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Ricardo Carvalho contesta prazo para naturalizados na seleção portuguesa

Ricardo Carvalho em ação pelo Chelsea em 2010 - Mike Hewitt/Getty Images
Ricardo Carvalho em ação pelo Chelsea em 2010 Imagem: Mike Hewitt/Getty Images

Bruno Andrade

Colaboração para o UOL, em Lisboa

06/10/2021 04h00

Considerado um dos maiores zagueiros da história de Portugal, Ricardo Carvalho ainda era praticamente um novato na seleção nacional quando viu o companheiro Deco, com quem jogava no Porto, ser convocado pela primeira vez em 2003. Quatro anos depois, já com outro estatuto dentro do grupo que tinha Cristiano Ronaldo e Nuno Gomes, ajudou a recepcionar outro brasileiro naturalizado português: Pepe.

Mais de uma década depois, os portugueses continuam a apostar em jogadores de origem brasileira: Liedson, Dyego Sousa e, mais recentemente, Otávio e Matheus Nunes - o segundo chegou a recusar um convite de Tite para representar o Brasil.

Ricardo Carvalho é hoje auxiliar técnico do compatriota André Villas-Boas e está sem clube desde a temporada 2020/2021, quando os portugueses se desligaram do Olympique de Marselha. Para o ex-defensor, o prazo de cinco anos para um estrangeiro ter direito a representar a seleção portuguesa é curto, especialmente agora que o país tem revelado cada vez mais jovens promissores.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o antigo zagueiro de Chelsea, Real Madrid, Mônaco e Shanghai SIPG também aproveitou para rasgar elogios a Abel Ferreira e Hulk e reforçou o desejo de Villas-Boas de um dia trabalhar no futebol brasileiro - o treinador recentemente foi alvo do São Paulo.

Nas últimas semanas, dois jogadores nascidos no Brasil, Otávio e Matheus Nunes, optaram por representar Portugal. Tornou-se, novamente, uma discussão nacional. Você estava na seleção quando Deco e Pepe foram chamados pela primeira vez. Direto e reto: como eles foram recebidos por vocês?

Era uma questão muito pessoal. Na altura, o Deco foi um bom exemplo, foi uma opção bem conseguida para Portugal. Ele adaptou-se muito bem à seleção também. Foi tudo muito rápido, a seleção portuguesa agiu rápido para garantir. O Deco já sentia-se também muito em casa, porque já estava há muitos anos em Portugal.

Mas houve alguma restrição ou reclamação por parte do grupo de jogadores da seleção?

Eu era novo na altura, tinha mais ou menos a idade do Deco. Havia muitos jogadores mais maduros e com mais tempo de casa, como Rui Costa, Fernando Couto, Figo... portanto, houve muita especulação. Mas dentro do grupo de trabalho não teve nada, estávamos ali para trabalhar, representar o nosso país. O Deco e o Pepe são bons exemplos de adaptação ao nosso país, por isso convenceram a FPF (Federação Portuguesa de Futebol). Sinceramente, acho que não é preciso nascer obrigatoriamente em Portugal para representar a seleção, mas acho muito pouco o prazo de cinco anos [para ter o direito a jogar na seleção]. Ainda por mais, somos um país que tem muitos jogadores talentosos na formação.

Nota da redação: Qualquer cidadão estrangeiro que reside em Portugal há cinco anos tem direito à cidadania portuguesa.

Matheus Nunes e Otávio estão dentro da regra dos cinco anos...

Sim, as regras são para todos, e o Otávio e o Matheus Nunes encaixam neste segmento. Eles acreditam que estão em casa em Portugal, querem representar Portugal. Espero que, assim como aconteceu com os outros no passado, sejam bem recebidos. O mesmo serve para todos os outros que queiram jogar pelo nosso país, representar o nosso país.

Apesar de ter levado Portugal ao título da Eurocopa em 2016, que, inclusive, contou com a sua participação, Fernando Santos tem sido muito criticado nos últimos anos. Concorda com as cobranças?

É normal. Temos muito talento, sempre tivemos talento, mas, agora, cada vez mais temos visto surgir novos e novos talentos. O povo português quer ver a seleção jogando melhor. Claro que os resultados que tivemos a partir de 2016 também ajudaram para que os torcedores cobrassem mais. Nós achamos que poderíamos fazer mais, e agora temos que dar um tempo também. O Fernando Santos, desde 2015, foi o primeiro a acreditar na seleção, achar que nós podíamos realmente ganhar um título. Nunca duvidou da equipe dele, passou a mensagem forte para o vestiário, que éramos capazes de ganhar. Agora, por vezes, o futebol é isso. Não acontece sempre, não é fácil chegar sempre às semis, às finais. É normal que critiquem o Fernando Santos, porque é assim em Portugal e em todo o lado.

Como vê o sucesso - e também as críticas em cima - do Abel Ferreira no Brasil?

O Abel, sinceramente, tem feito um trabalho extraordinário. Acho que tomou a decisão certa, na altura certa, em ir para o Brasil, em aceitar o desafio do Palmeiras. Tem feito um percurso espetacular. É verdade que no mundo do futebol o que dita a regra é o resultado, mas é preciso ter talento para atingir tamanho sucesso. Nós, portugueses, estamos muito contentes com a trajetória dele no Brasil. É o reconhecimento que o treinador português tem capacidade, tem qualidade para vingar tanto na Europa como no Brasil, que tem um campeonato difícil, com muitos jogos e muitas competições.

Apesar de não trabalhar na Europa, o Abel Ferreira está entre os melhores treinadores portugueses da atualidade?

Temos grandes treinadores dentro e fora de Portugal, vários com gigante conhecimento de trabalho. Agora, honestamente, acho que ele tem um talento enorme e, neste momento, é um dos melhores. Claro que numa situação diferente, porque é um profissional que começou faz pouco a carreira como treinador, mas tem dado resultados e segmento ao trabalho que tinha feito nos anos anteriores em outros clubes.

Já são dois anos como auxiliar do André Villas-Boas - estiveram juntos no Olympique de Marselha. Já pensa em dar o salto para treinador?

É um prazer fazer e continuar a fazer parte da comissão técnica do André Villas-Boas. Como todos sabemos, ele é um treinador de muito talento. Começar a trabalhar em um nível tão alto tem sido um orgulho enorme. Estou completamente satisfeito com o que faço com o André, ou seja, como auxiliar. Quero aprender, evoluir e cada vez mais ajudá-lo. Não estou pensando em ser treinador agora, sinceramente. O meu foco é melhorar como auxiliar, ajudar ainda mais nesta função.

Trabalhar no Brasil é uma ideia que passa pela sua cabeça... e também pela cabeça do Villas-Boas?

Sim, acho que é um projeto dele, é um sonho que ele tem. A verdade é que a decisão de ir para o Brasil ou continuar na Europa, no fundo, vai ser dele. A decisão é sempre dele. O André acompanha muito o futebol brasileiro, é apaixonado pelo futebol brasileiro. Acho que faz parte dos planos dele, um dia, mais tarde, treinar uma equipe no Brasil.

O São Paulo foi colocado como um potencial destino para vocês no começo deste ano, poucos dias antes da contratação do Hernán Crespo. Por que não vieram?

Não passou de uma especulação, a gente soube mais pela imprensa. Tinha sido muito recente a nossa saída do Olympique de Marselha. Foi muito precoce, uma semana depois já começaram as notícias que o São Paulo estava interessado no André. Mas, na altura, estávamos definindo a nossa saída da França, então não comentamos muito entre nós sobre a situação do São Paulo.

Surpreso com o sucesso do Hulk no Atlético-MG? Vocês jogaram juntos na China e criaram uma forte amizade...

É das melhores pessoas que conheci no futebol. Se cuida muito, trabalha muito, quer sempre melhorar, quer sempre mais e mais. Fico contente com o sucesso dele no Brasil. Tem sido um sonho realizado, porque ele sempre quis voltar para jogar no país onde nasceu. É uma aposta ganha. Destaco, acima de tudo, a preocupação dele em recuperar rápido e ficar 100% no dia seguinte. Leva a recuperação muito, muito a sério. Isso, claro, sem falar da força e da qualidade. Continua a jogar em alto nível.

Recentemente, você declarou que a "agressividade" fez e ainda faz do Pepe um grande jogador. Eu compreendi o que quis dizer na altura, mas vale questionar: qual é a diferença entre "ser agressivo" e "ser maldoso"? Porque é uma linha tênue...

O Pepe está no limite. Quis dizer que ele precisa dessa agressividade para ser o jogador que é, não quis dizer que ele passa um pouco da linha, não quis dizer que é maldoso. O Pepe, para ser o jogador que é, precisa dessa agressividade. Todos os jogadores precisam ser agressivos, especialmente os defensores. Não acho que seja uma questão de maldade. Claro que, por vezes, pode ter um exagero ou outro, que todos temos, mas não é questão de maldade. É, sim, de agressividade. Ele é agressivo por natureza durante os jogos.

Você também já admitiu que era um pouco "desligado" no começo da carreira como jogador. Hoje, no papel de auxiliar, como olhar para um jogador "desligado" e automaticamente não julgar que ele não tem vontade e compromisso? Por que isso pode confundir...

É verdade. Acho que todos os jogadores deveriam fazer, pelo menos, o primeiro nível do curso para treinador. Serve para perceber um pouco melhor como é que as coisas funcionam. Por exemplo: cada jogador tem a sua mentalidade. Sendo assim, não podemos tratar todos de forma igual. Há formas e formas de tratamento, cada jogador absorve de um jeito. É difícil ser treinador e gerir um grupo de trabalho com mais de 24 jogadores.

Um dos seus filhos, o Rodrigo, é zagueiro e joga na base do Olympique de Marselha. Se revê nele ou vice-versa?

Sim, vejo que o Rodrigo tem muito o meu jeito de estar em campo, alguns tiques também parecidos com os meus. Agora, não penso que ele tente copiar a mim, porque dentro de campo não há tempo para isso. É inteligente a jogar, tem evoluído tecnicamente. Aliás, penso que ele é mais evoluído tecnicamente do que eu quando tinha a idade dele. Jovens com 16 anos anos estão ainda num processo de evolução, então não tenho dúvidas que vai continuar a melhorar.

A ideia do Rodrigo passa por jogar profissionalmente no Olympique de Marselha ou há outros planos em mente?

Ele foi convidado a continuar no Marselha, apesar de eu já não estar no clube. Isso quer dizer muito, o melhor é deixá-lo crescer normalmente. No futebol nunca se sabe o dia de amanhã. Todas as partes estão contentes neste momento.

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