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Título da Copa do Brasil faz 10 anos como suspiro em meio à crise do Vasco

Mar de gente toma conta das ruas do Rio de Janeiro para comemorar título do Vasco da Copa do Brasil, em 2011 - Marcelo Sadio / Vasco
Mar de gente toma conta das ruas do Rio de Janeiro para comemorar título do Vasco da Copa do Brasil, em 2011 Imagem: Marcelo Sadio / Vasco

Alexandre Araújo e Bruno Braz

Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ)

08/06/2021 04h00

Quando o árbitro Sálvio Spínola pediu a bola e ergueu os braços, a explosão de alegria que se iniciou no Couto Pereira tomou conta do país e dava um fio de esperança a uma torcida que há tempo não sabia o que era celebrar um título de tamanha expressão. Há 10 anos, o Vasco perdia para o Coritiba, mas chegava ao topo do pódio da Copa do Brasil, conquista inédita até então, e encerrava um jejum de troféus nacionais. Aquela taça, porém, não representou o início de novos tempos, já tão aguardados pelos cruz-maltinos. Pelo contrário, virou sinônimo de um suspiro em meio a uma enorme crise que dura duas décadas.

Nos primeiros passos da temporada de 2011, na verdade, nem mesmo o mais otimista dos vascaínos esperava comemorar daquela forma. Com três derrotas consecutivas no Campeonato Carioca, o clube de São Januário virou retrato da crise pouco depois de amargar o primeiro rebaixamento. O técnico PC Gusmão foi demitido, Carlos Alberto, um dos principais nomes do elenco, foi afastado e emprestado ao Grêmio. Felipe também ficou uns dias longe, mas acabou reintegrado.

Os sucessivos resultados negativos, porém, fizeram a diretoria virar a chave, ir ao mercado e realizar mudanças, até com certa criatividade. Sob a batuta de Ricardo Gomes, a equipe engrenou e teve campanha consistente rumo ao título. No dia seguinte àquela final, os gritos de campeão ecoaram no Centro do Rio de Janeiro, onde uma multidão recebeu a delegação no Santos Dumont e "a levou" até São Januário.

"A Copa do Brasil teve um significado muito importante para todos que participaram dessa conquista, isso porque o Vasco vinha de mais de dez anos sem uma conquista nacional, logicamente o clube e a torcida eram muito carentes disso e o clube era muito cobrado. Foi uma caminhada difícil que culmina nessa conquista. Foi um jogo de decisão com o Coritiba emocionante, viradas no placar e uma final muito sofrida, assim como são as conquistas do Vasco. Isso foi de um significado muito importante para todos nós", lembra Cristóvão Borges, então auxiliar de Ricardo Gomes, ao UOL Esporte.

Cristóvão Borges (esq.), Roberto Dinamite (centro) e Ricardo Gomes (dir.) comemoram título do Vasco da Copa do Brasil - Marcelo Sadio / Vasco - Marcelo Sadio / Vasco
Cristóvão (esq.), Dinamite (centro) e Ricardo Gomes (dir.) comemoram título do Vasco da Copa do Brasil
Imagem: Marcelo Sadio / Vasco

"A clara grandeza dessa conquista foi a nossa chegada e ser recebido pela torcida do Vasco. Foi um momento onde praticamente parou a cidade. Desfilamos até São Januário quase o dia inteiro com uma multidão de torcedores. Ali tivemos a verdadeira noção da grandeza e significado dessa conquista. Foi um momento muito marcante para a história de todos nós", completou.

Ao fim daquele ano, o Vasco ainda ficaria muito perto da conquista do Brasileiro ao terminar a competição na segunda colocação, atrás do Corinthians que, à época, se tornou o grande rival nacional.

De lá para cá, porém, o Cruz-Maltino viu a luta por uma nova alegria como aquela ficar cada vez mais longe. Em campo, foram apenas duas disputas de Libertadores contra mais três rebaixamentos — 2013, 2015 e 2020. Nos bastidores, eleições confusas, com acusações de fraudes, com o que ficou conhecido como "mensalão", brigas entre grupos políticos, constantes intervenções judiciais e até mesmo resultado distinto ao das urnas, como foi o caso da chegada de Alexandre Campello, em 2017. O último pleito, ano passado, chegou a parar no Supremo Tribunal Federal (STF).

Os alentos foram poucos. A equipe conquistou o bi do Campeonato Carioca, em 2015 e 2016. No Brasileiro, no decorrer deste período, a melhor colocação foi a quinta posição em 2012, quando a equipe iniciou bem, mas teve uma derrocada e já dava indícios do que poderia acontecer dali para frente.

Nestes anos, viu-se também um agravamento da crise financeira. Em abril, a cúpula divulgou o balanço financeiro de 2020 — referente ao último ano de gestão de Alexandre Campello — e revelou uma assustadora dívida líquida de R$ 832,2 milhões, sendo que deste montante, R$ 314 milhões são consideradas à curto prazo.

Dinamite: "Eu me emocionei muito"

Maior ídolo da História do Vasco, Roberto Dinamite era o presidente à época, após vencer a eleição em 2008 — que aconteceu depois de a Justiça anular o pleito de 2006 com base em denúncia de fraude por parte da chapa encabeçada por Eurico Miranda. Aquele era o último ano de mandato do ex-atacante, que acabou vencendo nova eleição com certa facilidade e comandou o clube por mais um triênio.

O mandatário lembra com carinho da conquista da Copa do Brasil e afirma que a cúpula do Vasco estava "fazendo um trabalho de recuperação".

"Título importantíssimo para o Vasco, e para mim particularmente também. O que vi quando chegamos após o jogo, aqui no aeroporto, nunca vi nem quando conquistamos títulos em que participei. Foi uma emoção muito grande. A quantidade de gente na rua indo para São Januário... Levamos mais de três horas do Santos Dumont para lá. Foi um momento único e especial. Foi um trabalho feito para que isso pudesse acontecer. Acho que foi legal isso, que foi um time construído em um período difícil do clube, e que culminou com a última grande conquista neste tempo. As coisas ficam presas em resultados, mas a gente vinha fazendo um trabalho de recuperação", afirmou.

Torcida do Vasco é recepcionada por torcedores na chegada ao aeroporto no Rio de Janeiro - Julio César Guimarães / UOL - Julio César Guimarães / UOL
Vasco foi recepcionado por torcedores na chegada ao aeroporto no Rio de Janeiro
Imagem: Julio César Guimarães / UOL

Estrela em campo de diversas conquistas do Cruz-Maltino, Dinamite garante que aquele título de 10 anos atrás foi o que mais o emocionou:

"Para mim, é motivo de orgulho, satisfação. Tanto o jogador quanto o dirigente são cobrados em cima dos resultados, conquistas. Vivemos uma situação delicada, mas viver uma conquista... Aí, eu volto no tempo. Fui campeão do Brasileiro, Carioca, mas me emocionei muito mais com essa conquista, vendo a reação do torcedor no estádio e na volta ao Rio, Aquele foi um ano, realmente, em que pude respirar bem. A conquista veio em um bom momento e tenho maior orgulho disso".

Volta à casa e recorde

Um dos principais nomes daquele título foi Felipe, que ganhou a alcunha de Maestro. Cria do Vasco, começou como lateral-esquerdo e fez parte de uma das gerações mais vencedoras do clube, entre 1997 e 2000. Retornou à Colina no meio de 2010 e, em 2011, já como meia, comandou a equipe ao título, tornando-se o maior vencedor da História do Cruz-Maltino considerando-se competições oficiais.

"A Copa do Brasil foi muito importante porque foi meu retorno ao Brasil, voltei em 2010, no meio do ano, e a torcida do Vasco estava muito carente de títulos importantes, significativos. Era um título inédito para o Vasco, para minha carreira. E com esse título de 2011, acabei tendo o privilégio de ser o maior vencedor da história do Vasco. Então, foi importante em vários fatores", recordou, ao UOL Esporte.

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