Topo

Ex-jogador do Atlético-MG diz que goleiro Bruno 'tinha coração sensacional'

Éder Luis protege a bola de Fernandão durante jogo entre do Atlético-MG e Santo André, em 2009 - Pedro Vilela/AE
Éder Luis protege a bola de Fernandão durante jogo entre do Atlético-MG e Santo André, em 2009 Imagem: Pedro Vilela/AE

Augusto Zaupa e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

15/08/2021 04h00

O atacante Éder Luis, com passagens por Atlético-MG, São Paulo, Benfica e Vasco, ainda não pensa em aposentadoria aos 36 anos, depois de ter deixado o Uberlândia. Mesmo tendo em seu currículo títulos de campeão brasileiro, da Copa do Brasil, de dois Estaduais diferentes e até do Campeonato Português.

Se levantou troféus até pelo Benfica, sua carreira acaba bastante identificada com o Atlético, clube pelo qual ganhou destaque no cenário nacional. Pensando em sua história com o Galo, Éder disse, em entrevista ao UOL Esporte, que prefere ver o time mineiro conquistar o Brasileirão neste ano em detrimento da Copa Libertadores —isso caso fosse necessário escolher algum.

Nessa conversa, em meio às lembranças de sua jornada atleticana, tendo jogado mais de 160 partidas pelo clube de Belo Horizonte, chamaram atenção as falas de Éder Luís sobre um antigo companheiro de quarto, o goleiro Bruno. Que, em 2013, foi condenado a 22 anos e três meses de prisão pelo assassinato e ocultação de cadáver de Eliza Samudio e também pelo sequestro e cárcere privado do filho. O atacante afirma que não acredita que o ex-companheiro tenha sido o mentor do crime.

"Fiquei muito triste. Era um potencial que eu nunca tinha visto, o Bruno era um cara que sabia jogar com os pés, debaixo das traves, era impressionante na saída [do gol], era difícil você fazer gol de falta nele, pênalti ele catava muito... O Bruno era um goleiro para estar na seleção brasileira. Infelizmente, pelo que conheço dele, o Bruno foi criado pelos primos, parece que foi para o lado do tráfico", comentou.

"Mas o Bruno tinha um coração sensacional, e eu não acreditei que o Bruno fez isso —pode ter participado, mas ele não teve atitude de chegar ao ponto e falar: 'vamos matá-la'. Mas para mim foi uma grande perda para a seleção brasileira em termos de goleiro. O Diego Alves [titular do Flamengo] foi reserva do Bruno no Atlético-MG, depois o Diego assumiu a titularidade e virou o que é hoje. Infelizmente, o Bruno interrompeu uma carreira que poderia ser linda até hoje por uma tragédia", completou.

A vez do Brasileiro

Éder Luis na sua fazenda em Uberlândia, onde planta soja e cuida de gado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Éder Luis em meio à plantação de soja na sua fazenda em Uberlândia (MG)
Imagem: Arquivo pessoal

Atual líder do Brasileirão, o Atlético-MG defende hoje (14), às 19h, no Mineirão, a posição justamente diante do segundo colocado Palmeiras. Sem conquistar o título do torneio há 50 anos — ganhou a primeira edição do torneio, em 1971 —, o Galo investiu pesado para reforçar ainda mais o elenco estrelado que já tinha à disposição na temporada passada. Desta forma, Éder Luis opinou que o clube mineiro deveria apostar as suas fichas para findar esse longo jejum.

"O Atlético-MG ganhou a Libertadores [em 2013], então está mais tranquilo. Eu acredito que conquistar o Brasileiro vai fazer um bem maior neste momento. É claro que Libertadores é excepcional, o torcedor está feliz demais, mas eu queria ver o Atlético MG campeão brasileiro, acho que o Atlético-MG ficaria completo, iria tirar um peso muito grande", externou o jogador, que atualmente vive em sua fazendo em Uberlândia (MG), onde planta soja e cuida de gado.

Autor de 43 gols ao longo de 161 jogos vestindo a camiseta atleticana, o atacante elogiou a contratação de Hulk, que tem se desatacado na temporada 2021. O camisa 7 é um dos goleadores do Nacional (sete gols) e vice-artilheiro na Libertadores (seis gols), além de servir os companheiros com assistências.

"Eu fiquei feliz demais, porque é um jogador que tem respeito é aquilo que a gente fala da camisa. Ele se impõe, o adversário vê que tem um jogador diferente. As poucas oportunidades que derem para ele, vai fazer o gol e isso faz uma diferença muito grande. Se continuar assim logo, logo vai merecer uma convocação para a seleção brasileira", exaltou.

Confira outros trechos da entrevista:

UOL Esporte: Como foi receber a notícia de um ex-companheiro ser condenado por assassinato?

Éder Luis: É difícil você acreditar. O Bruno é uma pessoa muito humilde, uma pessoa muito bacana. Infelizmente, ele tem um outro mundo dele, outras amizades.... Isso pode acontecer com qualquer um, você acaba sendo influenciado, eu conheci o outro lado do Bruno, quem conhece o Bruno e sabe da humildade dele, do coração que ele tem para ajudar o próximo. Mas ele teve outra vida, como ele foi criado, mas foi uma tristeza porque era um amigo, pensei em visitar ele na cadeia, mas eu não tive coragem, mas hoje se eu encontrar com ele hoje fico triste porque você vê uma pessoa que, com certeza, está arrependido, tentando voltar, tentando ter o seu espaço na sociedade e a sociedade ainda joga uma pedra como se a pessoa não pode ter oportunidade. Só ele colheu. Tenho certeza que ele tem consciência de que foi culpa dele.

UOL Esporte: Mas você acredita que o Bruno mandou matar a Eliza Samudio?

Éder Luis: Não, eu não acredito. Eu acredito que ele pode ter sido influenciado nisso, porque o Bruno iria para a Europa [tinha ofertas do Zenit e do Milan] e estava claro que iria para a seleção brasileira. Ele tinha pessoas ao lado dele que tinham ciúmes do Bruno. Ele iria trocar de contrato, ganhar três, quatro vezes do que ganhava no Brasil, tinha que dar um percentual para o filho. Mas eu não acredito que o Bruno falou: 'mate-a para mim, vamos acabar com isso'. Eu concentrei com ele, tenho certeza que ele não fez, mas foi cúmplice.

UOL Esporte: Quem era mais goleiro na época que você estava no Atlético-MG, Bruno ou Diego Alves?

Éder Luis: Sou amigo do Diego, sou amigo do Bruno, mas eu, particularmente, o Bruno era superior como goleiro. Claro que o Diego é um grande goleiro, tem uma carreira muito sólida dentro e fora de campo, uma vida decente, então muitos vão colocar o Diego Alves à frente do Bruno. Mas tecnicamente, o Bruno era diferente. Para você ter uma ideia, na estreia dele, se não me engano, contra o Internacional, ele machucou o ombro e terminou o jogo com o ombro machucado. O Bruno tinha uma explosão fora do normal.

UOL Esporte: Como foi disputar a Série B pelo Atlético MG em 2006?

Éder Luis: Acredito que a Série B nessa época era um pouco diferente. Hoje, muitos jogadores que estão jogando a Série B não tiveram espaço na Série A. Atualmente a Série B é muito competitiva, não tecnicamente, mas o vigor físico. No ano em que a gente esteve lá com o Atlético-MG, o clube praticamente promoveu os juniores, se eu não me engano promoveu uns 15 jogadores, porque o clube também não passava por um momento bom financeiramente.

Jesus rechaça queixa da associação de árbitros: "Não mereço castigo" - Gualter Fatia/Getty Images - Gualter Fatia/Getty Images
Jorge Jesus foi treinador de Éder Luis no Benfica por apenas seis meses
Imagem: Gualter Fatia/Getty Images

UOL Esporte: Você ficou só seis meses, mas como foi trabalhar no Benfica com o Jorge Jesus em 2010?

Éder Luis: Quando eu cheguei, ele era treinador de equipe mediana em Portugal. Eu estava há 30 dias de férias e em quatro dias o Jorge Jesus me botou para jogar os 90 minutos, joguei normal, empolgado por uma equipe nova, fui até bem, ele me elogiou muito, estava muito feliz comigo e que tinha grandes pretensões comigo. Depois de mais quatro dias tivemos outro jogo e me deu uma febre tão grande que eu não consegui nem treinar. Eles estavam no meio da temporada, eu estava sem treinar e fui falar com o Jorge, disse que não tinha reflexo, precisava de físico. Ele disse que aqui não tem físico, só bola. Fui melhorar no final, quando o campeonato terminou.

UOL Esporte: De todos os treinadores que você trabalhou, o Jorge Jesus é o melhor?

Éder Luis: Pra mim, foi o melhor. Se você fizer uma coisa errada no treino, ele te leva para sala dele. Enquanto não esclarecer tudo, enquanto você não entender o que ele quer, o que você tem que fazer para a equipe, você não sai da sala dele. Eu não sei como ele estava aqui no Flamengo, aquele negócio de quando termina jogo, não se importar se ganhou ou perdeu, ele está preocupado com a equipe dele em produzir, ele é perfeccionista. Tinha jogo que a gente estava ganhando lá em Portugal de 5x0, se a gente tomasse um gol, parecia que a gente perdia o jogo. Ele quer chegar à perfeição. Eu queria ver ele num grande clube da Europa.