. O alemão ostenta feito importante na única oportunidade que teve como técnico no Brasil.

Filho de mãe brasileira e pai alemão, Visser teve a vida dividida entre os dois países. Nascido e criado na Alemanha, ele passava férias no Brasil todos os anos desde a infância. Na Europa, iniciou trajetória como goleiro e atuou em clubes da quarta divisão alemã, sem chegar à elite.

Após quase desistir da carreira, veio a chance de jogar em Portugal, onde defendeu o Beira-Mar. A aposentadoria dos gramados ocorreu em seguida. Então, a decisão de ser treinador foi antecedida por muito estudo. Completou todas as licenças da Uefa e trabalhou em clubes da quarta divisão alemã até ter oportunidade nas categorias de base da seleção. Do time sub-15 até o sub-18, comandando jogadores que hoje brilham no cenário europeu, como Timo Werner, do Chelsea.

"Eu tive experiências com vários tipos de treinadores. Teve um treinador, que foi campeão com a seleção da Alemanha em 1990 [como jogador, Günther Hermann] que nunca falou comigo. Só quando eu cheguei e quando fui embora do clube. Eu tinha que escolher o tipo de treinador que seria, o caminho que poderia tomar. O treinador que vai brigar com jogador, ser mais duro, xingar, como vejo muitos treinadores no Brasil, ou o treinador que busque soluções para os jogadores. Eu prefiro encontrar os caminhos para o time", contou em entrevista ao UOL Esporte.

A relação com o Brasil o fez mudar de continente. Após a morte do pai, em 2017, optou por buscar sucesso no país onde possui a maior parte da família, de raiz materna.

"Eu amo este país. Tenho mais família aqui, uma família muito grande. Eu sempre me senti como um brasileiro na Alemanha. Aqui sou alemão. Sempre torci pelo Brasil. No 7 a 1, eu desliguei a TV logo em seguida. Até hoje tem pessoas com quem não falo por causa daquele jogo, que briguei mesmo. Meu coração é brasileiro", disse.

Feito histórico pelo Rio Branco-ES

Técnico Andre Visser durante treinamento do Rio Branco-ES - Reprodução/Intagram - Reprodução/Intagram
Imagem: Reprodução/Intagram

O primeiro trabalho no Brasil foi o Rio Branco-ES, onde fez história na Copa do Brasil. O clube jamais havia passado de fase ou vencido um jogo sequer na competição até este ano. Com Visser no leme, o time fez 2 a 1 no Sampaio Corrêa e avançou de etapa.

"Jogávamos no 4-1-4-1, e meu volante foi expulso. Todos estavam muito nervosos. Eu pensei: quer saber de uma coisa, precisamos ganhar este jogo. O empate não adianta nada. Fiz algumas trocas no intervalo, nada de mágico, mas o que entendemos ser melhor. Os jogadores sabiam o que fazer. Se você colocar um balde de informações para eles, não vão entender o que você precisa. Mas ganhamos porque jogamos com disciplina tática", contou.

Visser teve trajetória interrompida no clube porque testou positivo para Covid-19 e sofreu com os efeitos da doença, tendo, inclusive, parte dos pulmões comprometida. Ele não participou da eliminação na Copa do Brasil, para o Vitória, na segunda fase. Já recuperado, reassumiu o time na Série D, mas se deparou com um grande problema no futebol brasileiro: a falta de organização.

"Na Europa há clubes desorganizados também. Mas quando cheguei no Brasil [há dois anos] tinha fechado com um clube e disseram que não poderiam trabalhar comigo porque eu merecia uma estrutura melhor, que não tinham materiais, quebraram contrato comigo antes de eu começar. Nunca vi isso. No Rio Branco, 50% dos contratos dos jogadores profissionais venciam no meio do campeonato. Cheguei a ter que colocar dinheiro meu, comprar materiais para o clube", disse.

"Para mim, é importante que se tenha um projeto. Sei que não é de hoje para amanhã, não preciso de tudo do melhor só porque sou alemão. Sei como funciona o futebol brasileiro. E na Alemanha mesmo teve clube da terceira divisão que quebrou no meio do campeonato", acrescentou. Em agosto, ele deixou o Rio Branco-ES pela segunda vez.

Preconceito antes do trabalho

Alemão Andre Visser busca sequência no futebol brasileiro em novo projeto - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

No início de sua trajetória no Brasil, Andre conviveu com a desconfiança. Antes mesmo de assumir o time, houve dúvidas e comentários que desgostaram o profissional.

"Quando cheguei aqui falavam que eu não tinha experiência no futebol do Espírito Santos. Eu estudei futebol durante quatro anos e trabalhei na Federação da Alemanha, joguei futebol profissional, e falavam que não tenho experiência? Falavam que não sabiam se eu falava português, se eu saberia como é o futebol brasileiro. Diziam que eu não ganharia nada atrás do computador. Mas não sabiam nada de mim. Nunca tive problema com nenhum jogador brasileiro. O jogador brasileiro foi a minha melhor experiência", disse.

Futuro no Brasil e expectativa por projeto

O futuro de Visser é no Brasil. O objetivo, agora, é encontrar a oportunidade de seguir trabalhando no país. Houve até princípios de conversas com clubes de Série C e D, mas o alemão espera o melhor projeto para iniciar.

"Quando cheguei ao Brasil falavam que o jogador brasileiro não quer saber de outra metodologia, que eu não conseguiria. Mas peguei o primeiro clube, fizemos 6 a 0 na estreia, ganhamos o segundo jogo por 1 a 0 com mais de 40 graus. Eu, alemão, quase morri no sol. E fizemos história na Copa do Brasil. Quero ser treinador para ajudar o jogador a achar soluções, o caminho certo. Lidar com o jogador brasileiro é mais fácil do que com o alemão. Eu adorei. Depois, na Série D, quando peguei o time de novo, a situação já estava ruim, mas conseguimos ainda assim mudar a ideia de jogo em poucos dias. Isso mostra como a nova metodologia funciona porque o jogador brasileiro está acostumado a se adaptar", contou.

"Teve alguns clubes e torcedores que me mandaram mensagens. Conversei com alguns clubes e sei que há projetos interessantes no Brasil. Minha experiência no Rio Branco com a torcida foi muito boa. Muitos torcedores querem que eu volte. Mas eu espero um projeto bom, até agora não encaixou", acrescentou.

O que está definido é que o futuro está no Brasil. Voltar para a Alemanha só aparece no calendário no ano que vem, quando irá renovar as licenças da Uefa e seguir buscando espaço no cenário do futebol.

"Eu gostei muito dos 15 primeiros minutos de Flamengo e Palmeiras. Mas depois veio uma quebra. Eu acho que, taticamente, a terceira divisão da Alemanha é do mesmo nível que a primeira do Brasil. Quando fiz a licença da Uefa, falei com um professor que me disse que o Brasil criou uma evolução gigantesca quando adotou linha de quatro jogadores na defesa. Todos olharam para a América do Sul. Mas, parece que depois disso parou. Há duas coisas que me incomodam no futebol brasileiro, as transições, ofensiva e defensiva, e balançar a bola de um lado a outro. O jogador brasileiro é top, ele tem tudo, e por que não faz? Tecnicamente é bom, fisicamente é muito melhor do que eu imaginava. Mas taticamente tem este desafio", finalizou.

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