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Filho de Caio Júnior decide ser técnico e é campeão com 4 meses de carreira

Gabriel Saroli orienta o atacante Billy durante treinamento do Atletico Atlanta, dos Estados Unidos - Divulgação
Gabriel Saroli orienta o atacante Billy durante treinamento do Atletico Atlanta, dos Estados Unidos Imagem: Divulgação

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

18/09/2021 04h00

Caio Júnior ainda jogava profissionalmente quando o caçula Gabriel Saroli nasceu para logo virar seu mascotinho pelos gramados do interior. O menino cresceu, e o pai mudou de profissão para trabalhar como treinador. E o mascote não saiu de perto, viveu entre vestiários, viagens e estádios e sonhou com uma vida profissional dentro do futebol ao lado do pai. Os planos foram interrompidos em 29 de novembro de 2016.

Caio Júnior morreu na tragédia do voo da Chapecoense na melhor fase de sua carreira como técnico. Para Gabriel, a perda do pai neste contexto fez com que o futebol se tornasse algo para ser evitado. Foram três anos assim. Nem pela TV dava para aguentar sem ser tomado por sentimentos ruins. Mas o tempo passou, e hoje Gabriel Saroli se orgulha em dizer que tem o mesmo trabalho do pai.

Aos 25 anos, o filho de Caio Júnior é o atual técnico do time sub-23 do Atletico Atlanta, dos Estados Unidos. Em quatro meses desde que assumiu o cargo já mostrou que são grandes as chances de ter puxado pelo menos parte da vocação do pai: no mês passado, foi campeão do torneio regional da Geórgia da UPSL (United Premier Soccer League) Division One. É difícil comparar com o formato de ligas que existe no Brasil, mas seria algo parecido com uma Quarta Divisão.

Saroli - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Gabriel Saroli com a taça de campeão nos EUA
Imagem: Reprodução/Instagram

"A ideia do meu pai era que eu e meu irmão Matheus trabalhássemos juntos na comissão técnica com ele. Meu irmão como auxiliar, o que aconteceria em 2017, e eu na parte física. Ele dizia que não iria se aposentar até trabalhar com a gente. Quando aconteceu o acidente e o perdemos, eu só quis ficar longe do futebol, e por muito tempo foi assim", descreve Gabriel Saroli, ao UOL.

Ele se lembra quando a chave virou: "Em 2019 o Fábio Carille era técnico do Corinthians, e tanto ele quanto o auxiliar dele [Leandro Cuca] tinham jogado com meu pai. Fui assistir a um treino em São Paulo a convite deles, minha primeira vez desde o acidente. Era uma coisa normal para mim, vivi a vida inteira nesse ambiente, mas naquele momento estava distante. Esse reencontro me acendeu uma faísca: 'preciso voltar, nasci para isso, quero estar nisso'. Não sei explicar, mas a partir daquele dia voltei a pensar em maneiras de fazer isso acontecer."

Hoje eu tenho certeza que é nessa área que eu vou seguir. Fiquei muito tempo em dúvida e pensando no que faria da vida, já que não queria mais nada no futebol. Mas percebi que minha missão é manter o nome Caio Júnior vivo dentro do futebol."

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Por que nos Estados Unidos?

Gabriel Saroli morou e estudou nos Estados Unidos durante seis anos. Ele terminou o colegial e fez faculdade na Palm Beach Atlantic University com bolsa de estudos justamente por jogar futebol. Depois de formado voltou ao Brasil para trabalhar com o irmão numa empresa de intercâmbio esportivo e estudar para um dia trabalhar com esporte profissional, mas já pensando em mestrado fora do país. Até que uma coincidência uniu essas duas pontas.

No aplicativo Clubhouse, que consiste em salas de bate-papo temáticas via áudio, ele encontrou e começou a trocar ideia com Sinuê, um ex-atacante que foi companheiro de Caio Júnior no Grêmio. O ex-jogador tinha envolvimento com o futebol semi-profissional dos Estados Unidos e colocou Gabriel em contato com Rodrigo Cruz e João Guilherme Garcia, respectivamente dono e treinador do time principal do Atletico Atlanta.

Saroli - Divulgação - Divulgação
Gabriel Saroli com Rodrigo Cruz, dono do Atletico Atlanta, e João Guilherme Garcia, treinador do time principal
Imagem: Divulgação

"Eu me apresentei por mensagem e contei da minha ideia de trabalhar com futebol, dos cursos e estágios que eu vinha fazendo. O Rodrigo disse que estava buscando alguém com esse perfil, que quisesse vir estudar e trabalhar no clube, que era recém-criado. Acabou que foi perfeito e cheguei no começo de maio. Sou muito grato ao João e ao Rodrigo, que me deram essa oportunidade sem conhecer muito bem", relembra.

Gabriel Saroli hoje é treinador do time sub-23 e auxiliar de Garcia no profissional. Faz mestrado em liderança e aguarda a possibilidade de uma viagem para a Argentina para os exames da licença de treinador da AFA (Associação de Futebol Argentino).

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Gabriel Saroli é técnico do Atletico Atlanta sub-23
Imagem: Divulgação

Os desafios da profissão

O time que Gabriel Saroli dirige é semi-profissional, o que torna a exigência técnica naturalmente menor. Aos 25 anos, ele ainda acumula o desafio de comandar jogadores com idade parecida com a dele. No trabalho de assistente da equipe principal passa ordem até para mais velhos.

"Nesse sentido eu agradeço o aprendizado e vivência que tive com meu pai, porque eu saio na frente de muita gente. Não em capacidade, mas por ter vivido e visto coisas que tem gente que vai demorar muito ou nunca vai viver no futebol, de Série A e futebol internacional. Essa experiência me ajuda, vivi minha vida inteira ao lado de um treinador profissional de altíssimo nível. Mas a parte de gestão é com certeza onde senti mais dificuldade", conta, antes de completar:

Meu maior desafio foi saber lidar e ganhar o respeito e admiração dos meninos do time. De certa forma não estaria tão errado quem perguntasse algo tipo: 'mas quem é esse moleque que quer me falar o que fazer?'. Eu entenderia alguém pensar isso, mas sei do que estou falando, tenho capacidade e sinto que ganhei o respeito de todos. Meu pai sempre falava que o principal não só em ambiente de clube, mas na vida, são as relações com as pessoas."

Gabriel Saroli jogava de atacante no futebol universitário e diz que seus treinos hoje são no sentido de tornar o time criativo e goleador. É um técnico com estilo ofensivo. E DNA.

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