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'Primo' de Gerson troca Fut7 do Grêmio por time de campo e encara adaptação

Juninho Antunes, "primo" de Gerson, assina contrato para jogar no São José-RS - Divulgação/Luciano Maciel
Juninho Antunes, "primo" de Gerson, assina contrato para jogar no São José-RS Imagem: Divulgação/Luciano Maciel

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

21/10/2021 04h00

Juninho Antunes trilhou um caminho pouco convencional no futebol. Cria da base do Fluminense, a distância de Xerém para os treinos do campo o fez desistir. Ao invés de tentar a sorte nos gramados, preferiu investir no Fut7 e teve sucesso. Mas agora, aos 24 anos, ele ganhou uma nova oportunidade e decidiu apostar. Deixou o Grêmio Fut7 para defender o São José-RS disposto a encarar a dura adaptação de quem "muda de piso".

A trajetória de Juninho começou promissora na base do Flu, mas o que poderia significar o início no campo, acabou dando lugar aos jogos no piso sintético para garantir o pagamento e ajudar a família.

"Havia muita dificuldade de ir, era longe, fiquei [morando] em Xerém e os treinos eram longe. Isso acabou me desanimando. E por não me aproveitarem, acabei migrando para o Fut7, que o treino era próximo [de onde morava] e tinha, na época, alguns times que pagavam os jogadores e eu poderia ajudar em casa e a minha família", contou em entrevista ao UOL Esporte.

Do Flu, ele carrega amizade com Gerson, ex-Flamengo que atualmente joga no Olympique de Marselha, da França. Tanto que, mesmo de famílias diferentes, eles se chamam de "primo".

"Minha relação com Gerson começou quando eu fui treinar no Fluminense, e ele já estava lá. Ele treinava na categoria de baixo, mas como ele tinha muita qualidade, subia e treinava com a gente também. Surgiu minha amizade com ele, e ele começou a me chamar de primo do nada. Eu também chamo ele assim. Por isso falamos que somos primos. Temos vários amigos em comum", contou.

Já separado do campo, a carreira decolou nas quadras. Juninho foi campeão do Brasileiro e da Copa Rio pelo Vasco, ganhou duas vezes o Brasileiro, o Carioca sub-23 e duas vezes o Carioca pelo Flamengo, e levantou a taça da Copa Governador, da Liga das Américas, da Copa da Liga, do Gaúcho e da Recopa pelo Grêmio. Além de ser eleito melhor jogador da Copa Rio de 2017 e melhor ala do Carioca de 2020.

"Depois dos anos jogando Fut7, conquistei muitos títulos e conquistei coisas pessoais, graças a Deus. O que me motivou a voltar ao campo foi ir em busca do sonho. Como estou mais velho, com a cabeça no lugar, fui em busca do sonho de realizar meus objetivos", comentou.

Adaptação facilitada pelo gramado sintético

Juninho Antunes atuando pelo time do Grêmio de Fut-7 - Luciano Maciel/Divulgação - Luciano Maciel/Divulgação
Imagem: Luciano Maciel/Divulgação

Juninho ainda era jogador do time de Fut7 do Grêmio quando a vaga no São José apareceu. Mas, para jogar definitivamente no clube precisaria passar por um período de adaptação na equipe sub-20. Se mostrasse qualidade e facilidade para mudar de modalidade, permaneceria. E foi o que aconteceu. A adaptação, também, acabou facilitada pelo campo artificial do estádio Passo D'Areia.

"Como no São José é grama sintética, a adaptação foi boa. A questão foi mais física, o campo exige mais. Foi só no início que senti um pouco, mas depois me adaptei facilmente aos treinos e estou mais tranquilo", comentou.

"Hoje, meus planos são fazer uma boa Copinha [Copa FGF], pelo São José e conquistar meu lugar no time titular para o Gauchão", completou.

Entre dificuldades e exemplos

Mithyuê em ação pelo Grêmio no Campeonato Gaúcho de 2010 - Neco Varella/Freelancer - Neco Varella/Freelancer
Imagem: Neco Varella/Freelancer

"Do salão para o campo é mais difícil se adaptar. Como eu fui do campo para o Fut7 é mais tranquilo, porque já tinha um porte físico legal e mantive no Fut7. Agora, pude voltar e me adaptei aos poucos", assim, Juninho avalia as dificuldades que vários jogadores tiveram ao mudar de modalidade.

São vários exemplos de astros do futsal que não conseguiram sequência de sucesso no campo. Falcão e Manoel Tobias, por exemplo, eleitos melhores jogadores do mundo nas quadras, não tiveram o mesmo sucesso nos gramados.

Um exemplo mais recente foi Mithyuê, que depois de ser considerado sucessor de Falcão no futsal recebeu oportunidade de completar categorias de base e subir ao principal do Grêmio. A aventura nos campos durou de 2008 a 2013, com passagens também por Athletico Paranaense, Juventude, CSA e Pelotas. Ele chegou a ser eleito melhor jogador de um Brasileiro sub-20, tinha apreço da torcida, mas nunca se firmou. Em 2014, ele optou por voltar ao futsal e atualmente, com 32 anos, atua no Jaén Paraíso Interior, da Espanha.

Julinho Camargo é o novo gerente de transição do Internacional  - Divulgação/Inter - Divulgação/Inter
Imagem: Divulgação/Inter

"Todo atleta precisa de pelo menos dois a três anos de paciência, ensinamento e desenvolvimento nessa passagem de um esporte para o outro. Você sai de um espaço reduzido e passa a jogar um futebol onde se faz necessário passes de média e longa distância, arremates de média e longa distância. Em vários momentos no campo, você tem que achar soluções em espaços curtos, mas em vários momentos tem que achar soluções para jogadas de 30, 40, 50, 70 metros. Essa diversidade de exigências faz o processo de transição de futsal para o campo. Muitas vezes, o jogador de sucesso no futsal não encontra o mesmo sucesso no campo, vai muito da transição e da capacidade", contou Julinho Camargo (foto), que trabalhou com Mithyuê na base do Grêmio e atualmente é gerente de transição entre a base e o principal do Inter.

Além de Mithyuê, Julinho também levou Ferrão, pivô da seleção brasileira de futsal, para base do Grêmio. Ele, porém, desistiu dos gramados mais cedo.

"Levamos o Mithyuê e o Ferrão para um período conosco. O Mithyuê ficou conosco por um ano e meio, foi um dos destaques do Brasileiro sub-20, depois deste período eu saí do clube e não acompanhei o restante. Tinha muita esperança que ele tivesse sucesso no principal, mesmo chegando tarde para a transição. Vi ele jogar de longe, ele acabou voltando ao futsal. O Ferrão voltou ao futsal e hoje joga na seleção brasileira", contou.

No Fut7, porém, há exemplos de jogadores que conseguiram migrar e construir carreira. Chay, do Botafogo, começou no campo, chegou a atuar profissionalmente, mas se aventurou na quadra sintética no meio da carreira, com grande destaque. Esteve na seleção brasileira da modalidade e foi campeão da Copa do Mundo. Após algumas temporadas, regressou aos gramados e atualmente ocupa posto relevante no Alvinegro.

O mesmo vale para Victor Bolt, que também chegou a atuar profissionalmente e trocou o campo pelas quadras. Quando era considerado um dos melhores jogadores em atividade no Fut7, optou por retornar aos gramados atuando no Bahia, em Portugal, no Madureira, no Vasco, no Goiás, na Portuguesa, no futebol chinês, e atualmente no Botafogo-SP.

Juninho, agora, vive uma expectativa curiosa. Com 24 anos, poderá fazer seu primeiro jogo no futebol de campo fora da base.

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