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Superação, gols e dancinha no Tiktok: como Luiz Henrique virou xodó no Flu

Luiz Henrique superou pobreza antes de embalar gols pelo Fluminense com dancinhas no Tiktok - Lucas Mercon/Fluminense FC
Luiz Henrique superou pobreza antes de embalar gols pelo Fluminense com dancinhas no Tiktok Imagem: Lucas Mercon/Fluminense FC

Caio Blois

Do UOL, no Rio de Janeiro

26/09/2021 04h00

Classificação e Jogos

Foi descalço em um campo de terra, aos sete anos, que mais uma revelação do Fluminense chamou a atenção com a bola nos pés. No Vale do Carangola, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, o menino não tinha roupas nem chuteira para jogar futebol. A superação e a ajuda de um professor, entretanto, ajudaram Luiz Henrique a realizar sonhos e embalar seus gols como profissional com dancinhas do Tiktok.

Hoje com 20 anos, o atacante já foi convocado para a seleção brasileira sub-20, conquistou títulos nas divisões de base e virou destaque da equipe de Marcão no Brasileirão. Irreverente, dribla a timidez como um marcador para sorrir e rebolar em vídeos que fazem sucesso pela internet. Antes, precisou de ginga para passar por problemas que poderiam impedi-lo de chegar até aqui.

Filho do cozinheiro Luiz Carlos e da faxineira Luciele, "Zulu", como era conhecido, se destacou em uma pelada em um campo de terra batida em Carangola e foi convidado por seu "segundo pai", Johnny Max, para jogar na escolinha que leva seu nome, próxima ao local.

No projeto social, sempre uma categoria acima de sua idade, o tímido Luiz Henrique se destacou até ser observado pelo coordenador técnico Marcelo Veiga e o supervisor Edgard Maba. Foi chamado para um período de testes em Xerém.

"Nos primeiros treinos, ainda me sentia sozinho. Era muito tímido. Só me soltava em campo com a bola no pé. Ali eu tentava imitar o Messi, nos dribles curtos, no foco, e rapidamente me destaquei", contou Luiz Henrique, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, citando seu maior ídolo, que dá nome ao seu cachorro, um pastor suíço de dois anos.

Começava ali mais uma história de um jovem que deixou a favela para ganhar o mundo. Os mais de 40km de serra que separavam Xerém da humilde e pequena casa que Luiz dividia com sete irmãos e os pais eram percorridos primeiro apenas duas vezes na semana.

Luiz Henrique com Johnny Max, seu "segundo pai": professor de escolinha o levou ao Fluminense - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Luiz Henrique com Johnny Max, seu "segundo pai": professor de escolinha o levou ao Fluminense
Imagem: Acervo Pessoal

A família não reunia condições de arcar com os custos para ir e voltar. O professor Johnny Max, o "segundo pai" e professor da escolinha, ficou responsável pelo percurso. A dificuldade era tanta que o menino seguia em Xerém usando a mesma roupa, ainda do projeto social, a única que servia para o futebol.

Os dirigentes avisaram a ele que o jovem, já feliz com a oportunidade, ficaria no clube. Primeiro, era preciso superar a dificuldade financeira.

[Luiz Henrique] Não tinha roupas, chuteira ou o dinheiro para as passagens. Eu não recebia nada com o projeto social. Usava um carro velho, que às vezes dava problema, para ir e voltar com ele. Era cansativo. Nem sempre tinha dinheiro para um bom lanche, mas dava um jeito de levar alguma coisa para ele comer. Gastei o pouco que tinha porque meu coração mandava. Deu certo. Tentei ser jogador, não consegui e me realizo nas conquistas dele."
Johnny, emocionado, à reportagem

De duas para três vezes na semana e então, todos os dias, Luiz Henrique descia do Vale da Carangola até o Centro de Treinamento do Vale das Laranjeiras, em Xerém, com o sonho de ser jogador de futebol. Passou por todas as categorias, jogou em uma geração que fez história nas divisões de base e, como num passe de mágica, lá estava ele em campo contra o River Plate na Libertadores.

"Só queria jogar bola. Foi tudo muito rápido. A ficha só caiu quando fiz um gol contra o Criciúma [já em 2021, na Copa do Brasil]. Ali eu senti que estava jogando com o Fred, no Fluminense, fazendo gols. Era profissional. O sonho tinha virado realidade. Depois, veio a Libertadores. Eu estava no Maracanã, titular, contra o River Plate. Nunca vou esquecer esse dia", resume.

E se hoje realiza sonhos e projeta outros mais, o jovem nem imaginava que sairia de uma comunidade carente no Vale do Carangola, jogando descalço para a fama no Brasileirão.

"Sofri muito no começo. Adaptação, era tudo mais difícil pela timidez. Sou um menino de comunidade, vim de baixo, não tinha nada, demorei muito para me adaptar. Fico muito feliz de estar no profissional, vivendo coisas boas, recebendo muitos elogios, todo mundo fala comigo, me reconhece na rua. Espero daqui para a frente evoluir, jogar bem e dar alegrias para a torcida e para a minha família".

Quando questionado sobre o próximo objetivo a ser realizado, ele mal deixou a pergunta terminar.

"Quero ganhar muito título com a camisa do Fluminense. Virar ídolo. O resto vem depois, consequência".

Fora de campo, FreeFire e Tiktok

Aos 20 anos, Luiz Henrique não foge à regra dos jovens e é um ávido consumidor de redes sociais e games. O preferido não é de futebol, mas o FreeFire, para smartphones, uma febre mundial. Seus companheiros Calegari, Martinelli e Gabriel Teixeira costumam ser parceiros também no jogo pelo celular.

"Fora do campo, sou tranquilo. Não gosto de sair. Quando eu saio, é com a minha esposa, com a família, para jantar ou fazer alguma coisa mais leve. Em casa, gosto muito de jogar Free Fire. Faço isso o tempo todo [risos]. Biel é quem mais joga comigo, mas Calegari e Martinelli também aparecem às vezes. Prefiro do que os jogos de futebol, mas assisto bastante e gosto de ouvir sobre futebol fora de campo também", explica.

Além dos games, as dancinhas no TikTok ficaram famosas entre os torcedores. Tímido nas palavras, o atacante do Fluminense se solta na frente das câmeras. Influenciado pela esposa, Carolina, ele faz sucesso, e o clube aproveita o talento do jovem também nas redes sociais.

"Via muito minha mulher fazendo, um dia ela me chamou para dançar. Fiz a dancinha, depois fui gostando, fui gostando, fui me soltando do nada e daqui a pouco já estava fazendo várias [risos]. Quando fiz um gol, viram o Tiktok, pediu para fazer a dancinha e pegou. A torcida gostou. Eu tô continuando. Quando faço gol já me chamam para dancinha. Tem acontecido muito, né?", brinca o jovem.

Com três gols nas últimas três partidas pelo Brasileirão, Luiz Henrique subiu de produção com Marcão e já dobrou sua produção em relação a 2020, ano em que se tornou profissional. Pela ponta direita, o canhoto virou uma arma efetiva no ataque do Tricolor, que evoluiu nas mãos do "novo" treinador e, após as eliminações nos mata-matas, está invicto há seis jogos na principal competição nacional.

'Papai Fred e Tio Egídio'

A ótima relação com os jogadores mais experientes é sempre destacada pelos moleques de Xerém no Fluminense. Com "tio Egídio" e "papai Fred" não é diferente. O jovem rasga elogios ao capitão e ídolo, que lhe dá conselhos e aumenta sua confiança.

"Nosso grupo é uma família, e o Marcão conversa muito comigo, assim como o Fred, que é meu ídolo, e outros jogadores experientes. Essa troca com os jovens ajuda muito a gente, me sinto muito confiante e calmo de ter alguém como ele ao meu lado. Jogar com ele é uma experiência incrível, um sonho. Todo dia a gente conversa, ele me diz para aproveitar meu potencial, confiar em mim, ir para cima, chutar muito para o gol. Treino finalizações todo treino por conselho dele. Está dando certo", diz.

Já o lateral-esquerdo é apontado pelo jovem como o líder de outra questão importante no vestiário: a resenha. "Quando junta o Dom [Fred] e o Gidão não tem como. O Egídio é muito engraçado, nosso tio. Fred também adora uma brincadeira, isso facilita demais para os mais jovens se soltarem. Devo muito a eles, me ajudam muito no dia a dia."

Quando a reportagem gravou a entrevista com Luiz Henrique, o noticiário do Flu era pautado pela possibilidade de contratação de Daniel Alves —acabou não dando certo, e o veterano vai ficar parado até dezembro. Agora, a mera possibilidade de ter o lateral-direito como mais um veterano ao seu lado fez o garoto novamente sonhar longe.

"Jogador assim motiva muito. Jogar ao lado do Daniel Alves seria muito bom. Sonho em jogar com ele, Thiago Silva, Neymar, na seleção. Quem sabe?", perguntou.

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