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Crefisa não faz favor ao Palmeiras, diz pré-candidato à eleição alviverde

Savério Orlandi em sessão do STJD - Arquivo
Savério Orlandi em sessão do STJD Imagem: Arquivo

Diego Iwata Lima

De São Paulo

24/08/2021 04h00

Classificação e Jogos

"Quem não quer ser presidente do Palmeiras?", indaga Savério Orlandi, 50, conselheiro vitalício do clube alviverde que, sim, quer ocupar o cargo. A cerca de três meses do pleito, e já tendo Leila Pereira definida como adversária, Orlandi aguarda ansiosamente pelo dia em que poderá se apresentar como o candidato da oposição em uma inglória batalha contra a poderosa proprietária da Crefisa e da FAM, patrocinadoras do clube.

"Por enquanto, sou um postulante", disse o advogado, em entrevista ao UOL. Savério é sócio do clube desde 1983, conselheiro há cerca de 20 anos e membro do COF —o Conselho de Orientação e Fiscalização do clube. uma espécie de senado dentro do Palmeiras— em quatro das últimas cinco legislaturas e ex-diretor. E aguarda que todas as correntes oposicionistas convirjam em torno de seu nome para que ele concorra à presidência.

O pré-candidato Savério tem diversas críticas à gestão de Mauricio Galiotte, de quem foi aliado, que vão da não retomada dos times principais de basquete e futsal ao cerco das ruas do entorno do estádio em dias de jogo, passando pela relação com a Crefisa, as finanças e a condução da política no clube. "Mauricio recebeu um clube harmonioso e vai sair com um cenário rachado", diz.

Orlandi diz não ter nada pessoal contra Leila Pereira, a quem quer derrotar. Tampouco dá de ombros para a importância do patrocínio de suas empresas ao Palmeiras. "É um motivo de orgulho", afirma. "Mas desde a chegada dela, eu a vi nesse processo de cooptação e de minar lideranças no clube, ameaçando com processos judiciais", diz ele. "Há um inconformismo dentro do clube com relação a essa postura dela", afirma.

Segundo Savério, o perfil de Leila foi o que afastou de muitos a ideia de concorrer contra ela em uma eleição. "Ela assustou essas pessoas, que passaram a ter receio de sofrerem retaliações ao se oporem a ela", completa.

E é justamente nisso que Savério vê uma brecha de chance para tentar batê-la na eleição de novembro. "Hoje, ela não tem resistências. Mas vai chegar uma hora em que ela vai precisar compor uma chapa, por exemplo. E pessoas que achavam que teriam destaque ao lado dela podem ficar sem espaço. O grupo dela é muito heterogêneo, e esse tipo de desacordo pode minar a candidatura dela", acredita.

"Ela é antipática, não gosta de ser contrariada, é intempestiva. Pode escorregar em uma casca de banana", acrescenta. "Ela também tem usado muito o clube para eventos dela, e o associado que vai lá aos fins de semana não quer necessariamente lidar com isso", diz. "Nem todo mundo se sente representado por ela", diz.

Até por isso, Saverio quer logo ser oficializado como candidato. "Ela pode até ter oficializado a candidatura há uma semana, mas já apertou o botão da campanha há muito tempo. E a eleição é daqui a três meses, e eu não comecei ainda", diz. "Preciso poder ir no clube, fazer o corpo, apresentar minhas ideias", diz.

"Eu sei que não tenho a popularidade dela ou do Paulo Nobre, mas tenho meu capital político", garante. "Não sou o favorito do Mustafá e de outras lideranças, mas tenho diálogo com todas as correntes", diz ele, que acredita que sua candidatura esteja em desvantagem comparada à de Leila numa relação de 40-60, com base na última eleição para a presidência do conselho. Foi nessa proporção que Mario Giannini, da oposição, perdeu para o situacionista Seraphim Del Grande.

"Os conselheiros não são os sócios, que vão eleger o presidente. Mas são um termômetro", diz Savério.

Relação da Crefisa com o Palmeiras não é de benevolência

Leila  - Cesar Greco - Cesar Greco
Leila Pereira e Maurício Galiotte posam com a camisa do Palmeiras
Imagem: Cesar Greco

Crefisa e o Palmeiras anunciaram na segunda-feira (23) a extensão do contrato por mais três anos. Desse modo, caso subverta a lógica e ganhe a eleição, Savério não terá de se preocupar em conseguir um novo patrocinador para o Palmeiras, caso a empresária tivesse algum sentimento de vingança se não escolhida, já que o contrato anterior se encerrava junto com o mandato de Galiotte.

"A antecipação da renovação contratual é uma excelente medida para mitigação de um dos conflitos específicos da candidata, que é a possível mandatária e também seria patrocinadora", diz ele. " É a materialização do conceito que sempre defendi muitas vezes, desde a chegada dela em 2015: o relacionamento da Crefisa com o Palmeiras é pautado por um jogo de ganha ganha, o que dá segurança e interesse a ela, além de certeza de permanecer no negócio mesmo que não seja vencedora do eleição", diz.

"É claro que o palmeirense se sente amparado pelo patrocínio da Crefisa, mas às vezes de um modo que beira a mendicância", diz. "Como se ela estivesse fazendo um favor ao patrocinar o Palmeiras. Não tem qualquer benevolência no acordo. As empresas que ela tem são sólidas, é claro. Mas a Crefisa se beneficiou bastante do Palmeiras. E a FAM, que era modesta, tem hoje o tamanho da Uninove, por exemplo. E é claro que o Palmeiras teve importância nisso", diz.

"O contrato de patrocínio dela com o Palmeiras é diferente de todos os contratos, prevê inclusive uso da imagem dos jogadores. Ela paga R$ 81 milhões, mas porque ela comprou todas as propriedades de patrocínio. O Palmeiras não pode negociar nenhum pedaço de seu uniforme com outra empresa", diz.

Para Orlandi, uma saída da Crefisa do Palmeiras não seria o fim do mundo. "O balanço mostra que o patrocínio corresponde a 18% da receita. Se eles saem, o clube não vai conseguir repor os R$ 81 milhões, mas pode muito bem conseguir um patrocinador para arcar com metade e negociar o restante com outras empresas", diz.

"A empresa que suceder a Crefisa na camisa do Palmeiras vai se beneficiar de um canhão de luz de exposição, imagine. Certamente haverá interessados", afirma.

Mestrado e pós-doutorado em Palmeiras

O Palmeiras entrou na vida de Savério como herança, do avô Alfonso e do pai, também Savério. Já na política do Palmeiras, Savério começou a ter cargos administrativos a partir da gestão de Luiz Gonzaga Belluzzo, entre 2009 e 2010. Aos 40 anos, em dupla com Genaro Marino, ele participou da diretoria de futebol.

"Eu brinco que meus anos na diretoria foram meu mestrado. Mas meu pós-doutorado em Palmeiras veio na época do COF", diz. "É lá que você passa a ter uma visão mais linear da coisa, tem uma abrangência maior sobre a questão estrutural, planejamento, finanças", explica ele.

Gestão Galiotte é vitoriosa, mas desastrosa política e financeiramente

Galiotte  - Fábio Menotti/Ag. Palmeiras/Divulgação - Fábio Menotti/Ag. Palmeiras/Divulgação
Maurício Galiotte, presidente do Palmeiras, e Seraphim Del Grande, presidente do conselho deliberativo
Imagem: Fábio Menotti/Ag. Palmeiras/Divulgação

Saverio era muito próximo de Galiotte, pertenciam ao mesmo grupo político. Mas se afastaram quando o advogado fez o relatório que condenava a relação da Crefisa com o Palmeiras —em especial quanto ao adendo contratual que transformou os jogadores que a empresa comprou para o clube em dívida, após intervenção da Receita Federal.

Até por essa razão, Saverio, embora membro do COF, não foi convidado a acompanhar no Maracanã a final da Libertadores deste ano. "Mas eu dei meus pulos e fui", conta. "Até encontrei ele [Maurico] por lá, não fiquei nada constrangido, não tinha como ficar fora desse jogo", diz.

Para Orlandi, a gestão de Galiotte vai entrar para história como vitoriosa esportivamente, mas desastrosa econômica e politicamente. "Temos receitas, mas temos despesas muito altas", diz. "O Mauricio encontrou um clube pacificado e está saindo deixando um ambiente pouco arejado e pouco harmonioso. Ele foi apoiado por todos, eleito por aclamação, e o clube agora está dividido", diz.

Entre outras medidas da gestão Galiotte, ele critica a não retomada dos times adultos de esportes amadores tradicionais no Palmeiras, como o basquete e o futsal. E também promete tentar mudar algo em relação ao cerco das ruas do entorno do estádio em dias de jogos.

"Não há batedores de carteiras ou usuários de drogas que justifiquem proibir a torcida de fazer um tipo de festa tão tradicional. Isso é mais uma vez o poder público não tratando o futebol do jeito correto, punindo quem tem que punir. Quem é palmeirense sabe que ocupar as ruas próximas ao estádio é muito importante. Isso é parte da nossa história", diz.

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